ONU: Reforma ofusca Metas do Milênio

Nações Unidas, 04/08/2005 – A Organização das Nações Unidas, criticada pelas falhas inerentes de sua estrutura política, está tão preocupada com sua reforma que a próxima Cúpula do Milênio pode perder de vista sua meta principal: um plano de ação para combater a pobreza extrema e a fome. "O desenvolvimento está adiado principalmente pela propagação da idéia de que as metas do milênio já foram estabelecidas e não há nada para negociar", disse Saradha Iyer, da Rede do Terceiro Mundo, uma organização não-governamental com sede na Malásia que acompanha de perto as ações da ONU. O mandato da cúpula, que acontecerá entre 14 e 16 do próximo mês, consiste em avaliar o avanço rumo as Metas de Desenvolvimento do Milênio fixadas pelos 191 Estados-membros da ONU em 2000.

As Metas incluem a redução da pobreza extrema e da fome pela metade, a educação primária universal e a promoção da igualdade de gênero e a autonomia da mulher. Também incluem a redução da mortalidade em três quartos e da infantil em dois terços, além do combate à aids, à malária e a outras doenças. As metas específicas devem ser cumpridas até 2015 e têm como referência os níveis de 1990. Mas a julgar pelas tendências atuais, disse Iyer, a cúpula pode terminar concentrada na manutenção da paz, no terrorismo, direitos humanos e a proposta para reforma do Conselho de Segurança, o órgão executivo da ONU.

"A ONU deveria se concentrar em crises e emergências humanitárias e deixar as questões de terrorismo e segurança com as grandes potências, que sabem mais sobre isso", disse Iyer à IPS. "Mas não nos enganemos", porque os recentes atentados na capital da Grã-Bretanha e no Egito apenas fortalecerão a resolução dos Estados Unidos para intensificar sua guerra "contra todos nós em nome do terrorismo", acrescentou. Por outro lado, disse que as negociações comerciais sobre o acesso aos mercados, "que podem e devem trabalhar em benefício dos países em desenvolvimento", parecem destinadas ao fracasso.

A Cúpula do Milênio foi descrita pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan, como "a maior reunião de líderes mundiais da história". Acontecerá entre os dias 14 e 16 de setembro e terá as participações de 122 chefes de Estado, 55 chefes de governo e mais de 13 chanceleres e altos funcionários. Em uma entrevista à imprensa realizada terça-feira, Nicola Reindorp, da organização humanitária Oxfam Internacional, expressou o temor de que a cúpula não produza um verdadeiro progresso para os mais pobres e vulneráveis se não estabelecer "compromissos mínimos". Reindorp classificou esses compromissos mínimos em quatro: cumprimento das Metas do Milênio, proteção dos civis em conflitos armados, um tratado sobre comércio de armas e novas respostas a desastres humanitários.

"Estamos muito longe de cumprir as Metas do Milênio até 2015", advertiu. Segundo o ativista, os líderes dos países mais poderosos também deveriam se comprometer a aumentar a ajuda para o desenvolvimento em um prazo determinado, permitir o acesso livre de cotas e tarifas alfandegárias para as exportações das nações em desenvolvimento e ainda aliviar a dívida dos países mais pobres. "Este é o momento. Só nos restam 10 anos" para o prazo de 2015, ressaltou. A próxima cúpula não só revisará o progresso feito até agora como também fixará a agenda de desenvolvimento para a próxima década. "No ritmo atual de progresso, muitas das metas do milênio não serão alcançadas em várias partes do mundo", alertou a Oxfam em declaração divulgada no mês passado. "Tragicamente, o objetivo de eliminar a disparidade de gênero na educação primária e secundária já não será atingida", acrescentou a organização, que tem sede em Londres.

Desde o mês passado, a Assembléia Geral da ONU se ocupa com a proposta reestruturação do Conselho de Segurança. O Conselho é o único organismo das Nações Unidas com faculdades para tomar decisões de guerra e paz, e está dominado por seus cinco membros permanentes e com poder de veto: Estados Unidos, França, China, Grã-Bretanha e Rússia. Tem ainda 10 membros rotativos. Um comitê de especialistas nomeado pelo secretário-geral realizou uma série de propostas para a reforma da ONU que inclui iniciativas de ampliação do Conselho, mas sem alterar o poder de veto exclusivo das cinco potências nucleares mundiais. Brasil, Alemanha, Japão e Índia reclamam assentos permanentes para si e mais duas nações africanas ainda não designadas. "A apresentação formal de uma proposta de Brasil, Alemanha, Japão e Índia ofusca as metas do milênio, que deveriam ser o centro de atenção da comunidade internacional na Cúpula do Milênio", disse um diplomata asiático. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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