Nova Délhi, 13/04/2005 – Índia e China enterraram quatro décadas de disputas por sua fronteira comum do Himalaia ao assinarem uma série de acordos que promovem uma associação baseada na paz e na prosperidade. O primeiro-ministro chinês Wen Jiabao, em visita á Índia, e seu colega indiano, Manmohan Singh, assinaram na segunda-feira uma histórica declaração conjunta e foram testemunhas da assinatura por outros funcionários de 12 pactos, dos quais um promove "acordos significativos e mutuamente aceitáveis" em pontos disputados ao longo da fronteira comum de três mil quilômetros. A disputa fronteiriça gerou uma série de hostilidades e em 1962 levou a uma guerra os dois países mais populosos do mundo. A China tem 1,3 bilhão de habitantes e a Índia 1,1 bilhão. Agora "construiremos uma ponte de amizade entre nossos dois países, uma ponte que nos levará ao futuro", anunciou Wen antes da cerimônia de assinatura dos documentos.
Os dois mandatários também prometeram promover o intercâmbio cultural e aumentar o número de vôos diretos entre seus países. De acordo com o novo ânimo dominante, Wen anunciou nas conversações com Singh que Pequim desistiria de sua posição contrária à expansão do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas e apoiaria a candidatura da Índia como membro permanente desse órgão executivo da ONU. A China, membro permanente do conselho com poder de veto, havia anunciado na semana passada que rejeitaria qualquer moção no sentido de ampliar esse organismo dos atuais 15 integrantes para 24, como propôs no mês passado o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, para aumentar a representatividade.
As relações entre os dois gigantes da Ásia ficaram congeladas depois da breve, mas sangrenta, guerra de 1962. Desde então, nenhuma das partes esteve disposta a ceder em suas respectivas posições. Por esse motivo, a declaração conjunta de segunda-feira foi um marco. As duas partes manifestaram seu convencimento de que "um acordo rápido na questão fronteiriça promoverá os interesses básicos dos dois países e, portanto, deveria ser perseguido como objetivo estratégico". Prevê-se que os acordos de segunda-feira porão fim a anos de suspeitas e hostilidades que reduziram o comércio bilateral a menos de US$ 3 milhões. Agora, os especialistas calculam que o intercâmbio aumentará, no mínimo, para US$ 30 bilhões, já que as duas nações se perfilam como futuras potências.
Wen exortou os dois países a "não permitirem que questões históricas sejam obstáculos no desenvolvimento das relações bilaterais". Para a Índia, isso significaria deixar de apoiar a luta pela independência do Tibet, que começou em 1959 quando o Dali Lama e milhares de seguidores fugiram através do Himalaia para formar um governo no exílio no norte da Índia. Em 1951, o Exército Popular da China invadiu o Tibet, cunha do budismo lamaísta. Pequim reprimiu, então, o sistema religioso e a cultura tradicionais, também aboliu o sistema feudal de exploração agrícola e criou as primeiras comunas. Em 1959, a seita tibetana Chapéu Amarelo iniciou uma falida sublevação, e nesse mesmo ano o Dalai Lama e seus seguidores fugiram para a Índia.
Desde a cidade indiana de Dharmsala, o líder espiritual travou sua luta pela independência do Tibet, atualmente uma região autônoma da China, e pela restauração de suas tradições. Para isso, propôs a realização de um plebiscito sobre a autodeterminação, iniciativa rejeitada por Pequim. Mas, no último dia 10 de março, no 46º aniversário da falida revolta tibetana contra a ocupação chinesa, o Dalai Lama anunciou que ele e seus seguidores estavam dispostos a "permanecerem dentro da República Popular da China" e renunciar à independência do Tibet. Em troca, a China aceitou formalmente a soberania indiana sobre o antigo reino budista de Sikkim, e se prevê que também aceitará o controle de Nova Délhi sobre 35 mil quilômetros quadrados de território himalaio, atualmente incorporados ao Estado indiano de Arunachal Pradesh.
Alguns analistas acreditam que a nova disposição de Pequim em retomar as relações com a Índia se deve à aproximação entre Índia e os Estados Unidos, especialmente no plano militar. O embaixador chinês na Índia, Sun Yuxi, chegou a advertir que "as relações indo-norte-americanas não deveriam se voltar contra um terceiro país". Mas, o que finalmente poderia consolidar as renovadas relações entre duas das mais antigas civilizações do mundo é que ambas se convertem em protagonistas mundiais no plano da tecnologia da informação, e têm amplas oportunidades de complementação mútua nessa lucrativa indústria. A China se destaca na fabricação de equipamentos de informática, e a Índia no de projetos de programas de computadores. Juntas, poderiam reduzir drasticamente os preços internacionais desses produtos e, dessa maneira, diminuir a "brecha virtual" entre ricos e pobres. (IPS/Envolverde)

