Terrorismo: Aliado critica os EUA por condenar clérigo

Sana`a, 03/08/2005 – O governo e a sociedade do Iêmen reagiram com indignação ao veredito de um tribunal dos Estados Unidos que condenou a 75 anos de prisão um clérigo muçulmano iemenita acusado de conspirar para dar ajuda financeira á rede terrorista Al Qaeda e ao grupo palestino Hamas. Mohammad Al-Moayyad, de 57 anos, também terá de pagar multa no valor de US$ 1,25 milhão, segundo decidiu um tribunal federal norte-americano na segunda-feira, quatro meses depois de o acusado ter sido declarado culpado. A condenação enfureceu inclusive o governo do Iêmen, um estreito aliado de Washington em sua "guerra contra o terrorismo".

Al-Moayyad gozava de grande respeito no Iêmen por suas obras de caridade. Com suas organizações alimentou milhares de pobres e construiu uma escola e uma mesquita. Foi preso na Alemanha em 2003 junto com um colaborador, Mohammad Zaid, de 31 anos. Havia chegado a esse país europeu para se reunir com um empresário que supostamente iria fazer uma doação, que na verdade era um agente do FBI (Escritório Federal de Investigação) norte-americano. Al-Moayyad e Zaid foram extraditados para os Estados Unidos. Zaid também foi considerado culpado e sua sentença será anunciada em setembro.

O FBI informou que havia gravado uma conversa na Alemanha que demonstra que Al-Moayyad tentou arrecadar fundos para a rede terrorista internacional Al Qaeda e para o Hamas (Movimento de Resistência Islâmica). Entretanto, o governo iemenita divulgou um comunicado no qual nega a existência de provas contra Al-Moayyad e destaca que coletar fundos para os palestinos não é um crime. "Lamentamos esta sentença contra um homem que dedicou toda sua vida e seu dinheiro a ajudar famílias pobres e órfãos. Se tivéssemos evidência concreta de que Al-Moayyad é culpado não o estaríamos defendendo", diz a nota.

O presidente do Comitê Público Nacional para Defender Al-Moayyad, Hamoud al-Tharehi, afirmou que a sentença é injusta "porque 1,5 bilhão de muçulmanos fazem doações ao Hamas e a todos os palestinos que lutam contra Israel". O chanceler iemenita, Abu-Bakr al-Qerbi, ressaltou que seu governo sempre se opôs à extradição de Al-Moayyad para os Estados Unidos, pois as leis nesse país "não se aplicam de forma igualitária". O partido de oposição islâmico Islah acusou Washington de ignorar os direitos humanos em sua luta contra o terrorismo, enquanto o advogado de Al-Moayyad, Khalid al-Anisi, disse que o veredito amplia a distância entre os Estados Unidos e o mundo muçulmano.

Mas há também um mal-estar com o governo do Iêmen. Naji Allaw, um famoso advogado de Sana`, divulgou um comunicado onde afirma que "o povo árabe é enviado à prisão por seus próprios líderes, que por sua vez são prisioneiros dos Estados Unidos". A presidente da União de Mulheres Iemenitas, Ramziah al-Eryani, conclamou os grupos da sociedade civil locais e organizações internacionais defensoras dos direitos humanos a salvarem Al-Moayyad deste processo "politizado". Muitos iemenitas acreditavam que Al-Moayyad seria libertado. Especialistas legais disseram que o tribunal norte-americano nunca pôde demonstrar que ele tenha dado apoio material à Al Qaeda, a principal acusação que enfrentava. "É uma sentença ilegal e ilógica. É uma mensagem para os muçulmanos que ameaça a todos os que apóiam os palestinos", afirmou Al-Anisi.

A sentença contra Al-Moayyad uniu praticamente todos os setores da sociedade iemenita, inclusive aqueles que estiveram em conflito nos últimos meses. Vários grupos da sociedade civil realizam uma campanha contra o governo, que há algumas semanas aumentou os preços dos combustíveis por pressão do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Poucos iemenitas acreditam que o governo possa reverter o veredito do tribunal norte-americano, mas pelo menos esperam que mude a relação de seu país com Washington na luta contra o terrorismo. (IPS/Envolverde)

Nabil Sultan

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