Madri, 07/07/2005 – A Espanha não é o país mais industrializado do mundo, mas é dos que ultimamente da uma grande importância à cooperação para o desenvolvimento e está em condições de desempenhar um papel importante no contexto internacional, afirmam organizações da sociedade civil. O presidente da Coordenadora de Organizações Não-Governamentais para o Desenvolvimento da Espanha (Congde), David Alvarez Rivas, disse à IPS que com a chegada do governo socialista de José Luis Rodríguez Zapatero se registrou "uma sensível mudança". Considerando essa sensibilidade e as ações já realizadas, propõe-se que a Espanha dê um impulso especial ao combate à pobreza, para conseguir que sejam cumpridas as Metas do Milênio e incentive outros países, especialmente seus sócios na União Européia, a fazerem o mesmo.
Tão logo assumiu o governo, em abril de 2004, Zapatero tomou uma série de medidas que explicam essa reação das organizações não-governamentais. Em primeiro lugar, ordenou o imediato regresso das tropas que haviam sido enviadas ao Iraque por seu antecessor, José María Aznar, do Partido Popular, de centro-direita, em apoio à invasão ordenada em março de 2003 pelo presidente norte-americano, George W. Bush. Paralelamente, anunciou sua decisão de impulsionar uma "aliança de civilizações" para neutralizar, ou finalizar, enfrentamentos – armados ou não – motivados ou justificados por argumentos religiosos. Esta aliança foi apresentada em 2004 na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, que decidiu constituir um comitê para levá-la adiante. Em seu país, Zapatero integrou ao seu gabinete de trabalho como assessor na matéria Máximo Cajal.
Este diplomata sobreviveu com graves ferimentos, em janeiro de 1980, a destruição da embaixada da Espanha na Guatemala, que estava sob sua chefia e que foi ocupada pacificamente por um grupo de camponeses que reclamavam justiça. Ao atacar o exército, a polícia e os paramilitares, o fizeram com fuzis lança-chamas, o que provocou um incêndio do qual só se salvou Cajal. Zapatero também cumpriu sua promessa de aumentar os fundos da cooperação para o desenvolvimento. Seu governo aprovou um novo plano de cooperação, criado com participação das organizações não-governamentais, propôs trocar dívida externa por desenvolvimento e designou secretária de Estado de Cooperação Internacional, Leire Pajín, uma jovem colaboradora que até esse momento presidia o grupo Solidariedade Internacional.
E justamente Pajín voltou ao tema na semana passada durante a reunião de Alto Nível da Assembléia Geral sobre o Financiamento para o Desenvolvimento da ONU. Nessa ocasião reiterou o compromisso da Espanha com o desenvolvimento sustentável e a luta contra a pobreza, assegurando que também o compartilharia o restante da União Européia. Esse compromisso, afirmou, deve incluir um aumento dos fundos para esse fim, sendo que a Espanha pretende chegar a 0,7% de seu produto interno bruto antes de 2015. Mas por outro lado, aumentar a qualidade da cooperação e apoiar medidas comerciais que permitam aos países menos desenvolvidos enfrentar o desafio de eliminar a pobreza nesse prazo.
As Metas de Desenvolvimento do Milênio incluem a redução da pobreza extrema e a fome pela metade, educação primária universal, promoção da igualdade de gênero, redução da mortalidade materna em três quartos e da infantil em dois terços, combate à aids, malária e outras doenças. As metas específicas devem ser cumpridas antes de 2015 e têm como referência os níveis de 1990. Outro ponto destacado pelo governo espanhol se refere a mudanças na maneira de agir dos organismos internacionais. Essa nova política tem o apoio da população, segundo diversas pesquisas e mais de mil ONGs, sindicatos, partidos políticos e associações civis e da Igreja Católica uniram-se no domingo passado nas ruas de Madri, e em mais 20 cidades espanholas, para exigir medidas urgentes contra a pobreza.
Todos apontavam a reunião iniciada nesta quarta-feira na Escócia pelo Grupo dos Oito países mais poderosos, para tratar exatamente da questão da pobreza. Alvarez Rivas disse à IPS que "a pobreza é o genocídio sistemático mais dramático de nosso tempo. Os países ricos têm de tomar medidas definitivas e deixar de lado as boas palavras e os solenes discursos que depois não se concretizam". Se o G-8, formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia, limitar-se a emitir uma declaração condenando a pobreza, mas evitando o compromisso específico de destinar mais fundos para atacar esse problema e de abrir o comércio para os países do Sul, "será necessário recomeçar", acrescentou.
E para isso – prosseguiu – a Espanha deve arriscar-se e assumir a liderança do movimento contra a pobreza, primeiro para conseguir o compromisso de todos os países da UE e com essa força apresentá-lo no terreno internacional, não somente perante nações como os Estados Unidos, mas também com medidas concretas na ONU. Essa proposta de Rivas está em sintonia como Chamado Mundial contra a Pobreza (GCAP, sigla em inglês), que exigiu do G-8 "uma resposta definitiva e eficaz" em sua reunião de Edimburgo, na Escócia, que seja duplicada e de maneira urgente a ajuda ao desenvolvimento e se cancele 100% da dívida dos 62 países pobres mais endividados. O CGAP está formado por milhares de ONGs que, em conjunto, agrupam mais de 150 milhões de pessoas em cerca de 70 países.
Segundo Rivas, a cooperação dos países mais industrializados não deverá estar condicionada a que os beneficiados da ajuda cumpram políticas econômicas impostas por organismos como o Fundo Monetário Internacional, que incluem privatizações, desregulamentações, liberalizações e disciplina fiscal. Porque, ressaltou, a ajuda deve estar desligada dos interesses comerciais e financeiros dos países doadores. As manifestações realizadas no final de semana na Espanha tiveram a cor branca como símbolo. Assim, muitos manifestantes se vestiram de branco e em Madri uma bandeira de 50 metros de comprimento, com oito faixas brancas, foi levada por representantes das ONGs sob o pelam "Pobreza zero, sem desculpas". A Congde destacou que, se até 2015 as coisas não mudarem, morrerão 45 milhões de meninos e meninas, 247 milhões de pessoas na África subsaariana sobreviverão com menos de um dólar por dia e continuarão sem escola 97 milhões de menores, dos quais 57 milhões serão meninas. (IPS/Envolverde)

