Madri, 08/06/2005 – É imperativo estabelecer uma aliança de civilizações para evitar um conflito entre Ocidente e o mundo islâmico, que teria um alcance global, disse nesta terça-feira o diplomata paquistanês Iqbal Riza, assessor especial do secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan. Riza participou do seminário "Aliança de civilizações, segurança internacional e democracia cosmopolita", realizado segunda e terça-feira na capital espanhola, organizado pela Universidade Complutense de Madri e Fundação para as Relações Internacionais e o Diálogo Exterior.
O primeiro-ministro da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero, propôs à Assembléia Geral da ONU, em setembro de 2004, a criação de uma aliança de civilizações entre Ocidente e o mundo árabe e muçulmano "para combater o terrorismo internacional por outra via que não a militar. Como a peste", o terrorismo carece de justificativa, mas "pode-se e deve-se conhecer suas raízes para combatê-lo racionalmente", acrescentou Zapatero. O assessor especial do governante nesse assunto, Máximo Cajal, disse no seminário que 19 países já manifestaram seu apoio político a essa iniciativa, aceita pela ONU, que dispôs constituir um grupo especial de trabalho para abordá-la, integrado por acadêmicos, políticos, jornalistas e representantes de várias culturas e religiões.
Esse grupo começará a trabalhar nas próximas semanas e prevê concluir um documento até o final de 2006, com a intenção de que Annan o apresente nas Nações Unidas. O projeto "deverá estar acompanhado de uma reflexão global, com uma rede de instituições que trabalhe sobre a questão e consiga uma coordenação efetiva", disse Cajal. Entre os 19 países estão Jordânia, Egito, Túnis, México, Costa Rica, Irã, Indonésia, Malásia, Tailândia e Tanzânia. Além disso, recebeu apoio expresso da Liga Árabe e da Organização da Conferência Islâmica (OCI). Quanto aos meios de comunicação, o experiente diplomata destacou que "se fala muito da Al Jazeera e muito pouco da Fox", se referindo às redes de televisão árabe e norte-americana, respectivamente.
Outro participante do seminário, o libanês Georges Corm, ex-ministro das Finanças de seu país, disse à IPS que o terrorismo é o perigo número um, mas que identificar como tal as religiões, muçulmanas ou não, é um erro. Porque – prosseguiu – também se "recorre ao religioso para consolidar o domínio imperial", disse se referindo aos Estados Unidos. A esse respeito, recordou que durante a Guerra Fria na segunda metade do século XX, que colocou frente a frente esse país e a hoje extinta União Soviética, Washington manipulou os três monoteísmos (judeu, cristão e muçulmano) a seu favor. Corm também questionou que se fale de terrorismo internacional porque "acaso a guerra também não é um terrorismo internacional?", perguntou.
Além disso, Corm questionou que se fale de aliança de civilizações, definição "que parece apresentar uma fortaleza militar contra outra". Por isso, prefere que se fale de aliança ou diálogo de culturas. Em especial, o ex-ministro rejeitou a definição de Ocidente. Na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), liderada pelos Estados Unidos, está a Turquia, que é um país de raízes islâmicas, enquanto Israel é considerado por Washington um país ocidental, quando está localizado em meio ao mundo árabe. Por fim, questionou o termo terrorismo e propôs na reunião que em seu lugar se empregue a "violência irracional", se pronunciou a favor de restabelecer o direito internacional e que "se incentive o cosmopolitanismo, o que seria um verdadeiro impulso para a paz".
No seminário também foi destacada por vários oradores a necessidade de impulsionar uma democracia cosmopolita, entendendo por esta um sistema de representação participativo, com o indivíduo no centro dela e com uma relação direta entre as organizações interestatais e as não-governamentais. O palestino Bichara Khader, professor na Universidade Católica de Lovaina, também se pronunciou contra o fato de se "falar a torto e direito em guerra de religiões" pois, argumentou, "não há religiões da espada e religiões da paz". O mau "é o uso que os homens fazem delas, o que as converte em guerreiras ou pacíficas". Por isso, prosseguiu, "afirmar que o cristianismo prega a tolerância é fazer alarde de uma grande amnésia histórica", como também o é "afirmar que o Islã não passa de fanatismo e violência".
Entre outras coisas, destacou, isso "significa injuriar séculos nos quais o Islã brilhou em todo seu esplendor por sua criatividade e tolerância". Khader terminou sua intervenção com uma citação do poeta mexicano Octavio Paz: "Toda cultura nasce da mistura, do encontro, dos choques. Pelo contrário, por causa do isolamento as civilizações morrem". Também participaram como conferencistas a presidente do Instituto pelo Mediterrâneo, de Roma, Andréa Amato; a professora da Universidade de Paris, Monique Chemillier-Gendreau; Gema Martín Muñoz, da Universidade Autônoma de Madri; Pedro Martinez Montávez, catedrático dessa universidade, e Richard Youngs, da Universidade de Warwick, na Grã-Bretanha. (IPS/Envolverde)

