Imigração: O lado obscuro dos Minutemen

Oakland, Califórnia, 08/08/2005 – Os Minutemen, rede norte-americana que apela às armas para deter a imigração proveniente do México, tem pontos em comum com grupos direitistas que no passado surgiram com certo apoio da imprensa e se dissiparam em um fulgor de violência. Depois de se atribuírem a redução dos imigrantes ilegais mexicanos que atravessaram em abril a fronteira para os Estados Unidos, o Projeto Minutemen se compromete a mobilizar, em outubro, 15 mil voluntários com o mesmo objetivo. Os voluntários realizarão patrulhamento a pé e a cavalo ou se instalarão em postos de observação, informou Chris Simcox, chefe dos Corpos de Defesa Civil Minutemen, rede de organizações e indivíduos norte-americanos, muitos deles armados. Os Minutemen têm esse nome em razão de um famoso grupo de milicianos de Massachusetts, que no século XVIII lutaram pela independência dos Estados Unidos.

David Burghart, especialista em movimento antiimigrantes do Center for New Community, não se surpreende com o crescimento das organizações armadas nem com a possibilidade de estas originarem conflitos dentro dos Estados Unidos. "Vemos no movimento Minutemen uma trajetória semelhante à que se constatou com o movimento das milícias no início dos anos 90", disse Burghart à IPS. Contudo, os Minutemen estão em uma posição muito melhor do que as milícias daquela década, porque "parece terem por base várias redes antiimigrantes já estabelecidas para divulgar sua orientação". Há 12 anos, a Milícia de Montana, a Milícia de Michigan e vários grupos semelhantes pareciam surgir do nada. Em pouco tempo, suas operações concentraram a atenção dos meios de comunicação de massa.

Líderes de milícias, como John Trochmann, de Montana, e Norm Olsen, de Michigan, se converteram em porta-vozes do que era considerada uma coleção amorfa de ativistas antigovernamentais. "Não demorou muito tempo para que surgissem novas milícias, muitas delas nem mesmo organizadas pelos criadores do conceito original", recordou Burghart. "As milícias locais, então, ganharam vida própria e se converteram em uma espécie de movimento de massas, a tal ponto que grupos preexistentes, como os patriotas cristãos, começaram a se denominar milícias. Parece que estamos prestes a ver algo parecido com o fenômeno Minutemen", explicou. O crescimento das milícias se deteve depois do atentado contra o edifício Joseph P. Murrah, em Oklahoma, em abril de 1995. Na explosão morreram 168 pessoas e várias centenas ficaram feridas.

A prisão, condenação e execução de Timoth McVeigh – ele próprio simpatizante das milícias – marcou o início do fim para estas organizações armadas. A militância declinou e, depois, desapareceram das primeiras páginas dos jornais. "Os Minutemen de hoje e as milícias de uma década atrás têm, ideologicamente, muito em comum", segundo Burghart, "Apesar de sua retórica sobre "lei e ordem", ambas se baseiam no paramilitarismo e na intimidação como mecanismo político. As duas parecem ser expressão do nacionalismo "do meio", da noção de que os norte-americanos médios são exprimidos por cima pelas elites econômicas e por baixo pelas hordas multiculturais que chupam seu sangue", ilustrou o especialista.

"Tanto as milícias quanto os Minutemen criaram um 'outro' endemoniado, com base na cidadania. As milícias contavam com o conceito de 'cidadãos soberanos'", em oposição aos "cidadãos da emenda 14", termo que se refere à reforma constitucional que em 1868 consagrou a igualdade de brancos e negros perante a lei, disse Burghart. Por outro lado, "os Minutemen o fazem com os imigrantes", acrescentou. "Ambas se alimentam de teorias conspiratórias. As milícias, por exemplo, manifestavam preocupação com a Nova Ordem Mundial, enquanto os Minutemen temem 'a reconquista' do sudoeste dos Estados Unidos por parte do México", afirmou o especialista. Tanto as milícias da década de 90 quanto os Minutemen têm algo em comum com The Posse Comitatus, grupo que defendia a supremacia branca e anti-semita, fundado em 1971 por William Potter Galé, um tenente-coronel do Exército na reserva.

