Mundo: Bush, a brecha entre a retórica e a realidade no Iraque

Washington, 01/07/2005 – Apesar de insistir em apresentar firmeza e solenidade diante de uma respeitável audiência militar, parece que o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, fracassou em sua tentativa de alinhar o público atrás de sua política no Iraque. O resultado das pesquisas divulgadas na quarta-feira indicam que, ao contrário do esperado por Bush, seu discurso feito no dia anterior no quartel Fort Bragg, na Carolina do Norte, não serviu para tranqüilizar o público nem convencê-lo de que a situação no Iraque está sob controle. O presidente rejeitou os pedidos do opositor Partido Democrata e inclusive os vindos do Partido Republicano para que estabeleça, pelo menos, um prazo para retirar os 140 mil soldados norte-americanos que estão no Iraque há mais de dois anos.

Bush insistiu em dizer que manterá a situação e que retirará o contingente somente quando as forças iraquianas forem capazes de ocupar seu lugar. Tampouco admitiu ter cometido algum erro na guerra do Iraque, e menos ainda em sua decisão de invadir esse país. Uma pesquisa publicada pelo jornal The Washington Post e a rede de televisão ABC indica que 53% dos entrevistados acreditam que não valeu a pena ir à guerra e que para 52% Bush "enganou intencionalmente" seus interlocutores sobre a ameaça que o Iraque representava antes da invasão. O discurso coroou uma semana de ofensiva na área de relações públicas por parte do governo para sustentar as políticas iraquianas de Washington, que incluiu uma visita do primeiro-ministro do Iraque, Ibrahim Jafari, à Casa Branca.

No seu discurso, Bush se referiu ao inimigo dos Estados Unidos como "insurgentes" somente uma vez, e em duas dezenas de ocasiões como "terroristas". E inclusive citou uma frase de Osama bin Laden, a quem é atribuída a autoria intelectual dos atentados que deixaram três mil mortos em Washington e Nova York no dia 11 de setembro de 2001, segundo a qual "o mundo inteiro está vivendo esta guerra". O nome de bin Laden esteve virtualmente proibido durante a campanha eleitoral de Bush no ano passado, pois recordava ao eleitorado que, depois da invasão do Afeganistão em 2001, o magnata saudita ainda permanece foragido.

"O Iraque é o último campo de batalha desta guerra", afirmou Bush, se referindo à "guerra contra o terror" que seu governo declarou depois do 11 de setembro. "Muitos terroristas que matam homens, mulheres e crianças inocentes nas ruas de Bagdá são seguidores da mesma ideologia homicida que custou a vida de nossos cidadãos em Nova York, Washington e na Pensilvânia", acrescentou. "Existe um único curso de ação contra eles: derrotá-los antes que nos ataquem em casa", concluiu. No total, Bush se referiu aos atentados de 2001, em média, dezenas de vezes. O comentarista David Gergen, ex-funcionário dos governos do republicano Ronald Reagan e do democrata Bill Clinton, disse à rede de televisão CNN que se sente "ofendido" pelos esforços de Bush em vincular o Iraque com a "guerra contra o terror".

De todo modo, admitiu que poderia ser uma tática eficaz, pois o público qualificou melhor a condução presidencial da campanha contra o terrorismo do que a política norte-americana em relação ao Iraque. "Quer eu goste, quer não, é uma carta vencedora do presidente", disse Gergen. Mas outros especialistas manifestaram dúvidas sobre a possibilidade de êxito dessa tática. Uma pesquisa do Instituto Gallup divulgada terça-feira pelo jornal USA Today e pela rede CNN indica que 61% dos entrevistados acreditam que Bush carece de um plano claro para manejar a situação no Iraque. De acordo com essa pesquisa, pela primeira vez uma maioria (50%) vêem a guerra no Golfo separada da luta contra o terrorismo, enquanto 47% pensam o contrário.

"Temo que Bush tenha recorrido em demasia a essa fonte", afirmou o ex-assessor de Clinton Paul Begala sobre o vínculo entre os atentados e o deposto regime de Saddam Hussein no Iraque."O relógio corre a favor do presidente, enquanto a nação analisa o ocorrido" em 11 de setembro de 2001, concordou o consultor democrata Tad Devine. É paradoxal que Bush afirme agora que o Iraque se converteu no "último campo de batalha" contra o terrorismo, pois antes da guerra havia afirmado que era necessário para evitar que se convertesse em um "território de treinamento" dos terroristas, lembrou o democrata Centro para o Progresso Norte-americano (CAP). E um recente informe da inteligência norte-americana advertiu que a ocupação do Iraque transformou o país em um campo de treinamento terrorista.

Depois do discurso de Bush, seu adversário nas últimas eleições, John F. Kerry, afirmou que "a maioria dos norte-americanos sabe que nunca existiu um caldo de cultivo para o terrorismo no Iraque até que fomos para lá". Mais de 1.700 soldados dos Estados Unidos morreram no conflito iraquiano, mais da metade deles depois da devolução formal da soberania a um governo interino, no ano passado. O The Washington Post recordou que a quantidade de atentados com carro-bomba no Iraque aumentou de 18, em junho de 2004, para 135 no mês passado. A brecha entre a retórica e a realidade ficou mais evidente na semana passada, quando o comandante da região militar do Oriente Médio, general John Abizaid, disse no congresso que a insurgência agora é tão forte quanto há seis meses. Ao mesmo tempo, o vice-presidente, Dick Cheney, afirmava que os rebeldes poderiam continuar em atividade por mais 12 anos. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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