Terrorismo: Grã-Bretanha ignora o fator Iraque

Londres, 18/07/2005 – A conexão iraquiana está ausente das declarações do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, sobre os atentados do último dia 7, que deixaram mais de 50 mortos e 700 feridos. Entretanto, novos acontecimentos sugerem um forte vínculo entre esses ataques com bomba no transporte público de Londres e a invasão e ocupação do Iraque pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha. Um amigo dos três cidadãos de origem paquistanesa apontados pelas autoridades britânicas como os terroristas suicidas (Shahzad Tanweer, Mohammed Sadique Khan e Hasib Hussain) afirmou que os três costumavam falar da injustiça cometida contra os muçulmanos no Iraque. Isto indica que a guerra contra esse país estava na mente dos terroristas e de quem o recrutou.

"Está absolutamente claro que os extremistas islâmicos inspirados na visão do mundo da Al Qaeda são os responsáveis", mas "os ataques terroristas devem ser vistos em seu contexto político", disse o parlamentar de oposição George Galloway, expulso do governante Partido Trabalhista em 2003 por sua posição contrária à guerra do Iraque. "Por acaso a Câmara (baixa) não acredita que o ódio e o ressentimento foram gerados pela invasão e ocupação do Iraque, pela destruição diárias de casas palestinas, pela construção (por parte de Israel) de uma muralha que separa a Palestina e pela ocupação do Afeganistão?", perguntou Galloway. "Não entendem que o ressentimento gerado por esses fatos alimenta o terrorismo de Bin Laden e outros islamitas? Esse é um fato tão polêmico? Não é óbvio?", acrescentou. Os líderes britânicos não vêem por essa perspectiva porque estão em uma "redoma", afirmou.

Charles Kennedy, líder do opositor Partido Liberal Democrata, disse em uma conferência que a guerra no Iraque e "a má administração que se seguiu deu lugar às condições nas quais floresce o terrorismo". A invasão "fortaleceu, em lugar de diminuir, o terrorismo", ressaltou. O Partido Liberal Democrata, contrário à guerra no Iraque, ganhou força nas últimas eleições em relação ao trabalhismo e ao Partido Conservador, que a apóiam. Kennedy, entretanto, não responsabilizou explicitamente a política externa britânica pelos atentados na capital britânica. "Não estou insinuando um vínculo de causa e efeito entre a participação da Grã-Bretanha na guerra do Iraque e os terríveis ataques terroristas em Londres na semana passada. Esses assassinos não necessitavam do Iraque como desculpa. A culpa sobre as mortes em Londres recai sobre seus ombros e somente sobre seus ombros", afirmou.

Entretanto, "os que simpatizam com o presidente (dos Estados Unidos, George W.) Bush e com Blair, que procuram vincular a chamada "guerra contra o terrorismo" ao Iraque, não deveriam se espantar se outras pessoas traçam o mesmo vínculo quando ocorrem atentados terroristas na Grã-Bretanha", acrescentou. Embora oficialmente as autoridades britânicas não façam menção ao Iraque ao se referir aos atentados do dia 7, um documento do escritório do primeiro-ministro obtido pelo jornal The Sunday Times revela que na verdade se relacionam os ataques com a invasão a esse país árabe.

O documento, elaborado antes dos atentados, admite que a guerra no Iraque é a principal causa de muitos jovens britânicos muçulmanos aderirem a grupos terroristas. "Parece que uma forte causa de desilusão entre os muçulmanos, especialmente os mais jovens, é o que se percebe como um discurso na política externa dos governos ocidentais, sobretudo Grã-Bretanha e Estados Unidos", diz o texto. "Para uma grande parte dos muçulmanos britânicos, a guerra contra o terrorismo, com as invasões do Afeganistão e Iraque, são ações contra o Islã", acrescenta o documento. (IPS/Envolverde)

Ilustração: Luis Parejo

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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