Galé "acreditava que todos os homens brancos e cristãos tinham o direito de garantir pelas armas os princípios de uma 'república constitucional' e de desafiar os 'atos ilegais' do governo federal, incluídas a integração racial, os impostos e o sistema federal de reserva bancária", disse à IPS o especialista Daniel Levitas, autor do livro The Terrorist Next Door: The Militia Movement and the Radical Right (O Terrorista ao Lado: As Milícias e a Direita Radical). Em seu momento, as milícias chegaram a receber apoio de funcionários eleitos democraticamente, como a legisladora Helen Chenowith, republicana do Estado de Idaho, recordou Burghart. E "hoje, os Minutemen são bem vistos pelo governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, e pelo congressista do Colorado, Tom Tancreado, bem como por membros da Câmara de Representantes que procuram fazer a reforma migratória", afirmou.

No final de julho, pouco antes do início do recesso de verão do Congresso, o deputado republicano John Culberson e mais 47 legisladores apresentaram o projeto de lei de Patrulha de Proteção Fronteiriça. A iniciativa implicaria a criação de um Corpo de Proteção da Fronteira com a faculdade de "usar qualquer meio ou força autorizado pela lei para impedir que indivíduos ingressem ilegalmente nos Estados Unidos". Burghart recordou que os Minutemen receberam um tratamento bastante favorável nos meios de comunicação de massa. "A mídia ajudou a converter, da noite para o dia, um par de paramilitares intolerantes em superestrelas. Isso também aconteceu nos anos 90 com as milícias", advertiu.

Por outro lado, "poucos jornalistas tiveram o trabalho de verificar as afirmações dos Minutemen sobre seus líderes, sobre assuntos de imigração em geral e sobre suas próprias atividades". Portanto, a maioria dos meios de comunicação "apresentou a propaganda dos Minutemen como se fosse fato", acrescentou. "Por exemplo, ficou como que estabelecido que milhares de pessoas vigiariam a fronteira, quando, de fato, só apareceram entre 140 e 160. Os jornalistas do Arizona exageraram na presença dos Minutemen", afirmou Burghart. Os meios de comunicação também "ignoraram o racismo dos Minutemen, a ilegalidade de suas ações e o perigo que estas representam. E, pelo contrário, os apresentaram como heróis de nossos dias", acrescentou.

As vozes críticas na mídia analisadas por Burghart eram "as de um latino ou latina solitários, que se queixavam deste enorme movimento que se envolve na bandeira dos Estados Unidos". Em abril, quando os Minutemen se instalaram em uma faixa de 32 quilômetros entre o Estado mexicano de Sonora e o Arizona, não houve incidentes violentos importantes. Porém, à medida que o movimento vai se ampliando e acolhendo milhares de voluntários, a violência parece inevitável.

"Como em outras desventuras paramilitares, os Minutemen se inspiram na desatinada noção de que os cidadãos, individualmente considerados, têm o direito irrestrito de usar armas e a intimidação para aplicar suas interpretações particulares da lei e da Constituição", afirmou Levitas. Como antes, com The Posse Comitatus e as milícias, o sucesso dos Minutemen "deriva da capacidade de unir racismo e militância direitista com frustrações aparentemente mais aceitáveis sobre política migratória. Entretanto, sua ruína estará nos crimes de seus líderes e na violência inevitável", concluiu o especialista. (IPS/Envolverde)

(*) Bill Berkowitz é um destacado observador do movimento conservador norte-americano. Publica periodicamente a coluna Conservative Watch na revista eletrônica Working ForChance.org.

Bill Berkowitz

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *