Berlim, 10/05/2005 – A Alemanha constitui, por sua falta de compromisso com o desenvolvimento internacional, um mau exemplo para os demais países europeus e uma pedra no caminho das Metas de Desenvolvimento do Milênio estabelecidas pela Organização das Nações Unidas, afirmam ativistas. É o que afirma a Campanha Global para a Educação (CGE), uma coalizão de organizações não-governamentais e sindicatos de mais de 100 países. As oito Metas do Milênio foram adotadas pela Assembléia Geral da ONU em setembro de 2000, com o propósito de reduzir à metade, até 2015, a proporção de população que sofre fome e pobreza extrema, entre outros objetivos referentes à saúde, meio ambiente, educação e igualdade de gênero.
Em seu original informe "Perdendo o alvo: um certificado escolar sobre a contribuição dos países ricos á educação primária universal até 2015", a CGE deu ao chanceler alemão Gerhard Schroeder nota D, bem abaixo do máximo A, por sua escassa diligência em contribuir para o desenvolvimento internacional. Entre os países europeus, apenas os mandatários da Áustria, Espanha e Itália tiveram nota pior. A CGE avaliou os governos dos países ricos considerando seus esforços para cumprir a promessa que assumiram em 1970 de destinar, pelo menos, 0,7% de seu produto interno bruto à ajuda oficial ao desenvolvimento de outros países. Também avaliou as iniciativas para melhorar a qualidade de seus serviços educacionais e os planos para garantir a igualdade de gênero no acesso ao ensino primário.
O estudo concluiu que 100 milhões de meninos e meninas não têm acesso à educação primária no mundo porque o Grupo dos Sete países mais industrializados (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália e Japão) não cumprem suas promessas de ajudar o desenvolvimento. "Se cada país rico cumprisse sua meta de assistência oficial ao desenvolvimento haveria mais recursos disponíveis para erradicar a pobreza e garantir que cada criança tenha acesso a uma educação de boa qualidade", afirmou a CGE. Dinamarca, Holanda, Luxemburgo, Noruega e Suécia são os únicos países que cumpriram sua promessa. A Alemanha destinou apenas 0,28% de seu PIB à assistência oficial ao desenvolvimento em 2003 e 2004.
A CGE indicou em seu "certificado" que Schroeder foi "uma grande desilusão, considerando que poderia ter sido um bom exemplo para seus companheiros de sala de aula. Como potencial candidato para integrar o Conselho de Segurança da ONU, a Alemanha deveria pensar mais sobre seus progressos na ajuda internacional ao desenvolvimento", diz o documento. Vários analistas alemães concordaram com essa avaliação. "A Alemanha está perdendo cada vez mais credibilidade nos fóruns internacionais sobre desenvolvimento devido ao seu fracasso no cumprimento dos compromissos que assumiu", disse à IPS o analista Klaus Schilder, da organização não-governamental Economia Mundial, Meio Ambiente e Desenvolvimento, com sede em Berlim.
A Alemanha quer ter um peso maior na política internacional através de um lugar permanente no Conselho de Segurança reformado, mas não está disposta a assumir suas responsabilidades em assuntos de desenvolvimento, acrescentou Schilder. "O governo alemão até agora não mostrou interesse por nenhum outro assunto relativo à reforma da ONU, como a criação de novos conselhos sociais, econômicos e de direitos humanos dentro da organização mundial", ressaltou. Líderes da União Européia têm previsto uma reunião no próximo dia 24 para discutir uma iniciativa apresentada por Luxemburgo para que os países que a integram se comprometam a destinar 0,5% de seu PIB à assistência oficial ao desenvolvimento até 2010, e assim alcançar a esperada meta de 0,7% em 2014.
"O governo alemão apoiará a iniciativa, mas na prática continuará falhando no cumprimento de seus compromissos", disse Schilder. No ano passado, o Ministério de Desenvolvimento Econômico e Cooperação da Alemanha informou que seu orçamento foi reduzido em US$ 30 milhões e que são esperados novos cortes. Enfrentando um déficit fiscal superior a 3%, o ministro das Finanças, Hans Eichel, resiste a destinar mais recursos à ajuda ao desenvolvimento. Eveline Herfkens, coordenadora-executiva da Campanha de Metas de Desenvolvimento do Milênio, lançada pela ONU para promover seu cumprimento, qualificou de "vergonhoso" o desempenho da Alemanha.
Na conferência "Um renascimento das políticas de desenvolvimento?", organizada pela IPS e pela fundação alemã Friedrich Ebert Stiftung, Herfkens destacou a importância de a Alemanha apoiar o desenvolvimento internacional, pois de outro modo os demais países europeus seguirão seu exemplo como desculpa para não cumprirem seus compromissos. Alguns participantes da conferência disseram que as Metas do Milênio são pouco conhecidas na Alemanha porque a imprensa do país lhes dedica pouco espaço", afirmou a editora do periódico alemão esquerdista TAZ, Bascha Mika. "A maioria dos meios impressos alemães atravessa uma grave crise financeira que os levou a reduzir pessoal e páginas dedicadas a assuntos internacionais. Por isso, os principais órgãos de comunicação alemães já não informam sobre questões ligadas ao desenvolvimento", acrescentou. (IPS/Envolverde)

