Terrorismo-EUA: Invulnerabilidade suspeita

Nova York, 23/05/2005 – Os serviços de inteligência dos Estados Unidos afirmam que a política de segurança do governo de George W. Bush conseguiu reduzir as ameaças terroristas, embora legisladores critiquem a lentidão das autoridades para atender os verdadeiros focos de perigo. Os atentados terroristas em grande escala triplicaram no mundo em 2004, mas as ameaças aos Estados Unidos chegaram ao seu nível mais baixo desde os ataques de 11 de setembro de 20001 em Nova York e Washington, ressaltaram fontes da inteligência norte-americana. Os atentados "significativos" em todo o planeta chegaram a 650 no ano passado, contra 173 em 2003, mas o sistema de avaliação de ameaças terroristas criado nos Estados Unidos calcula que os perigos nesse país diminuíram entre 25% e 50% nos últimos dois anos.

Alguns observadores vêem esses dados com receio. "Devemos colocar em dúvida a validade de qualquer cálculo dos Estados Unidos sobre atentados terroristas. Eles fabricam os dados sobre qualquer coisa para fazer crer que a campanha contra o terrorismo está funcionando. Por que confiar em um cálculo que não está confirmado por fontes fidedignas?", perguntou o analista Edward Herman. Este ex-professor de finanças da Universidade da Pennsylvania é co-autor dos livros "The Terrorism Industry" (A indústria do terrorismo), "The real terror network? (A verdadeira rede do terrorismo) e "Manufacturing consent" (Fabricando consentimento).

Enquanto o governo se orgulha de seus supostos êxitos na área de segurança, congressistas expressam preocupação pelo que consideram uma insuficiente vigilância em pontos-chave do país, como as centrais nucleares e químicas. Thomas Kean e Lee Hamilton, presidente e vice-presidente, respectivamente, da Comissão Nacional sobre Atentados Terroristas, nos Estados Unidos, que investigou o ocorrido em 11 de setembro de 2001, assinalaram há poucos dias que o governo age com muita lentidão para colocar em prática as recomendações que fizeram em seu informe final de 567 páginas, apresentado em agosto do ano passado. A Comissão foi criada como órgão independente em 2002 pelo Congresso norte-americano, integrada tanto por membros do governante Partido Republicano quanto do Partido Democrata.

Kean e Hamilton anunciaram que convocariam uma série de audiências no próximo verão no hemisfério norte para analisar a forma como o governo respondeu às suas sugestões. Entre estas se destacam permitir que os congressistas vigiem as atividades dos serviços de inteligência e das agências de segurança, e promover maior coordenação entre polícia, bombeiros e hospitais em casos de emergência. Também criticaram a lentidão de Washington para criar uma junta de defesa das liberdades civis e designar um coordenador nacional de inteligência para supervisionar as investigações que são feitas em todo o país.

Por outro lado, há alguns dias o Departamento de Segurança Nacional admitiu que necessitava substituir ou melhorar grande parte do equipamento tecnológico de inteligência adquirido em caráter de emergência por US$ 4,5 milhões logo depois dos atentados de setembro de 2001. Trata-se de sofisticados sistemas de vigilância para aeroportos, centrais marítimas e fronteiras. Agora, o governo considera que são ineficientes e pouco confiáveis. "A afirmação de que teríamos de gastar muito dinheiro para demonstrar nossa determinação é uma piada, como se o total de dólares gastos fosse impressionar o público mais do que a atitude", disse Herman à IPS. "Os investimentos em assuntos-chave de segurança, com proteção das centrais químicas e nucleares ou os portos estão tristemente ausentes", acrescentou.

Herman afirmou que "o mais lamentável de tudo isto é que se tenha gasto tanto dinheiro rapidamente para mostrar que se fazia algo, apesar de não funcionar. Isto foi algo reiterado na política antiterrorista dos Estados Unidos. "O objetivo é fazer com que as pessoas pensem que se faz algo", afirmou. O Departamento de Estado divulgou no ano passado dados sobre ameaças terroristas, os quais depois revisou, admitindo que havia subestimado os perigos. A partir de então, anunciou que as informações seriam divulgadas pelo recém-criado Centro Nacional contra o Terrorismo, que coleta as informações.

"O fato de não ter havido nenhum atentado terrorista importante aqui em mais de três anos e meio, nem mesmo um de pequeno porte, sugere que a ameaça terrorista foi exagerada ao extremo todo esse tempo", afirmou o analista Brian Foley, professor da Escola de Leis de Jacksonville, no Estado da Flórida. "Talvez o governo não tenha agido rapidamente em dar segurança às centrais químicas, por exemplo, por saber que na realidade a ameaça é muito menor do que nossos líderes querem nos forçar a crer. Basta comparar a lentidão em proteger indústrias vulneráveis com os cuidados para invadir o Afeganistão e o Iraque", ressaltou. "A espada de Damocles que, segundo nos dizem, paira sobre nossas cabeças, na realidade parece ser uma faca de passar manteiga", afirmou. Por sua vez, Beau Grosscup, professor de relações internacionais na Universidade da Califórnia, disse que "tudo isto mostra uma mais vez que a chamada guerra contra o terrorismo é de natureza política e que serve apenas a interesses políticos". (IPS/Envolverde)

William Fisher

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