Saúde: Parto, o momento da vida, mata!

Nova York, 08/04/2005 – As complicações na gravidez e no parto matam 500 mil mulheres por ano, e quase 11 milhões de meninos e meninas não chegam aos 5 anos de idade. Mas estas tragédias que podem ser prevenidas não são prioridade dos governos, alertou a Organização Mundial da Saúde. "Medidas bastante simples fariam uma enorme diferença", garantiu nesta quinta-feira o médico Ian Smith, assessor do diretor-geral da OMS, Lee Jong Wook. Por exemplo, "um melhor cuidado com os recém-nascidos, cujos primeiros cinco minutos de vida são os mais perigosos", reduziria muito a mortalidade infantil, afirmou Smith.

O relatório da OMS "Cada mãe e cada criança contarão", divulgado nesta quinta-feira por ocasião do Dia Mundial da Saúde, diz que quase 90% das mortes de menores de 5 anos são podem ser atribuídas a seis fatores, que são: nascimento prematura, asfixia durante o parto e infecções (37%), infecções respiratórias baixas, em especial pneumonia (19%), diarréia (18%), malária (8%), sarampo (4%) e aids (3%). Para reduzir esta tragédia, os especialistas da OMS reclamam um cuidado contínuo que comece ainda antes da gravidez e que se estenda ao nascimento e à infância.

Isso implicaria um investimento maciço nos sistemas de saúde, particularmente o deslocamento de médicos, parteiras e enfermeiras, já que milhões de mulheres dão à luz em suas casas sem contarem com atenção especializada. "Temos uma enorme necessidade de recursos adicionais, cerca de US$ 90 bilhões nos próximos 10 anos. por isso, nos perguntamos: quem no mundo está disposto a se comprometer? Quais são nossas prioridades?", perguntou Smith. Dois dos objetivos-chave da Organização das Nações Unidas para 2015 é reduzir a mortalidade infantil a um terço em relação a 1990 e a materna a um quarto.

Noventa e três países estão no caminho de cumprir esta meta. Mas, em outros 43, onde vivem 12% da população mundial, há uma paralisação e, ainda, um agravamento da situação, acrescentou o médico. A maioria destas nações está na África subsaariana, região que enfrenta a ameaça tripla das guerras, da pobreza extrema e da aids. "Uma das palavras-chave do relatório é exclusão", disse Smith. "As mulheres são excluídas dos serviços essenciais e os governos têm a responsabilidade de fazer algo a respeito. Este é o primeiro ano em que combinamos o Dia Mundial da Saúde com o Informe sobre a Saúde no Mundo, como maneira de garantirmos que a mensagem chegue clara e forte", acrescentou.

Por outro lado, o governo dos Estados Unidos provocou uma controvérsia ao lançar uma campanha para reformar o Programa de Ação aprovado por unanimidade na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento realizada em 1994 no Cairo. Washington indicou em uma conferência na sede da ONU, esta semana, sua disposição de apoiar o Programa de Ação, mas, somente "se nada justificar o direito ao aborto". A conferência do Cairo "deixou claro que o aborto é um assunto nacional, não internacional. O governo de George W. Bush está determinado a sabotar as reuniões pós-Cairo com um assunto delicado que foi resolvido em 1994", disse à IPS um delegado de um país do Sul em desenvolvimento.

O presidente da ONG Population Institute, Werner Fornos, disse que no parágrafo 8.25 do Programa de Ação do Cairo consta claramente que "em nenhum caso o aborto deverá ser promovido como meio de planejamento familiar". "O que pode ser mais preciso ou conciso do que isto? Outra vez, o governo Bush joga carne crua para aplacar os fundamentalistas que usam o problema do aborto a fim de suprimir o planejamento familiar", disse Fornos à IPS. A delegação norte-americana também solicitou que seja emendado o Programa de Ação de modo a priorizar na prevenção da aids a abstinência e a monogamia, e que somente se ofereça preservativos aqueles "cujo comportamento os coloque em risco de transmitir ou infectar-se com o vírus HIV causador da aids.

Mas, como quatro quintos das mulheres com HIV são contagiadas por companheiro único, alguns especialistas alertam que o enfoque do governo dos Estados Unidos é perigosamente míope. "Um modo seguro de conseguir que cada mãe e criança contem, como diz o lema do Dia Mundial da Saúde, é garantir o acesso universal á saúde reprodutiva, como estabelecemos" no Cairo, disse nesta quinta-feira Thoraya Ahmed Obaid, diretora-executiva do Fundo das Nações Unidas para a População (Unfpa). Ao estimar que a gravidez pode converter-se este ano em sentença de morte para meio milhão de mulheres, Obaid disse que outros 200 milhões demandam sem êxito métodos anticoncepcionais seguros e efetivos.

"Isto é uma crise de saúde pública e um escândalo moral", advertiu Obaid. "Se essa necessidade fosse atendida, os números de gravidez não desejada e abortos inseguros definhariam". A OMS considerou que 68 mil mulheres morrem por ano devido a abortos mal feitos. O relatório da organização inclui alguns êxitos. As mortes por sarampo, uma doença que pode ser prevenida com vacinação, caíram de 873 mil em 1999 para 530 mil em 2003. desde 2001, uma campanha mundial a cargo de várias agências intergovernamentais vacinou 150 milhões de meninos e meninas em todo o mundo. (IPS/Envolverde)

Katherine Stapp

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