Nações Unidas, 01/07/2005 – Apesar do declínio geral da economia mundial, a dos países pobres continua em crescimento, em uma tendência que pode ajudar a alcançar os objetivos internacionais em matéria de desenvolvimento, afirmam especialistas. "Um aspecto incomum da atual tendência do crescimento econômico mundial é que está muito difundido nos países em desenvolvimento", destaca um informe da Organização das Nações Unidas sobre a situação e as perspectivas da economia mundial. Se esse crescimento não for interrompido, será "uma janela de oportunidade" para alcançar os objetivos de desenvolvimento estabelecidos em várias conferências internacionais, inclusive as Metas de Desenvolvimento do Milênio fixadas pelos membros da ONU em 2000, de acordo com economistas do fórum mundial que preparam o relatório semestral.
Esses objetivos incluem redução da pobreza extrema e da fome pela metade, educação primária universal, promoção da igualdade de gênero e autonomia da mulher, redução da mortalidade materna em três quartos e da infantil em dois terços, e combate à aids, malária e outras enfermidades. As metas específicas devem ser cumpridas antes de 2015 e têm como referência os níveis de 1990.
"O crescimento previsto da economia mundial para 2004 e 2005 não só é o mais forte dos últimos anos, como está de maneira incomum difundido entre os países em desenvolvimento e em transição", destacou José Antonio Ocampo, subsecretário-geral de Assuntos Econômicos e Sociais. "Mesmo com uma desaceleração, prevê-se que os países em desenvolvimento crescerão 6% no período 2005-2006. Todos os países em desenvolvimento apresentam um bom desempenho em comparação com as últimas décadas", acrescentou. No ano passado, as economias dos países em desenvolvimento cresceram mais de 6%, e a previsão é de que manterão um crescimento superior a 5% nos próximos seis meses e mais além, disseram analistas da ONU no informe, divulgado nesta quarta-feira.
Os autores do documento projetam que a Ásia meridional, que cresceu 7% como a Ásia oriental, manterá o mesmo nível este ano. Quanto à África subsaariana, a região mais pobre do mundo, prevê-se que crescerá mais de 5%. De maneira semelhante, estima-se que as economias do antigo bloco soviético se expandirão 6% este ano e mais de 7% no próximo. "É muito, muito promissor", disse Ocampo aos jornalistas. "Este crescimento econômico em muitos países em desenvolvimento é atribuível parcialmente às melhoras nas políticas econômicas dentro desses países", acrescentou. No momento, segundo economistas, o clima continua no geral favorável para as nações em desenvolvimento, na medida em que cresce o comércio internacional. O aumento dos preços da energia e das matérias-primas nos últimos anos melhorou os índices de intercâmbio, enquanto o custo dos créditos externos está em um mínimo histórico.
Além do aumento da demanda de países industrializados, há muitos fatores internos responsáveis pelo crescimento econômico nos países em desenvolvimento. Por exemplo, na China e na Índia, o aumento da renda e a redução da pobreza fortaleceram a demanda dos mercados internos. "Este é um dos fatores que provoca uma nova tendência: o aumento do comércio entre países em desenvolvimento, especialmente a compra de matérias-primas pela China", diz o relatório da ONU. O documento assinala que o mundo em desenvolvimento ainda é "a principal determinante" do crescimento mundial, mas diz que a dicotomia entre a redução do crescimento nas economias industrializadas (em particular na Europa e no Japão) e o crescimento sustentado no Sul sugere "certo grau de desvinculação".
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, elogiou o desempenho econômico do mundo em desenvolvimento, mas advertiu que a atual tendência de crescimento não está livre de riscos, como o aumento dos preços do petróleo e os desequilíbrios no comércio mundial. "O aprofundamento dos desequilíbrios externos entre nações continua sendo uma ameaça. Estima-se que o déficit de conta corrente dos Estados Unidos chegará a US$ 700 bilhões", previne o relatório. O documento também adverte os criadores de políticas que não devem se apegar aos ajustes da taxa de câmbio para corrigir desequilíbrios, porque sem ajustes nas atividades da economia real, inclusive déficits e superávits, a confiança no dólar como divisa de reserva pode se desfazer. (IPS/Envolverde)

