Níger: Dificuldades para a ajuda chegar a quem tem fome

Bruxelas, 28/07/2005 – A falta de infra-estrutura e de agências humanitárias no local é um dos maiores desafios para a entrega de ajuda de emergência ao Níger, devastado por uma fome que afeta um quarto de sua população, alertou a Comissão Européia. À seca e a praga de gafanhotos que destruíram a colheita de 2004 nesse país da África ocidental se soma o "fator agravante" da falta de sócios para levar a ajuda a quem precisa, explicou o órgão executivo da União Européia. "Um dos maiores problemas é que o Níger não é um terreno comum para as organizações não-governamentais: é o segundo país mais pobre do mundo, tem um território enorme e um clima inóspito, além de numerosos problemas administrativos", explicou o porta-voz da Comissão para assuntos de desenvolvimento, Amadeu Altafaj Tardio.

"Tudo isto significa muitas condições ruins de trabalho para o pessoal dessas ONGs", disse Tardio à IPS. Embora governos e organizações internacionais ofereçam o dinheiro necessário para alimentar as mais de três milhões de pessoas que estão morrendo de fome no Níger, não há garantias de que os fundos cheguem às vítimas, acrescentou. "O problema é que muitas organizações não se dedicam a situações de emergência, trabalhando em projetos de desenvolvimento de longo prazo, e não lhes é fácil passar de um momento para outro para uma ação de emergência, disse à imprensa Steffen Stenberg, do Escritório de Ajuda Humanitária da União Européia.

O Níger, um país mediterrâneo com quase 12 milhões de habitantes, sofre uma das piores fomes da história recente, que ameaça cerca de 3,6 milhões de pessoas na África Ocidental. Ao norte faz limite com Argélia e Líbia, a leste com o Chade, ao sul com Nigéria e Benin, ao sul com Burkina Faso e Malí e, a oeste, com Malí. Jan Egeland, diretor de assuntos humanitários da Organização das Nações Unidas, afirmou que "crianças estão morrendo porque a comunidade internacional ignorou os pedidos de ajuda urgente", e acrescentou que foram necessárias fortes imagens na televisão de crianças agonizantes para chamar a atenção para essa situação.

A ONU pediu ajuda para Níger em novembro passado, prevendo a fome, e quase não obteve resposta. Um segundo pedido, em março, recebeu como resposta US$ 1 milhão, dos US$ 16 milhões solicitados. Do último pedido, feito no dia 25 de maio, de US$ 30 milhões, só conseguiu perto de US$ 10 milhões, e Egeland disse que "ainda é muito pouco". A Comissão Européia destacou na terça-feira que o bloco regional deu o alarme sobre a crise atual no início do ano, e que foi uma das primeiras organizações internacionais a responder ao pedido da ONU em maio, doando o equivalente a US$ 5,5 milhões.

Além disso, anunciou que doará mais dinheiro para Níger este mês. "Esperamos uma decisão final da Comissão para dentro de uma ou duas semanas, para doar mais US$ 1,7 milhão de euros (US$ 2 milhões) num futuro próximo", disse Stenberg. Mas a principal preocupação agora é como serão gastas essas doações. "Se não contamos com os meios de implementação necessários, podemos investir todo o dinheiro que quisermos em uma crise que não a resolveremos", disse Stenberg."Devemos recorrer à capacidade da ONU para implementar as doações", ressaltou.

Tardio advertiu que, embora a ajuda de emergência seja muito importante, também é preciso encontrar uma solução de longo prazo para a crise alimentar, que também afeta Mauritânia, Malí e Burkina Faso. "A ajuda direta é essencial, mas a segurança alimentar é ainda mais importante. Procuramos apoiar operações que permitam armazenar alimentos em várias regiões, de modo que as pessoas tenham acesso a eles a longo prazo", explicou. Novas crises alimentares são previstas em outros países da África, como Etiópia, Quênia e Eritréia. (IPS/Envolverde)

Stefania Bianchi

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