Meio Ambiente: Canadá nega vistos para reunião de biossegurança da ONU

Toronto, 01/06/2005 – O cientista mais conhecido da Etiópia e negociador para as instâncias do Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança, Tewolde Berhan Gebre Egziabher, quer que a Organização das Nações Unidas sancione o Canadá por impedir a entrada no país de delegados do Sul em desenvolvimento para participarem de uma conferência internacional sobre biossegurança que são contrários aos cultivos transgênicos. O governo canadense reviu sua decisão diante da pressão de ativistas. Mas, outros delegados do mundo em desenvolvimento tiveram vetada sua participação na conferência da ONU em Montreal, que começou segunda-feira.

Em carta aberta ao diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Klaus Toepfer, Tewolde pede que o Canadá seja punido pelas dificuldades que teve de enfrentar para conseguir o visto de entrada no país. Na carta, diz que outros delegados do Sul encontraram duros obstáculos em seu caminho para Montreal, se é que conseguiram chegar à cidade. A conferência discute, entre outros assuntos, a rotulagem de produtos fabricados com organismos geneticamente modificados. Tewolde perdeu algumas reuniões e só chegou a Montreal na sexta-feira.

O governo do Canadá também negou o visto ao integrante da delegação iraniana Jafar Barmaki, especialista em biodiversidade do Ministério das Relações Exteriores de seu país. Barmaki teve um papel importante na promoção da biossegurança dentro do governo, segundo o Centro para o Desenvolvimento Sustentável e o Meio Ambiente, uma organização não-governamental iraniana. Também foi negado visto aos delegados indianos, o economista e especialista em assuntos agrícolas Kavulakunpla Ramanna Chowdry, professor e assessor do governo da província de Andhra Pradesh, e o produtor de algodão Kaka Ramakrishna. Ambos pretendiam participar da uma conferência paralela à oficial, convocada por organizações não-governamentais. Vários milhares de agricultores e o governo de Andhra Pradesh reclamam compensações pelos enormes prejuízos que sofreram à companhia de biotecnologia Monsanto e sua sócia indiana Maharashtra Hybrid Seeds Company Limited (Mahyco).

O professor Chowdry pretendia informar os negociadores em Montreal sobre o comportamento irresponsável e imprudente da Monsanto em relação aos agricultores e ao governo de Andhra Pradesh", disse em uma declaração Afsar H. Jafri, da Fundação para a Ciência, a Tecnologia e a Ecologia, organização com sede em Nova Délhi co-patrocinadora da conferência paralela. "Nunca imaginei que isto aconteceria no Canadá. Convidei muitas pessoas para conferências paralelas anteriores e nunca tive um problema como este", contou Beth Burrows, diretora do Edmonds Institute, uma ONG norte-americana. O governo canadense tampouco concedeu visto de entrada a integrantes de uma organização não-governamental de Togo, acrescentou.

A Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica, com sede em Montreal, adotou o Protocolo de Cartagena em 2000 para atender os problemas de transferência, manejo e uso seguros de organismos transgênicos vivos que poderiam resultar prejudiciais para as espécies naturais. Burrows e diversos ativistas dizem suspeitar de que a negativa de conceder visto a Tewolde e outros delegados constitui uma tentativa de censurar as vozes contrárias ao Canadá, Estados Unidos e demais países onde são cultivados transgênicos. Esses países se opõem à rotulagem dos produtos e à determinação de punições a quem contaminar o meio ambiente natural com sementes e pólen geneticamente modificados.

O Departamento de Relações Exteriores do Canadá não fez comentários oficiais a respeito, apesar dos inúmeros pedidos de entrevista feitos pela IPS. Tewolde é um firme defensor da rotulagem dos produtos fabricados com organismos transgênicos, bem como de sanções a quem, com seu uso, ocasionar danos ao meio ambiente e à saúde humana, informou Júlia Crosfield, porta-voz da Consumers International, uma rede de defesa dos consumidores que reúne 250 organizações em 115 países. "É importante para os consumidores ter direito à informação, à segurança e a um ambiente saudável e sustentável", disse Crosfield. No Canadá há registros de inúmeros casos de contaminação por colza geneticamente modificada, com uma ampla propagação de plantas transgênicas por toda a região ocidental de seu território.

Especialistas e ativistas temem que essas plantas contaminem a flora indígena, o que causaria mudanças na composição genética de espécies valiosas. Assim, surgiriam as chamadas "supersementes", que dão origem a plantas silvestres que adquiririam a capacidade dos cultivos transgênicos de resistir aos herbicidas e de matar os insetos que a ingerissem. No Canadá, os agricultores que cultivam transgênicos e o produtores de sementes não têm nenhuma obrigação de impedir ou limpar a contaminação, embora existam demandas judiciais nesse sentido. Por outro lado, a colza geneticamente modificada se localiza nos arredores de oito portos japoneses, apesar de o Protocolo de Cartagena obrigar que se impeça a contaminação no processo de transporte de produtos transgênicos.

"Nos corredores da conferência, delegados e ativistas especulam se a negação do visto de entrada pelo Canadá foi de propósito, ou não", disse Lucy Sharatt, da ONG ambientalista ETC Group, especializada em assuntos agrícolas. Na abertura das primeiras reuniões, no dia 26 de maio, um delegado do Egito lamentou a ausência de Tewolde. "Os países anfitriões estão obrigados a facilitar a participação, e não dificultá-la", advertiu, segundo o serviço de notícias Earth Negotiations Bulletin. (IPS/Envolverde)

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *