ONU: Hora da verdade para declaração da cúpula

Nações Unidas, 05/08/2005 – A Organização das Nações Unidas se aproxima de um momento decisivo sobre seu projeto de declaração-chave que deverá aprovar em setembro "a maior reunião de líderes mundiais da história", segundo a descrição de seu secretário-geral, Kofi Annan, que acontecerá entre 14 e 16 de setembro e contará com as participações de quase 180 chefes de Estado e de governo e fixará a agenda de desenvolvimento para a próxima década. Além disso, proporá novas medidas para reestruturar a ONU e resolver problemas econômicos e sociais, incluídas a pobreza e a fome, que afligem os países mais pobres.

As críticas mais duras ao projeto de declaração de 37 páginas partiram do Grupo dos 77, integrado por 132 países em desenvolvimento, que representam a esmagadora maioria dos 1919 Estados-membros da ONU. O embaixador da Jamaica, Stafford Neil, presidente do G-77, expressou decepção porque a proposta de declaração se concentra mais na reforma da estrutura da organização do que em "um tratamento mais profundo" de problemas econômicos e comerciais. "Devido à sua importância para o desenvolvimento econômico", disse, se deveria dar prioridade aos problemas do comércio, da dívida, da ciência, tecnologia, do acesso aos mercados e da cooperação para o desenvolvimento. os Estados Unidos também criticaram o projeto de declaração, mas pela razão oposta: muita atenção ao comércio e à economia.

A embaixadora Anne Patterson, vice-representante permanente dos Estados Unidos, disse que o documento é muito extenso e "não está redigido da forma como os chefes de Estado normalmente o fazem. A seção dedicada ao desenvolvimento tem mais de 15 páginas", queixou-se Patterson em uma reunião a portas fechadas esta semana, citada por um serviço de notícias a cabo. Neil rejeitou varas propostas sobre reformas administrativas (inclusive o aumento das faculdades executivas do secretário-geral), algumas das quais foram reclamadas por uma comissão do Congresso norte-americano este ano. Em um relatório de 174 páginas sobre a reforma das Nações Unidas, a Comissão recomendou incorporar ao fórum mundial organismos de supervisão ao estilo empresarial e criar mais órgãos de controle da corrupção e da má administração.

Também em junho, a Câmara de Representantes dos Estados Unidos aprovou uma lei que dispôs a retenção da metade da contribuição devida à ONU, a partir de 2007, se a organização não cumprir alguns dos 46 requisitos exigidos, inclusive a criação de um escritório de ética. Atualmente, os Estados Unidos são o maior contribuinte individual para o orçamento regular da organização, com US$ 440 milhões, seguidos do Japão (US$ 346 milhões) e da Alemanha (US$ 154 milhões). Na reunião a portas fechadas desta semana,o G-77 advertiu que muitas das propostas do projeto de declaração se referem à criação de estruturas institucionais propostas por Washington que poderiam ter "conseqüências de longo alcance, especialmente para o papel da Assembléia Geral" e da Comissão de Administração e Orçamento da ONU.

"Estas são sutis tentativas de debilitar a autoridade da Assembléia Geral. Não podemos criar esses organismos sem um processo de negociação", disse à IPS um diplomata asiático. A Assembléia Geral, integrada pelos 191 países-membros da ONU, é o máximo órgão político da organização, embora o Conselho de Segurança, de 15 membros, tenha faculdades para tomar decisões de guerra e paz. O G-77 também se negou a considerar a proposta de dar faculdades adicionais ao secretário-geral para redistribuir recursos humanos dentro do sistema das Nações Unidas. Neil disse, ainda, em representação ao G-77e China, que o projeto deveria pedir o fim do uso abusivo de barreiras não alfandegárias, inclusive de normas técnicas, que restringem injustamente o acesso dos produtos de países em desenvolvimento a mercados de nações industrializadas, e o fim dos subsídios às exportações de países ricos. Além disso, reclamou tratamento especial e diferenciado para os países em desenvolvimento e medidas corretivas para a volatilidade dos preços dos produtos básicos.

Quanto à ajuda para o desenvolvimento, Neil comemorou os compromissos realizados pelos países da União Européia e outros para "aumentar os recursos a curto e longo prazos". Entretanto, disse, "consideramos importante reafirmar o objetivo de destinar 0,17% do produto interno bruto (das nações ricas) à ajuda oficial para o desenvolvimento". Neil também lamentou que o documento não mecione a reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI) nem do Banco Mundial, cuja estrutura está dominada pelos países ricos doadores. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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