Economia: Desigualdade, o outro lado do crescimento argentino

Buenos Aires, 07/07/2005 – A economia da Argentina cresce sem parar há três anos, quando começou a deixar para trás a pior crise de sua história que levou ao colapso, no final de 2001. Entretanto, ainda em plena recuperação, a brecha entre ricos e pobres se torna cada vez mais profunda. Dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) mostram que o produto interno bruto cresceu 9% em 2004, em linha com a recuperação do ano anterior que chegou a 8.8%. Porém, a distribuição da renda se fez mais desigual ao longo do ano passado. Na primeira metade de 2004 os mais ricos tiveram renda 26,3 vezes superiores à dos mais pobres, enquanto que no segundo semestre essa distância aumentou para 28,2 vezes. A brecha diminuiu em relação a 2002, quando os mais privilegiados ganhavam 30,4 vezes mais do que a faixa de menor renda, mas depois de um leve encurtamento em 2003, a distância voltou a aumentar no último ano.

O ministro da Economia da Argentina, Roberto Lavagna, tentou na terça-feira minimizar as estatísticas públicas divulgadas no final de semana e destacou um estudo do Banco Mundial que melhora o indicador sobre renda. O trabalho desse organismo multilateral de crédito, intitulado "Coeficiente de Renda per Capita", assinala que o índice de concentração da economia argentina passou de 51,8%, em 2002, para 49,4% no ano passado. "Pela primeira vez em 11 anos, quebrou-se a tendência do aumento da brecha entre ricos e pobres", destacou Lavagna ao comentar estes dados perante um auditório de empresários. Por outro lado, o ministro evitou comentar os indicadores elaborados pelo Indec. Em conversa com a IPS, o economista Cláudio Lozano, da Central de Trabalhadores Argentinos, criticou Lavagna por tentar "enxugar as estatísticas oficiais ou tapá-las com dados que obtém de outras fontes que não são as nossas".

Lozano é crítico do modelo de desenvolvimento econômico levado adiante pelo ministro do governo de Néstor Kirchner porque, embora reconheça que há recuperação da atividade econômica, considera que essa reativação está concentrada em setores exportadores que criam poucos empregos. Se o governo quer reduzir a distância entre ricos e pobres deveria criar uma renda universal para a infância, pela qual garantiria que nenhum menor de idade vivesse abaixo da linha da pobreza, diz a CTA, uma das duas centrais sindicais do país e que adere ao pensamento centro-esquerdista. Na Argentina, a pobreza ainda afeta cerca de 40% de seus 37 milhões de habitantes, um indicador elevado para quase 18 pontos percentuais mais baixo do que o registrado em meados de 2002, quando a crise atingiu seu ponto culminante.

Também o desemprego caiu nesse período, passando de quase 18% da população economicamente ativa para 13% atualmente, um indicador igualmente alto. Além disso, os novos empregos criados pagam salários baixos e têm condições precárias de contratação. Depois de uma baixa de 10,9% no produto interno bruto em 2002, a economia argentina começou a se recuperar. Em 2003 cresceu 8,8%, no ano seguinte 9% e para 2005 se projeta uma alta em torno de 6,5%. "Se com um crescimento econômico extraordinariamente alto não se consegue mover o amperímetro da distribuição, então o efeito cascata não está funcionando", disse Lozano.

O economista considera que este dado deixa claro que o modelo de desenvolvimento não difere substancialmente do imposto pelo governo de Carlos Menem (1989-1999) quando a economia crescia e também aumentava o desemprego e a desigualdade. A chave para o especialista está na ausência de uma política voltada para a criação de mais emprego e aumento da renda através dos salários, das aposentadorias e dos subsídios ao desemprego. "Se medirmos o total das rendas com o produto observa-se que em 2001 a massa de renda representava 34 pontos percentuais do PIB, enquanto em 2004 essa massa era de apenas 25%", ressaltou. Para Lozano, este tipo de crescimento econômico contribui para criar uma sensação de final de crise, mas não representa uma melhora na distribuição da renda, que é básico para a evolução econômica de médio prazo.

"Nos últimos 30 anos esteve ocorrendo o mesmo, em cada crise a renda média dos argentinos caiu e depois veio uma etapa de recuperação na qual parece que tudo melhora, mas nunca se volta ao nível anterior à crise", destacou. Nesse sentido, disse que nos anos 90 a renda média na Argentina era 25% superior ao nível necessário para superar a linha da pobreza. Hoje, está 13% abaixo desse piso. "O suposto efeito cascata é cada vez menor", disse Lozano. Em 2003, para cada ponto que crescia o produto também crescia um ponto percentual o emprego, mas em 2004, para cada ponto do produto o emprego cresceu apenas 0,5%, e em 2005 o indicador trabalhista aumentou apenas 0,25% para cada ponto do produto. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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