Desenvolvimento: Mais créditos não reduzem a pobreza

Washington, 18/07/2005 – Os créditos do Banco Mundial para o desenvolvimento aumentaram em 2004, mas isso não melhorou a qualidade de vida de milhões de pobres em todo o mundo, afirmam grupos críticos dessa instituição. Os empréstimos do Banco a países em desenvolvimento aumentaram US$ 2,2 bilhões no ano passado, chegando a US$ 22,3 bilhões, principalmente por causa da renovação de créditos de países de renda média, destacou o Banco Mundial, na quinta-feira. A maior parte do dinheiro emprestado procedia do Banco Internacional de Reconstrução e Fomento (Bird), que obtém seus fundos dos mercados internacionais de capital. O Bird emprestou US$ 13,6 bilhões para 118 de um total de 279 projetos financiados pelo Banco em 2004.

A filial de créditos do Banco, a Associação Internacional para o Desenvolvimento, é financiada por contribuições diretas dos países mais ricos e no ano passado concedeu US$ 8,7 bilhões em créditos sem juros ou a título de doações para às nações mais pobres do mundo, para 161 projetos. O Banco destacou que "a qualidade geral dos créditos também melhorou", o que atribuiu a uma melhor preparação, seletividade e supervisão, de acordo com as exigências dos Estados Unidos, maior acionista do Banco, e de sua instituição irmã, o Fundo Monetário Internacional. Porém, ativistas do desenvolvimento advertiram que mais dinheiro não significa melhores resultados, especialmente porque o Banco continua sujeitando seus créditos a condições contraproducentes relativas a políticas econômicas.

"O Banco está interessado em demonstrar a eficácia de seus programas, e isto é uma questão controvertida atualmente", afirmou Doug Hellinger, do grupo Development GAP (Grupo de Desenvolvimento para Políticas Alternativas), com sede em Washington. A instituição "apresenta os números da maneira mais conveniente", acrescentou. "Sabemos que a pobreza aumentou ou permaneceu estável na maioria das nações onde o Banco tem operações, com exceção de China e Índia", os dois países mais povoados do mundo, ressaltou. Dos créditos, doações e garantias oferecidas no ano passado, US$ 15,7 bilhões financiaram projetos específicos, como construção de estradas, oleodutos ou outras obras de infra-estrutura. Os empréstimos para investimentos agora são 50% maiores do que em 2000. Os US$ 6,6 bilhões restantes foram destinados a operações relacionadas com políticas de abertura econômica, como privatizações e liberalização comercial.

"Nos sentimos particularmente animados pela reversão de duas tendências descendentes: a ajuda financeira do Banco a países de renda média e o volume de créditos para investimentos", afirmou James Adams, um dos vice-presidentes do Banco. Além disso – destacou a instituição – os créditos que corriam o risco de não alcançar seus objetivos de desenvolvimento caíram de 15,9% no ano fiscal de 2004 para 13,5% ao final do ano fiscal de 2005. De acordo com o Banco, foi dada maior importância aos projetos de "desenvolvimento humano" (educação, saúde e outras áreas sociais) com vistas a cumprir as Metas de Desenvolvimento do Milênio fixadas pela Organização das Nações Unidas em 2000, entre eles a redução da pobreza extrema e da fome pela metade até 2015.

Por outro lado, grupos e especialistas em desenvolvimento afirmaram que a qualidade de vida de milhões de pobres não melhorou e reclamaram uma supervisão independente desses créditos."O volume geral de créditos do Banco e sua contribuição para a redução da pobreza nem sempre estão co-relacionados", disse Manish Bapna, diretor-executivo do Centro de Informação do Banco (BIC), um grupo de acompanhamento das ações do Banco Mundial, com sede em Washington. "Uma supervisão independente, de terceiros, sobre a efetividade dos créditos ajudaria a avaliar a contribuição real do Banco para a redução da pobreza", acrescentou. A Índia liderou a lista de países que receberam empréstimos em 2004, com US$ 2,890 bilhões, seguida por Turquia com US$ 1,8 bilhões, Brasil com US$ 1,770 bilhões, China com US$ 1 bilhão e Indonésia com US$ 970 milhões.

Estes números indicam que o Banco Mundial está se afastando de seu objetivo de redução da pobreza para se concentrar em projetos de infra-estrutura" nos países do Sul comparativamente mais ricos, afirmou Sameer Dossani, diretor do grupo 50 Anos Bastam. "Todos os grandes que emprestaram dinheiro do Banco podem obter, e de fato obtêm, fundos de mercados privados de capital por sua própria iniciativa", acrescentou. (IPS/Envolverde)

Emad Mekay

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *