Desenvolvimento: Ocidente freia a economia mundial

Londres, 05/09/2005 – A economia mundial enfrenta "sérios riscos de um retrocesso", adverte em seu relatório anual a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). Embora persista a expansão econômica mundial, a moderação do crescimento no primeiro semestre deste ano deveria servir de alerta, afirma esta agência da ONU. "O principal motor de crescimento, a economia norte-americana, pode ficar sem combustível antes que outros países da região possam assumir esse papel", afirma o estudo. "Os países da união monetária européia têm sido incapazes de sair de uma prolongada estagnação econômica, e o Japão, apesar de algumas melhoras, ainda luta contra a deflação", acrescenta o informe.

Por outro lado, vários populosos países asiáticos, "em particular China e Índia, surgem como novos motores do crescimento econômico", diz o documento. O co-autor do relatório, Detlef Kotte, disse à IPS de seu escritório em Viena que "boa parte da redução do crescimento da Europa e do Japão é conseqüência do déficit fiscal dos Estados Unidos. O governo norte-americano está a par do problema", afirmou. Mas "também é certo que a economia dos Estados Unidos pode se dar ao luxo de um déficit como esse, simplesmente porque pode pagar suas exportações com dinheiro que o próprio país imprime. A maioria das nações não tem essa vantagem, pois devem comprar ou pedir emprestadas divisas para financiar suas exportações", explicou Kotte.

Inevitavelmente surgem perguntas sobre as dimensões que atingirá o déficit norte-americano antes de ser necessário um ajuste, disse o especialista. "É muito difícil dizer com precisão o quanto elevado pode ser o déficit dos Estados Unidos. Só o que podemos dizer é que não pode crescer eternamente", alertou. Os principais fatores por trás do déficit são o lento aumento das exportações e o aceleramento das importações atribuído a um incremento rápido do consumo interno norte-americano, considerou Kotte. "O consumo interno tem sido muito elevado durante muitos anos, e de fato não é a primeira vez que advertimos sobre o risco de tais níveis não poderem ser mantidos, simplesmente porque as famílias estão altamente endividadas e sua taxa de poupança é negativa", afirmou.

"Em certo ponto, isso pode colocar em risco o funcionamento do sistema bancário nacional, e as taxas de juros deveriam, em conseqüência, subir. Além disso, devido ao aumento do preço do petróleo, todas as famílias endividadas se verão em dificuldades para honrar suas dívidas", afirmou o especialista. O panorama na China e na Índia, ao contrário, é muito bom, segundo Kotte. "Estes dois países não só apresentam um crescimento maior do que a média da economia mundial e das nações em desenvolvimento, como também o mantêm durante muitos anos", afirmou. "Nos anos 80 e 90 viu-se um alto crescimento em muitos países da América Latina, mas se tratava de ciclos de elevação e queda".

O crescimento sustentado em muitos países da Ásia, em particular estas duas grandes economias, demonstra que as estruturas econômicas estão se desenvolvendo muito bem", afirmou Kotte. Entre China e Índia há grandes diferenças, "simplesmente porque o desenvolvimento industrial indiano está 10 ou 15 anos atrasado em relação ao chinês", afirmou. "Boa parte do desenvolvimento dos dois países se registrou no setor de serviços, mas, se observarmos a China de perto, a indústria se expandiu ainda mais rápido". Os dois países "se converteram em mercados muito importantes para os produtos básicos, e boa parte do aumento do preço do petróleo e de outras matérias-primas industriais se deve a essa demanda".

A Unctad indicou que a economia mundial cresceu quase 4% em 2004, o melhor rendimento desde 2000. Para este ano, se prevê que seja de 3%, enquanto o mundo em desenvolvimento crescerá entre 5% e 5,5%. Mas algumas "nuvens escuras" sobrevoam o Sul, segundo o relatório da Unctad. "Os preços do petróleo estão historicamente altos e são uma pesada carga sobre muitos países em desenvolvimento. E não houve ações multilaterais para diluir o atual desequilíbrio de conta mundial", alertou a agência. Os países industrializados são hoje muito menos dependentes do petróleo, indica o informe. "Usam a energia com maior eficiência, e a indústria (…) é uma porção pequena da economia, dominada pelo setor de serviços", diz o estudo.

Para atender os desequilíbrios econômicos, o documento considera essencial evitar a recessão e o retrocesso no crescimento "tanto no mundo industrializado, onde o crescimento depende exclusivamente da economia norte-americana, quanto no mundo em desenvolvimento, onde as economias e as moedas são frágeis". O estudo recomenda que as iniciativas internacionais para aliviar a pobreza e atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio "não ignorem a importância de um suave desenvolvimento dos desequilíbrios econômicos mundiais que permitirão a manutenção do "milagre asiático", junto com suas repercussões positivas em outros países menos ricos". (IPS/Envolverde)

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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