Nova York, 20/09/2005 – A greve de fome iniciada em junho por suspeitos de terrorismo confinados na base naval norte-americana de Guantânamo, em território cubano, recomeçou e está aumentando, com 15 presos hospitalizados, 13 deles alimentos através de soro. A quantidade de grevistas varia segundo as diferentes versões. Os porta-vozes militares norte-americanos falam entre 76 e 89, em meio milhar de prisioneiros. Mas o advogado de um grupo de presos assegurou que são 200 e que o numero vai aumentando. "As razões parecem ser miríades, mas o principal é que protestam por sua contínua" detenção, disse o advogado britânico Clive Stafford-Smith, representante de 40 detidos.
"Seu futuro é incerto, de um ponto de vista legal, por isso tentam saber exatamente o que lhes supõe seu futuro", afirmou o advogado, que tem entre seus clientes o grevista britânico Omar Deghayes. Trata-se da segunda greve de fome desde o final de junho. A primeira terminou quando as autoridades militares norte-americanas fizeram uma série de promessas, incluindo melhor acesso a livros e água engarrafada. "No fim, como os grevistas estavam perto da morte, os militares cederam e permitiram a instalação de um conselho de seis prisioneiros para controlar o bem-estar" dos detidos, disse um deles, segundo a imprensa. Porém, os grevistas afirmaram que foram enganados para que voltassem a se alimentar.
"A administração da base prometeu que se lhes déssemos 10 dias adaptariam a prisão às Convenções de Genebra" e que a concessão havia sido aprovada pelo secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donaldo Rumsfeld, disse um dos presos em uma declaração entregue a Stafford-Smith. "Em razão dessas promessas, concordamos em acabar com a greve de fome no dia 28 de julho. Agora é dia 11 de agosto. Traíram nossa confiança", segundo o prisioneiro. As Convenções de Genebra são a base do direito internacional humanitário, que atende a situação dos prisioneiros de guerra e da população civil afetada por conflitos armados.
O governo de George W. Bush garante que os prisioneiros de Guantânamo, a maioria detida devido à invasão do Afeganistão em 2001, não merecem a proteção das convenções de Genebra, pois são "combatentes inimigos" e não "prisioneiros de guerra". A ocupação do Afeganistão em outubro de 2001 foi a resposta aos atentados que no dia 11 de setembro desse ano deixaram três mil mortos em Nova York e Washington. Esses ataques foram reivindicados pela rede terrorista Al Quaeda, então protegida pelo regime islâmico Talibã, que dominava a maior parte do território afegão. O sargento Justin Behrens, porta-voz das forças armadas norte-americanas, disse à agência Associated Press em resposta a um questionário escrito que alguns dos presos "não comem há um mês".
"O restante se negou a ingerir pelo menos nove refeições consecutivas. Quinze foram hospitalizados, 13 dos quais recebem alimentação por meio de tubos. Os médicos controlam os 89", acrescentou o militar. Antes, os militares haviam informado que se tratava de 76 grevistas. "As pessoas estão desesperadas", disse Stafford-Smith. "Estão ali há três anos. Prometeram a eles respeito às Convenções de Genebra e que haveria várias mudanças, mas o governo dos Estados Unidos não cumpriu o prometido. Infelizmente, é muito difícil alcançar um acordo entre um militar muito obstinado e um grupo de prisioneiros muito desesperado", afirmou.
Outro porta-voz da prisão de Guantânamo disse que não seria permitida a morte de grevistas. "Basicamente, deixar de comer durante várias semanas ou meses, é uma forma de suicídio lento. Nenhum centro de detenção permitirá isso", disse o major Jeff Weir. As declarações dos grevistas, desclassificadas pelo governo na semana passada e entregues ao advogado, indicam que os homens desfalecem em protesto pelas condições de vida no acampamento e por supostos maus-tratos, incluindo a profanação do Corão, o livro sagrado dos muçulmanos. As declarações foram redigidas no dia 11 de agosto.
Em outra declaração desclassificada, o britânico Omar Deghaves, diz: "Em julho, algumas pessoas não tomaram água por muitos dias. Fiz parte dessa greve, e também faço greve agora. Alguns foram levados ao hospital e alimentados com soro, mas eles retiraram as agulhas, pois preferiam morrer. Havia dois médicos. Um queria obrigar os homens a se alimentarem, mas os advogados lhes disseram que não poderiam fazê-lo se os homens se negassem. Por fim, os militares concordaram em negociar. Colocamos fim à greve (em 28 de julho), mas lhes demos duas semanas, e se as mudanças não acontecessem voltaríamos à greve". Ao que parece, foi isso que aconteceu.
De todo modo, o Departamento de Defesa se recusou a dar informação a respeito, além da fornecida pelo major Weir por escrito."Estamos muito preocupados com o estado de saúde dos indivíduos detidos em Guantânamo", disse à IPS o advogado Avi Cover, da Human Rights First. "A greve de fome é uma conseqüência trágica e inevitável de um sistema de detenção caracterizado pelo secretismo e desprezo pelo Estado de direito e carregado de abusos físicos e mentais", acrescentou Cover. "O mínimo que se pode pedir é uma análise médica independente dos prisioneiros. Seus familiares deveriam ser notificados sobre suas condições físicas e se estão hospitalizados", acrescentou.
A senadora conservadora Linday Graham, do governante Partido Republicano, propôs uma lei que obrigaria as forças armadas a aplicarem o Código de Justiça Militar norte-americano, que proíbe expressamente o tratamento cruel e degradante. Outro senador republicano, John McCain, que esteve oito anos prisioneiro e submetido a torturas no Vietnã, do opositor Partido Republicano, exigiu o fechamento do centro de detenção. Entretanto, Guantânamo tem seus defensores.
O senador republicano Jeff Sessions disse que o centro de detenção poderia ser "um belo centro turístico". Por sua vez, o representante Duncan Hunter assegurou que tinha "uma cozinha de cinco estrelas: pescado ao limão, dois tipos de fruta e dois de verduras. Pescado ao limão, é isso que o seqüestrador número 20 (dos aviões com os quais foram cometidos os atentados de 2001) e os guarda-costas de Osama bin Laden (líder da Al Quaeda) comerão esta semana em Guantânamo", disse Sessions em entrevista coletiva. A prisão de Guantânamo foi inaugurada em janeiro de 2002 e abriga atualmente 520 prisioneiros de 40 países. Mais de 230 já foram libertados ou transferidos em custódia para seus países de origem. (IPS/Envolverde)

