Washington, 22/07/2005 – Apesar dos melhores esforços do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, para transformar o Irã em um paria internacional, a república islâmica acumula vitórias diplomáticas uma após outra. Um mês depois da surpreendente vitória nas eleições presidenciais iranianas do ultraconservador Mahmoud Ahmdinejad, Teerã encontra-se em uma posição muito mais forte para resistir à campanha que Washington faz para isolar esse país, como parte de uma estratégia de "mudança de regime". A última demonstração da crescente influência regional de Teerã foi a visita de três dias à capital iraniana do presidente do Iraque, Ibrahim Jaafari, na semana passada. Jaafari, apoiado pelos Estados Unidos, foi calorosamente recebido pelos máximos líderes religiosos e de governo do Irã, depois de uma série de reuniões bilaterais de alto nível que produziram um acordo de cooperação militar, entre outros.
A visita incluiu uma peregrinação ao tumulo do aiatolá Khomeini (fundador da República Islâmica e arquiinimigo dos Estados Unidos, a quem chamava de o "Grande Satã") para desgosto dos neoconservadores norte-americanos, os quais supunham que um Iraque "liberado" cooperaria com gratidão na expulsão dos mulás de Teerã. Os falcões – figuras unilateralistas e de linha dura em matéria de política externa – comemoraram a vitória de Ahmadinedjad, acreditando que seu triunfo poria fim à idéia de que no Irã havia uma facção "moderada" com a qual o ocidente podia tratar. Essas figuras não renunciaram à esperança de conseguir a mudança de regime, seja através de uma "revolução democrática" apoiada pelos Estados Unidos, ao estilo da Ucrânia, ou por meio de ataques militares contra alvos nucleares ou políticos específicos, que possam incentivar um levante popular.
Embora Ahmadinejad e suas idéias ultraconservadoras tenham conseguido em 24 de junho quase 62% dos votos, os falcões de Washington continuam afirmando que "o país está maduro para a revolução", como escreveu esta semana no The Weekly Standard o diretor do Instituto Aspen em Berlim, Jeffrey Gedmin. Embora o descontentamento com o regime islâmico tenha chegado ao máximo dentro dos Estados Unidos, o contexto internacional é significativamente mais favorável para o Irã no caso de um eventual enfrentamento com Washington do que foi por muito tempo. Embora um dos objetivos da campanha militar norte-americana no Afeganistão e a invasão do Iraque tenha sido o de intimidar o Irã, Teerã emergiu como vencedor, afirmam observadores da região.
"Seus dois maiores inimigos regionais, o governo do partido Baas (de Saddam Hussein) no Iraque e o regime extremista sunita no Afeganistão, foram sufocados sem que o Irã tivesse de disparar um só tiro", lembrou Anatol Lieven, analista do gabinete de especialistas New America Foundation, com sede em Washington. "Agora, o governo afegão e mais ainda o do Iraque, são basicamente afins à Teerã e sua visão dos assuntos regionais", acrescentou. Embora o Irã de repente tenha se visto com 160 mil soldados dos Estados Unidos na casa ao lado, o efeito dessa presença militar não foi tão amedrontador como os falcões pensavam que seria. No fim, o potencial implícito do Irã para dificultar a vida de seus novos vizinhos sempre lhe dava certa vantagem.
Mas nos últimos tempos a posição de Teerã se fortaleceu ainda mais, em ocasiões com a ajuda involuntária do próprio Bush. O acordo assinado na segunda-feira entre o presidente norte-americano e o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, em Washington, para a venda de tecnologia nuclear avançada dos Estados Unidos para a Índia é um exemplo. A assinatura desse pacto apesar do boicote de Nova Délhi ao Tratado de Não-proliferação Nuclear revela um duplo discurso do governo norte-americano que o Irã provavelmente utilizará em benefício próprio nas negociações com Grã-Bretanha, França e Alemanha sobre o programa nuclear iraniano. Teerã também pode utilizar esse argumento para contrapor aos esforços dos Estados Unidos para que o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas sancione o Irã por sua suposta violação do Tratado de Não-proliferação.
"O Irã perguntará como é que pode ser castigado por transgressões menores ao Tratado que subscreveu quando a Índia, uma potência nuclear que nem mesmo o assinou, consegue plena cooperação nuclear por parte dos Estados Unidos", disse Arjun Majijani, diretor do Instituto de Pesquisa sobre Energia e Meio Ambiente. "Como se pode argumentar que a Rússia não deva vender reatores (atômicos) para o Irã depois disto?", perguntou Joseph Cirincione, especialista em proliferação nuclear da Fundação Carnigie para a Paz Internacional. "O Irã contará com isso", concluiu. (IPS/Envolverde)

