Lima, 05/08/2005 – Sete camponeses de comunidades do norte do Peru morreram quando a polícia tentou deter uma marcha de protesto que seguia para a área de exploração da companhia de mineração Majaz, na região de Piura, segundo denúncias de moradores, autoridades locais e um bispo católico. A polícia somente reconheceu a morte de Amado Velasco, um rondero (membro dos corpos de vigilância tradicionais) da comunidade de Puján, quando disparou a arma que tentava tirar de um policial. As mortes de moradores das comunidades de Yanta, Puján, Segundo e Cajás, nas serras de Piura, a cerca de mil quilômetros de Lima, ocorreram na segunda-feira e terça-feira desta semana, disse o bispo católico do distrito de Chulucanas, Daniel Turley, vizinho à zona do conflito.
Também o prefeito de San Ignácio, Carlos Martinez, na região de Cajamarca, afirmou que foram sete os mortos. Além disso, 40 pessoas ficaram feridas, entre seis e oito estão desaparecidas e 32 foram detidas pelas forças da ordem, disse na quarta-feira o bispo, que tenta mediar entre as comunidades e a empresa Majaz, que explora uma jazida de cobre em Rio Blanco, uma zona de reserva de água doce que pode ficar contaminada. A companhia, de capital britânico, opera há quatro anos em Piura. Suas explorações objetivam localizar uma jazida de mais de 1,3 bilhão de toneladas de cobre, com vida útil de quase 50 anos e cuja exploração requer investimento superior a US$ 800 milhões, segundo as estimativas.
As comunidades da região se opõem alegando que ali se encontra um aqüífero importante onde nascem os rios Quiroz e Blanco, fundamentalmente para abastecer as comunidades da vertente do oceano Pacífico e da vertente oriental, voltada para a Amazônia. Na quarta-feira, em San Ignácio, líderes ronderos disseram ao jornal La Repúublica que um helicóptero da polícia deveria sobrevoar o terreno da empresa, porque "há vários cadáveres de ronderos espalhados no acampamento". Um documento recebido pela IPS e assinado por várias entidades e pessoas envolvidas no conflito – como Ramiro Ibáñez, presidente da Frente de Defesa do Meio Ambiente de Huancabamba – fala da "mais brutal ação policial" e reclama que se aponte os "responsáveis políticos, intelectuais e materiais desse massacre".
O texto não cita a quantidade de mortos e desaparecidos, mas afirma que alguns camponeses fugiram para a floresta de medo da polícia e que "sua situação é incerta e se teme por suas vidas". Alguns manifestantes teriam fugido para a floresta e poderiam ter caído dos barrancos nos arredores, disse á IPS em Lima o presidente da Confederação Nacional de Comunidades Afetadas pela Mineração (Conacami), Miguel Palacín. Na quarta-feira, vice-ministro de Energia e Minas, Rómulo Mucho, foi agredido por um grupo de ronderos em San Ignácio quando saía de uma reunião na qual se formou uma comissão de verificação do ocorrido, que deveria viajar para a região nesta quinta-feira.
A comissão acertou uma mesa de diálogo entre representantes da empresa, do governo, da Igreja Católica e das comunidades. Resgatado do tumulto, Mucho disse a uma emissora de rádio que "agora a Polícia Nacional Peruana (PNP) tem que cumprir seu dever", numa alusão à necessidade de maior intervenção policial para deter os desmandos. A zona onde a Majaz procura cobre possui uma grande biodiversidade que poderia ser afetada pela extração do minério, disse Palacín. Para o ativista José de Echave, da não-governamental CooperAção (especializada em mediar este tipo de conflito), apesar de não existirem estudos detalhados, trata-se de uma zona ambiental delicada.
Os problemas começaram no dia 25 do mês passado, quando cerca de mil moradores iniciaram uma marcha rumo aos acampamentos da empresa, na parte alta de Piura, a várias horas de caminhada desde a cidade de Huancabamba, capital da província de mesmo nome. Segundo a PNP, a intenção da marcha era tomar pela força a mina para impedir o início dos trabalhos exploratórios. De acordo com o documento enviado á IPS pelas organizações camponesas, "tratava-se de entrar pacificamente no acampamento mineiro". No dia 28 integraram-se à marcha 1.500 pessoas, procedentes de comunidades mais próximas dos acampamentos. Já no dia 31 de julho houve o primeiro choque com a polícia, que utilizou gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes.
Entre segunda e terça-feira, ocorreram novos enfrentamentos mais violentos, nos quais a polícia utilizou armas de fogo de forma indiscriminada, segundo as denúncias dos camponeses, e nos quais teriam morrido sete camponeses. Um comunicado da empresa divulgado nesta quinta-feira afirma que cerca de 400 pessoas foram mantidas longe do acampamento de Rio Blanco, que houve "confrontos isolados" com a polícia por vários dias e que uma pessoa morreu em circunstâncias não esclarecidas. A empresa lamentou "que algumas pessoas tenham ficado feridas" e afirmou ter feito "todos os esforços possíveis para incentivar o diálogo e a participação da comunidade no desenvolvimento de Rio Blanco".
O vice-ministro Mucho afirmou que a exploração não será suspensa porque "esta operação é boa". Mas em Huancabamba e San Ignácio os ânimos não parecem totalmente apaziguados. Majaz é uma das seis filiais da corporação britânica Monterrico Metals, com sede em Londres, mas que opera exclusivamente em jazidas do Peru. No site da Monterrico afirma-se que a lei de mineração peruana foi "simplificada" em 1991 e "agora oferece um contexto atraente" para o desenvolvimento de projetos. "Existem poucas limitações para conseguir concessões de mineração no Peru", concedidas "em 100% e indefinidamente a empresas nacionais ou estrangeiros pagando US$ 3 por hectare ao ano ao governo como imposto sobre a terra", diz a Monterrico. "O mesmo direito de concessão é válido para a exploração e mineração, pois não existem procedimentos complicados de conversão", acrescenta.
O caso Maja é um dos pelo menos 27 conflitos entre comunidades e empresas que exploram riquezas minerais no Peru, 16 dos quais obedecem a denúncias por problemas ambientais. Mariano Castro, secretário-executivo do Conselho Nacional do Meio Ambiente, a autoridade ambiental peruana, disse à IPS que a informação é fundamental para evitar estas situações, mas que muitas vezes "se protesta antes do início de uma atividade, sem que existam provas de um risco latente". De Echave admitiu a existência de uma percepção negativa das atividades mineiras, mas acrescentou que nos últimos anos"nenhum estudo de impacto ambiental apresentado por uma empresa de mineração foi rejeitado".
"Temos 10 anos de conflitos mineiros e continuamos na mesma", acrescentou. O Estado deve exercer uma política preventiva, uma estratégia mais eficaz de informação e deve implementar "mecanismos de diálogo adequados que evitem essas explosões". Quinze por cento do investimento estrangeiro no Peru provém da mineração e 50 % das exportações (uns 4,5 bilhões de dólares) correspondem a este setor, que tem se beneficiado nos últimos anos com a grande demanda internacional e os preços elevados dos produtos básicos. (IPS/Envolverde)
Crédito – Lucia Miranda (miranda@pop.com.br)

