Meio Ambiente: A América Latina é um modelo doente

México, 13/06/2005 – Os tratamentos aplicados na América Latina e no Caribe contra os males ambientais não surtem o efeito desejado, e a região dificilmente cumprirá o compromisso de garantir sua sustentabilidade entre 2015 e 2020, uma das oito Metas de Desenvolvimento do Milênio. É preocupante a situação desta região, que concentra quase a metade das florestas tropicais e sete dos 25 ecossistemas mais ricos do mundo, segundo o documento "Objetivos de Desenvolvimento do Milênio: um olhar desde a América Latina e o Caribe", apresentado na sexta-feira no Chile pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). A maior parte dos indicadores relacionados com o objetivo de garantir a sustentabilidade do meio ambiente "mostram uma severa deterioração ambiental, tanto no meio natural quanto no meio construído, o que significa que há escassas probabilidades de cumprimento das metas estabelecidas", afirma o documento.

Os "Oito Objetivos do Milênio" foram adotados em 2000 pela comunidade internacional como uma plataforma de desenvolvimento para reduzir drasticamente a pobreza e as desigualdades em todo o mundo, tendo por base o ano de 1990. O primeiro é reduzir pela metade a proporção de população indigente e faminta, com prazo até 2015. O sétimo objetivo, garantir a sustentabilidade do meio ambiente, contém três metas específicas. Elas são incorporar os princípios de desenvolvimento sustentável nas políticas e nos programas nacionais e inverter a perda de recursos naturais, reduzir à metade a porcentagem de pessoas que carecem de acesso à água potável e melhorar consideravelmente, até 2020, a vida de pelo menos cem milhões de habitantes de favelas.

Na América Latina não se avança no ritmo desejado, porque a região mantém plenamente sincronizados "o crescimento econômico e a deterioração ambiental", disse à IPS no México o diretor do escritório latino-americano do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Ricardo Sánchez, agência que participou da preparação do documento. "Nossas economias continuam baseadas no uso intensivo de recursos naturais, e isso evidentemente requer que seja transformado para poder crescer sem continuar deteriorando o meio ambiente", afirmou Sánchez. O documento da Cepal expõe abismos entre a realidade e os compromissos oficiais.

Por exemplo, a superfície florestal se reduz velozmente. O desmatamento, que arrasou com 46,7 milhões de hectares entre 1990 e 2000, avança na proporção anual de 0,5% na região, o dobro da média mundial, diz o estudo da Cepal. Apenas dois dos 33 países estudados registram progressos nessa matéria de superfícies florestais, há estancamento em sete e retrocesso em 24. Nesta região estão 40% das espécies vegetais e animais do planeta. Das 178 eco-regiões identificadas na América Latina e no Caribe, 77% estão ameaçadas. Apenas a América do Sul proporciona 47% dos exemplares animais capturados ilegalmente no mundo.

"Ainda é necessário um esforço importante para reverter fenômenos como desmatamento, degradação de solos e águas", mas, sobretudo, é necessário revisar o modelo de desenvolvimento, "pois há coisas que já demonstraram que não funcionam", disse o diretor do Pnuma, cuja sede regional fica no México. "O modelo de maior comércio e menor Estado não funciona. Tem de haver maior comércio, mas que leve em conta as características dos países em desenvolvimento. É preciso, ainda, ter um Estado maior que vele pela sustentabilidade", acrescentou. O panorama ambiental traçado pelo documento mostra uma região que destrói seu entorno. A respeito do uso eficiente de energia, de 20 países estudados, houve avanços em oito. Quanto à emissão por pessoa de dióxido de carbono (principal gás causador do efeito estufa) há progresso em apenas quatro dos 33 países da região.

Nos mares, o panorama não é diferente, pois se detecta uma superexploração e degradação evidente de ecossistemas. E nas terras, perdeu-se três quartos da diversidade genérica dos cultivos agrícolas. Por outro lado, a meta de fornece água potável e saneamento à metade da população sem esses serviços é de prognóstico misto. É possível que se cumpra quanto à água potável, mas, não em relação ao saneamento, um serviço que em 2015 deveria chegar a 150 milhões de pessoas (121 milhões em zonas urbanas e 29 milhões em áreas rurais). Em 2002, a cobertura de saneamento urbano na região era de 84% e a rural de 44%. O avanço foi de apenas 27% nas zonas rurais e de 35% nas urbanas, diz a Cepal. A meta de saneamento foi alcançada pelos países do Caribe. Mas, preocupa a situação em Brasil, Bolívia, El Salvador, Guatemala, Haiti, Peru e República Dominicana.

A análise dos progressos para a última meta referente à sustentabilidade, que propõe uma melhora substancial na vida de habitantes de favelas e bairros precários, mostra oito países progredindo, e outros oito paralisados ou em retrocesso, entre 16 analisados. Em 1990, 35,4% da população urbana da América Latina vivia em casas com carências, proporção que caiu para 31,9% em 2001. Entretanto, no mesmo período, a população urbana aumento em 79 milhões e os moradores de bairros precários e favelas passaram de 111 milhões para 127 milhões.

Os graus de moradia em favelas alarmam, sobretudo em Belize, Bolívia, Guatemala, Haiti, Nicarágua e Peru, diz a Cepal e, em menor proporção, em Brasil, Argentina e Venezuela, país com altos índices de urbanização e no qual mais de 25% da população urbana vivem em favelas. De acordo com a Cepal, "Há vários fenômenos que resultam particularmente preocupantes: a perda de florestas e a redução da biodiversidade, a contaminação do ar e a ampliação dos moradores de barracos nas zonas urbanas. Por outro lado, a cobertura dos serviços de água potável mostra avanços, uma tendência que não se repete no saneamento". A situação de deterioração geral não teria sido muito diferente se considerar-se que na região somente Chile e México destinam mais de um por cento de seu produto interno bruto a gastos ambientais. (IPS/Envolverde)

Diego Cevallos

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