Iraque: Crescem as reclamações para retirada norte-americana

Washington, 27/07/2005 – O fantasma de uma guerra civil no Iraque mais a crescente convicção de que a presença dos Estados Unidos nesse país estimula a insurgência iraquiana e o extremismo islâmico em todo o mundo provocaram uma chuva de reclamações de uma retirada militar norte-americana. Embora as propostas de estabelecimento de um cronograma para a retirada dos 140 mil soldados dos EUA no Iraque só tenham conseguido até agora apoio de um quarto dos membros do Congresso, a situação parece a ponto de mudar. A falta de progressos tangíveis no combate aos rebeldes iraquianos está convencendo muitos legisladores de que as esperanças de Washington de estabilizar a situação, e muito menos de estabelecer uma democracia pró-ocidental no coração do mundo árabe, são vãs.

"Em janeiro, o Congresso se voltou sobre nós quando sugerimos que os Estados Unidos deveriam mudar sua política de mais armas e mais tropas pela política de retirada. Agora, querem falar sobre isso", disse Jim Cason, diretor de comunicações da Comissão de Amigos sobre Legislação Nacional, um grupo de pressão. Embora o governo do presidente George W. Bush insista em dizer que não haverá guerra civil e que as negociações para produzir uma nova Constituição iraquiana para meados do próximo mês estão em andamento, o crescente nível de violência e a sofisticação dos rebeldes iraquianos e estrangeiros têm seu efeito em Washington.

Esse efeito teve reflexos em dois artigos publicados domingo passado pelo jornal The New York Times, um deles intitulado" Guerrilheiros no Iraque se fortalecem, apesar dos esforços dos EUA", e outro, de John Burns, como o título "Saberemos se há guerra civil?". Esta última nota descreve a recente intensificação da violência dos muçulmanos sunitas contra a majoritária comunidade xiita, que levou o líder religioso xiita Ali Sistani a exortar o governo "a defender o país do aniquilamento maciço". Burns escreveu que "a partir do momento em que os soldados norte-americanos cruzaram a fronteira, há 18 meses, ficou claro que a liberdade da tirania de Saddam Hussein seria tão traumática que poderia desembocar em uma guerra civil. Os últimos acontecimentos sugerem que esse pesadelo pode se converter em realidade", prosseguiu o autor, acrescentando que milícias xiitas e unidades policiais-militares xiitas e curdas adotam cada vez mais represálias que incluem seqüestros, torturas e execuções de supostos rebeldes e seus simpatizantes.

O segundo artigo, escrito por outros dois correspondentes do NYT em Bagdá, citava altos oficiais militares norte-americanos que expressaram duas grandes frustrações, ouvidas em julho de 2003: que a insurgência é "cada vez mais violenta, forte e sofisticada" e que o esforço da guerra é como encher um tonel furado. "Capturamos ou matamos muitos rebeldes, mas são substituídos com muito mais rapidez. Sempre há um insurgente pronto para ocupar o lugar de outro", disse um alto oficial ao NYT. Este tipo de conclusão incentiva as reclamações de retirada dos soldados, especialmente dentro do Partido Democrata (oposição). As reclamações também foram estimuladas pelo vazamento este mês de um plano da Grã-Bretanha para reduzir à metade o número de tropas desse país no Iraque no segundo semestre de 2006.

Assim, no último dia 15 John Deutch, ex-diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), publicou um artigo no NYT pedindo "um urgente plano de retirada" a começar junto com as eleições iraquianas previstas para 15 de dezembro. Deutch propôs um cronograma para reduzir as operações militares e manter em reserva "uma força regional de reação rápida", bem como programas de inteligência e treinamento. Dias depois surgiu um plano mais detalhado do gabinete de especialistas do Projeto sobre Alternativas de Defesa, com sede em Boston, que previa a retirada completa, salvo por um contingente multinacional de monitoramento e treinamento, de menos de 10 mil soldados (até 2.000 deles norte-americanos), antes de setembro do próximo ano.

"O segredo é alcançar um acordo político com líderes sunitas em todos os níveis e com os vizinhos do Iraque, especialmente Síria e Irã", sugeriu, Carl Conetta, autor desse informe. Por sua vez, Helena Cobban, analista de Oriente Médio, concordou que a presença militar norte-americana no Iraque é contraproducente para os interesses de Washington a longo prazo. Mas Cobban foi mais além do que outros autores e reclamou uma estratégia de retirada "total, rápida e generosa para o povo iraquiano", baseada no modelo da retirada israelense do sul do Líbano em 2000. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *