Mundo: Cúpula árabe na América Latina em busca do comércio

Brasília, 09/05/2005 – O entendimento político e a construção de estruturas para intensificar o intercâmbio econômico e comercial são os objetivos prioritários da Cúpula América do Sul-Países Árabes (Aspa), sem precedentes e com duração de dois dias, a partir desta terça-feira, em Brasília. O governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o desafio de realizar o encontro como forma de ampliar as perspectivas das duas regiões mediante o aprofundamento do conhecimento mútuo. "Enviamos ao resto do mundo a mensagem de que duas regiões podem trabalhar de forma positiva", afirmou Pedro Motta, diretor do departamento para a África do Itamaraty. "Não temos a pretensão de resolver os problemas do mundo", acrescentou numa alusão à preocupação de Israel e outros países sobre o alcance político da cúpula.

A Declaração de Brasília, que será assinada ao final do encontro, não avança sobre assuntos referentes ao Oriente Médio ou ao conflito israelense-palestino além das resoluções já aprovadas pela Assembléia Geral e pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, esclareceu o diplomata, com a intenção de tranqüilizar Israel. Membros da comunidade árabe-brasileira destacam que na base do entendimento político entre as duas regiões estão a visão construtiva deste encontro e a firmeza de sua condenação ao terrorismo e à utilização de armas de destruição em massa. A cúpula também poderá ajudar a mudar a identificação dos países árabes com governos autoritários e fundamentalismo religioso, existente em parte da América do Sul.

O encontro recebeu o apoio da secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, que durante sua visita ao Brasil considerou positiva a iniciativa. No entanto, diplomatas brasileiros vêm encontrando dificuldades para responder as críticas na imprensa pela intensificação de vínculos políticos e econômicos com países governados por regimes ditatoriais, sendo que a promoção da democracia é tida por Brasília como um requisito para as relações com outras nações do hemisfério americano. Jornalistas também destacam importantes ausências neste encontro, como as do rei Abdulá, da Jordânia, e os presidentes Hosni Mubarak, do Egito; Muamar Gadafi, da Líbia, e Bashar Assad, da Síria.

No entanto, foram confirmadas as presenças dos presidentes Abdelaziz Bouteflika, da Argélia; Jalal Talabani, do Iraque; Mahmud Abbas, da Palestina; Néstor Kirchner, da Argentina; Hugo Chávez da Venezuela e Tabaré Vázquez, do Uruguai, além de primeiros-ministros e chanceleres de outras nações. Quatro organismos regionais e 34 países estarão representados na cúpula, que exigiu a mobilização de nove mil efetivos de segurança, algo incomum nas avenidas da capital brasileira. Paralelamente ao encontro político, mais de 800 empresários árabes e sul-americanos estarão reunidos para identificar os principais obstáculos à intensificação de relações comerciais e criar uma rede de contato entre homens de negócios. Os empresários participarão de um seminário sobre aspectos da cultura de negócios nas duas regiões, tendências, fluxos de investimento e perspectivas de aumento da atividade relacionada com o turismo.

Os organizadores esperam resultados concretos desta cúpula, entre eles a anunciada inauguração em dezembro de uma linha regular de transporte aéreo diário entre as cidades de São Paulo e Dubai. Os empresários detectaram a necessidade de estabelecer uma conexão marítima regular e direta entre América do Sul e Oriente Médio para ampliar o intercâmbio comercial entre as duas regiões, que atualmente movimenta mais de US$ 10 bilhões por ano. "Também falaremos sobre a necessidade, ou não, de novos acordos e provavelmente será assinado nesta oportunidade um acordo comercial entre o Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Omã de Quatar) e o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai)", informou o chefe do departamento de promoção comercial da chancelaria brasileira, Mario Villalba.

A cúpula também estimula a realização de estudos sobre os profundos vínculos culturais bilaterais, resultado da influência da imigração árabe na América do Sul que começou no final do século XIX. As autoridades das duas regiões decidiram criar bibliotecas recíprocas de obras-primas da produção intelectual dos idiomas árabe, espanhol e português. "Isto tem uma profunda carga simbólica", disse o embaixador Edgard Telles Ribeiro, diretor do Departamento Cultural do Itamaraty, se referindo implicitamente à Biblioteca de Alexandria, no Egito, que teve notável influência na formação da cultura ocidental. (IPS/Envolverde)

Walter Sotomayor

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *