Estados Unidos: Documentário sobre os heróis esquecidos do 11 de setembro

Nova York, 22/07/2005 – Enquanto os Estados Unidos gastam milhões de dólares em sua "guerra ao terrorismo", milhares de pessoas que ficaram doentes em conseqüência de sua participação na limpeza do local onde ficavam as torres gêmeas de Nova York, derrubadas pelos ataques suicidas de 11 de setembro de 2001, continuam sem receber cuidados médicos. O documentário "Never the Same" (Nunca mais o mesmo), que estreou recentemente, mostra como dezenas de milhares de valentes novaiorquinos trabalharam voluntariamente entre as ruínas ainda fumegantes do World Trade Center para tentar resgatar as vítimas e retirar os escombros. Entretanto, sua exposição diária a materiais tóxicos como amianto e mercúrio provocou diversas enfermidades, e eles não recebem a devida atenção por parte das autoridades.

Movidos por profundo sentimento de solidariedade e compaixão pelas vítimas, trabalharam dia e noite entre nuvens de pó envenenado. Hoje, muitos sofrem problemas físicos e emocionais, como dificuldades respiratórias, brotoejas, náuseas, depressão e ansiedade. O Hospital Monte Sinai de Manhattan, que atende e os voluntários que trabalharam nos escombros das torres gêmeas, informou que quase 80% de seus telefones de emergência receberam chamadas referentes a problemas respiratórios, como dor de garganta, pressão no peito, tosse e asma. "Apesar do sacrifício feito por estas pessoas abnegadas, o governo não proveu nada para seus cuidados físicos e emocionais, enquanto o sistema de Compensação Trabalhista os trata como se fossem farsantes", afirmou Jonathan Levin, diretor do documentário.

A Compensação Trabalhista é um programa estatal que garante tratamento médico e outros benefícios a trabalhadores voluntários feridos durante seu trabalho, sem importar se são norte-americanos naturais ou imigrantes, regulares ou irregulares. O tempo para apresentar um pedido de indenização termina dois anos depois de constatada a lesão. Kevin Mount, um engenheiro que trabalhou na remoção dos escombros do World Trade Center, disse à imprensa em fevereiro que a junta que dirige esse programa só lhe respondeu com "uma grande evasiva". Após ser hospitalizado em 2002 com hepatite C, refluxo gástrico, depressão e problemas respiratórios, Mount lutou durante três anos por sua indenização. "Os advogados disputavam cada um dos meus problemas", afirmou.

"Never the Same", com 90 minutos de duração, é baseado em entrevistas feitas com médicos e trabalhadores de resgate que ainda sofrem várias doenças, bem como em imagens de uma série de audiências sobre o assunto em uma comissão especial do Congresso. Levin foi editor de vídeo da rede norte-americana CNN e decidiu fazer o documentário quando preparava um filme promocional do Centro de Medicina Trabalhista e Ambiental do Hospital Monte Sinai, dirigido por seu pai, Stephen Levin. Vários médicos alertaram que muitos dos trabalhadores voluntários poderiam sofrer de câncer no futuro ou enfrentar problemas respiratórios por toda a vida. "Precisam ser examinados a cada ano. Necessitam de ajuda médica prolongada", disse o médico.

Aproximadamente 40 mil pessoas participaram das operações de resgate e limpeza na "zona zero" em Nova York, entre elas vários imigrantes ilegais, a maioria da América Latina. "Eu era um pai, filho e marido são antes do 11 de setembro. Agora, sou um doente crônico e estou preocupado em como vou sustentar minha família. Já não posso trabalhar. Me dói o coração não ser capaz de correr nem brincar com minha filha", contou um voluntário em uma das audiências. "As pessoas que já não podem trabalhar são demitidas. Não têm benefícios referentes à saúde. Esta não é a maneira de tratá-los", disse na mesma audiência o representante Jarrold Nadler, do opositor Partido Democrata.

Sua colega e correligionária Carloyn Maloney também expressou preocupação pela situação. "Como outras pessoas responderão aos desastres ao constatarem que os que responderam aos ataques de 11 de setembro de 2001 nem mesmo recebem cuidados médicos?", perguntou a congressista. Em alguns casos, as autoridades classificaram alguns trabalhadores voluntários de "mentirosos e enganadores", disse Levin. "É indigno que pessoas que tanto fizeram para ajudar os outros tenham chegado a este nível de miséria. Fazem com que se sintam como se fossem criminosos. É algo inaceitável", acrescentou Maloney.

O documentário começa com cenas da visita do presidente George W. Bush ao local dos atentados, quando agradeceu aos voluntários que participaram dos trabalhos de resgate. Imediatamente são mostradas opiniões de vários trabalhadores que hoje se sentem abandonados por seu governo. "Fui lá para ajudar e agora parece que sou uma das vítimas", diz um deles. (IPS/Envolverde)

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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