Direitos Humanos: Crise em Darfur está eclipsada, mas não esquecida

Washington, 13/09/2005 – Um ano depois de o governo do presidente George W. Bush declarar que a violência na província sudanesa de Darfur era um "genocídio", ativistas norte-americanos acusaram Washington de abandonar as vítimas à própria sorte. Mais de cem ativistas comemoraram na quinta-feira este aniversário com uma manifestação diante da Casa Branca e exortaram a comunidade internacional a dar proteção urgente a cerca de 2,5 milhões de refugiados dentro do Sudão pelos contínuos ataques de milícias árabes apoiadas pelo governo central na província mais ocidental do país.
"Enquanto os norte-americanos criticam o presidente por sua falta de liderança nacional em meio ao horror provocado pelo furacão Katrina, também devemos condenar sua falta de liderança internacional por não deter o genocídio em Darfur, onde as vítimas fatais continuam aumentando", afirmou Salih Booker, diretor da organização Africa Action (ação pela África). Esta entidade lançou na quinta-feira uma petição assinada por quase cem mil pessoas pedindo a Bush para "tomar todas as medidas necessárias" no contexto da Organização das Nações Unidas para enviar imediatamente uma força multinacional a Darfur com a missão de proteger os civis.

A petição conta com apoio de várias organizações religiosas, cristãs e judias, e da Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor, entre outras. Os problemas em Darfur, reino independente anexado pelo Sudão em 1917, começaram na década de 70 como uma disputa por terras de pastagem entre nômades árabes e agricultores indígenas negros. As duas comunidades étnicas compartilham a fé islâmica. Mas a tensão se transformou em uma guerra civil em fevereiro de 2003, quando guerrilheiros negros responderam com violência às hostilidades por parte das milícias Janjawedd (Cavaleiros).
Os Janjaweed, apoiados por Cartum, são acusados de realiza ruma campanha de limpeza étnica contra três tribos negras que apóiam as organizações guerrilheiras Exército para a Libertação do Sudão e Movimento pela Justiça e a Igualdade. Embora alguns observadores afirmem que a violência diminuiu nos últimos meses, o número de vítimas fatais desde o começo do conflito, há dois anos e meio, continuou aumentando e atualmente é estimado entre 300 mil e 400 mil. Segundo o Fundo para a Intervenção em Genocídios, com sede em Washington, 500 pessoas morrem diariamente em Darfur, enquanto as milícias destroem aldeias, violam mulheres e meninas, seqüestram crianças e destroem fontes de água e alimentos.
A União Africana, com o apoio logístico de países-membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), enviou cerca de 5.500 soldados a Darfur para controlar a situação, mas ainda carece de um mandato da ONU para proteger os civis. Além disso, a entidade anunciou a suspensão de novos envios pelo menos por três semanas por falta de combustível para aviões, o que a impedirá de alcançar seu objetivo de ter 7.500 soldados em Darfur antes do fim do mês. Segundo ativistas, é necessária uma força muito maior para abranger todo o território de Darfur, com superfície equivalente à da França ou do Iraque. Além disso, os ativistas temem que a atenção da imprensa voltada para os estragos causados pelo Katrina e para a guerra do Iraque deixe de lado a situação no Sudão.
Um estudo divulgado em julho pelo Fundo para a Intervenção em Genocídios revela que a imprensa norte-americana dedicou 50 vezes mais espaço ao julgamento do cantor Michael Jackson por abuso de menores do que aos massacres em Darfur. Quando o Fundo preparou um anúncio publicitário revelando esse dado, as redes de televisão se negaram a transmiti-lo. "Enfrentamos um novo desafio, especialmente depois do furacão Katrina, de reconcentrar a atenção da imprensa em Darfur?, afirmou Ann-Louise Colgan, diretora-adjunta da Africa Action. "É inaceitável que permaneçamos impassíveis enquanto as pessoas morrem", afirmou Robert Edgar, secretário-geral do Conselho Nacional de Igrejas. "Este genocídio é um dos grandes horrores de nosso tempo. Pedimos urgência às pessoas com consciência a tomarem medidas antes que os fatos nos acusem algum dia de negligência e cumplicidade", acrescentou.
Há um ano, Bush divulgou um comunicado de imprensa reconhecendo o genocídio de Darfur, e o então secretário de Estado, Colin Powell, declarou que o governo do Sudão e suas milícias eram responsáveis. Nove dias depois, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma fraca resolução patrocinada pelos Estados Unidos que pressionava Cartum a por fim à violência, mas sem estabelecer nenhuma sanção em caso de não-cumprimento. Em novembro, o Conselho aprovou outra resolução apresentada por Washington que autorizava a missão da União Africana, mas novamente não previa sanções. Desde então, a Casa Branca aumentou seu apoio à essa missão, embora sem tomar nenhuma outra medida.
Funcionários do governo, em particular, argumentam que uma resolução mais agressiva seria vetada pela China, que tem importantes investimentos na indústria do petróleo do Sudão e, além disso, descarrilaria o processo de paz entre Cartum e os rebeldes do sul. Mas alguns críticos citaram outros motivos. A visita secreta, em abril, a Washington do chefe da agência de inteligência do Sudão, general Salah Abdallah Gosh, citado em um relatório da ONU como um dos principais responsáveis pela campanha genocida, sugere que a cooperação de Cartum na "guerra contra o terrorismo" do presidente Bush está lhe rendendo créditos. Esta suspeita foi reforçada pela posterior pressão da Casa Branca sobre o Congresso para que não aprovasse leis que pressionassem ainda mais Cartum a por fim à violência em Darfur. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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