Direitos Humanos: Igrejas enviam ajuda ao Zimbábue

Johannesburgo, 05/08/2005 – Igrejas católicas da África do Sul enviaram esta semana ajuda para mais de 700 mil vítimas de uma operação governamental de evacuação e demolição de bairros periféricos nas principais cidades do vizinho Zimbábue. A operação, que começou em maio, denominada "Murambatsvina", é termo shona que significa "tirar o lixo", cujo objetivo é fazer com que os moradores desses bairros se dirijam ao campo "para livrar as cidades dos assentamentos ilegais e de criminalidade", explicaram as autoridades. As evacuações aconteceram na estação mais fria do Zimbábue e deixaram essas pessoas sem recursos mínimos de subsistência. A ajuda enviada pelas igrejas sul-africanas inclui 4.500 cobertores e 37 toneladas de milho, feijão e óleo. "Ainda não recebemos confirmação da chegada dos produtos", disse à IPS um porta-voz do Conselho Sul-africano de Igrejas (SACC, sigla em inglês).

"O que aconteceu não pode ser revertido", mas "agora é importante tomar medidas para proteger os direitos destas pessoas a uma moradia adequada, alimento, água e cuidados médicos, bem como a um acesso igualitário das crianças à educação", disse Walter Kalin, representante da Organização das Nações Unidas para os Direitos Humanos dos Refugiados. Kalin pediu urgência ao governo de Robert Mugabe para tomar medidas a fim de acabar com as "violações das garantias fundamentais que estão ocorrendo em escala maciça". Ao inteirar-se da operação de evacuação, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, a considerou "uma injustiça catastrófica" e enviou ao Zimbábue Anna Tibaijuka, diretora-executiva das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (Habitat) para avaliar a situação.

"A operação começou na capital, Harare, e rapidamente se converteu em uma campanha nacional de demolições, realizada pela polícia e pelo exército", relatou Tibaijuka em um relatório divulgado no dia 22 de julho. "Popularmente conhecida como Operação Tsunami, por sua rapidez e ferocidade, a campanha incluiu a destruição de casas, comércios e pontos de venda. Cerca de 700 mil pessoas perderam suas casas, seu meio de vida, ou ambos, em cidades de todo o país, e outras 2,4 milhões foram indiretamente afetadas em diversos graus", informou. "Centenas de milhares de homens, mulheres e crianças ficaram sem casa e sem acesso a alimentos, água, saneamento e cuidados médicos", acrescentou Tibaijuka.

O secretário-geral da SACC, Molefe Tsele, pediu fundos adicionais de ajuda em uma conferência realizada segunda-feira em Johannesburgo, o centro financeiro da África do Sul. "Todos deveriam se unir às igrejas para dar mais esperança aos nossos vizinhos do Zimbábue, afirmou. Por sua vez, Ivan Abraham, bispo da Igreja Metodista, anunciou o envio de mais ajuda no próximo dia 18. "Teremos apoio logístico do governo da África do Sul. Usaremos caminhões do exército", explicou à IPS. As igrejas arrecadaram até agora cerca de US$ 76 mil e também abriram uma conta bancária na África do Sul para que os cidadãos façam doações para as vítimas das evacuações do Zimbábue. "Tem havido uma resposta muito boa. Todas as igrejas possuem associações na Grã-Bretanha ou Alemanha, que também expressaram seu desejo de colaborar", destacou Abrahams.

A ajuda de emergência será distribuída pelo Conselho de Igrejas do Zimbábue em salões paroquiais ou acampamentos nas cidades mais afetadas pela operação "Restauração da Ordem", como se chama oficialmente: Harare, Bulawayo e Mutare. A embaixada da África do Sul em Harare vai controlar para que a ajuda chegue aos seus destinatários. A campanha coincide com uma crise alimentar causada pela seca e redução da produção interna de alimentos desde que Mugabe tirou, em 2000, as terras de 4.500 agricultores brancos para entregá-las a camponeses da maioria negra, em geral sem experiência no campo.

Grupos da sociedade civil e partidos de oposição acusaram o governo de limitar a ajuda alimentar aos seus partidários, mas as autoridades negaram as acusações. Cerca de 2,9 milhões de pessoas, que incluem 36% da população rural, precisarão de ajuda alimentar este ano, segundo um informe conjunto de agências da ONU e a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, divulgado em junho. O governo anunciou um plano para importar 1,2 milhão de toneladas de milho, mas o Programa Mundial de Alimentos também anunciou um plano de contingência para ajudar quatro milhões de zimbabuenses este ano.

O Zimbábue é motivo de preocupação para a comunidade internacional, especialmente para a Grã-Bretanha, sua antiga metrópole colonial, desde que o governo iniciou a campanha de ocupação das fazendas, há cinco anos. O opositor Movimento para a Mudança Democrática (MDC) acusou a governante União Africana de Zimbábue-Frente Patriótica de fraudes nas eleições de 2002, e desde então Londres e Washington pedem a renúncia de Mugabe, de 79 anos e que governa o país desde a independência em 1980. O mesmo grupo opositor também considerou fraudulentas as eleições de 31 de março deste ano. (IPS/Envolverde)

Crédito – Basil Baqwa

Moyiga Nduru

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