Washington, 19/05/2005 – Funcionários e empresários dos Estados Unidos saíram em defesa da Organização Mundial do Comércio, diante da proposta de Washington se retirar desse organismo reitor do comércio mundial feita por dois legisladores, um deles representante pelo mesmo Estado do presidente George W. Bush. Se a fosse aceita, "os mercados se fechariam para os trabalhadores e agricultores norte-americanos que dependem da contínua liberalização comercial", disse na terça-feira o vice-representante comercial dos Estados Unidos, Peter Allgeier, perante um comitê legislativo. Se os Estados Unidos se retirassem da OMC "surgiriam conflitos persistentes que distorceriam a economia mundial além do imaginável", acrescentou.
A iniciativa partiu dos representantes Ron Paul, do governante Partido Republicano e procedente do Texas, o mesmo Estado onde o presidente Bush foi governador, e Bernard Sanders, independente e do Estado de Vermont. Ambos apresentaram em março um projeto de resolução para que os Estados Unidos retirassem sua adesão ao acordo de Marrakesh, pelo qual foi criada a OMC, formada por 149 países que arbitra em disputas comerciais e canaliza as negociações para liberalizar e estimular o comércio. Legisladores norte-americanos questionam a OMC por entenderem que suas decisões prejudicam a economia e os trabalhadores desse país. A OMC, fundada há 10 anos, representa "o trabalho das últimas seis décadas para instaurar um sistema de comércio mundial baseado em regras", afirmou Allgeier.
As críticas também se referem aos supostos prejuízos para a economia dos Estados Unidos, aos ambíguos resultados obtidos pelos países pobres da liberalização comercial. "A OMC não implica êxito para todos", segundo um relatório do Instituto Kenan da Empresa Privada, pertencente à Universidade da Carolina do Norte. Embora a OMC, com sede em Genebra, tenha ajudado a melhorar o estado de direito em todo o mundo e incentivado muitos países a adotarem políticas comerciais transparentes e baseadas no livre mercado, teve alguns pontos fracos em sua gestão, segundo o relatório. O principal fracasso foi sua incapacidade de reduzir os elevados subsídios e tarifas alfandegárias agrícolas dos Estados Unidos e da União Européia, acrescenta o Instituto Kenan.
Os países em desenvolvimento consideram que as ofertas desses subsídios e dessas tarifas do mundo rico são muito baixas e superficiais, enquanto sofrem em seus próprios mercados a inundação de produtos baratos do Norte às custas da agricultura do Sul. O relatório considera que a OMC não cumpre seu objetivo de abrigar negociações de sucesso. "Esteve paralisada como veículo para as negociações comerciais", diz o documento. A organização também não é inclusiva, de acordo com o estudo. Os membros não fazem o suficiente para ajudar os países em desenvolvimento a se beneficiarem da liberalização comercial. Os autores do documento atribuem o fato de que a OMC deve fazer muitos esforços em disciplinar seus integrantes, incluídos Estados Unidos e União Européia, que mantêm políticas que distorcem o comércio, como os subsídios.
Os Estados Unidos participaram em mais disputas resolvidas pela OMC do que qualquer outro país, e ganhou a maioria, mas, não cumpri as decisões que lhe foram contrárias. Na semana passada, Washington, temeroso pelo crescimento de suas importações desde a China, impôs cotas temporárias sobre produtos como roupa de algodão e roupa íntima, na medida em que, segundo Pequim e boa parte do mundo em desenvolvimento, contradiz as normas da OMC. Allgeier negou, na terça-feira, que a decisão signifique que os Estados Unidos dão as costas para a OMC. Empresários norte-americanos que procuram se beneficiar mais do livre comércio mundial também rejeitam as críticas da OMC.
O governo e o Congresso legislativo deveriam "se opor vigorosamente" à proposta de retirar os Estados Unidos da OMC, disse o porta-voz da poderosa Associação Nacional de Manufatureiros, Dwight Messinger. "Não sou um advogado da área comercial. Sou um empresário, e posso dizer-lhes que, por causa do sistema comercial baseado em regras, as barreiras caíram ao longo dos anos. De todo modo, minha empresa ainda enfrenta tarifas e barreiras comerciais muito altas em muitos países", afirmou Messinger. "Poderíamos vender mais se os custos comerciais fossem menores, e se outros países não levantassem uma barreira em cima da outra", acrescentou.
As exportações manufatureiras cresceram 65% entre 1994 e 2004, e as agrícolas 38%, segundo o escritório do Representante Comercial. As vendas de artigos de tecnologia avançada aumentaram 67% e representa um quarto do total de exportações. Também o Escritório Granjeiro Norte-americano e a Coalizão de Indústrias de Serviços saíram em defesa da OMC. "Todos os integrantes do sistema mundial de comércio têm algo em jogo no futuro da OMC. Mas, são os Estados Unidos que têm mais a ganhar e, portanto, devemos participar ativa e vigorosamente da OMC", disse Norman Sorensen, presidente da Coalizão. (IPS/Envolverde)

