Nairóbi, 06/09/2005 – As mulheres do Quênia têm uma carta poderosa para lidar com os políticos que ignoram a igualdade de gênero: votar em quem se preocupa com elas. Sessenta por cento das pessoas analfabetas são mulheres neste país de 30 milhões de habitantes. Porém, as mulheres também constituem a metade do eleitorado e das que exerceram seu direito de voto nas últimas eleições gerais de 2002. "Se sensibilizarmos todas as mulheres sobre seu direito de pedir explicações aos seus líderes pelas promessas que não cumpriram, poderemos ter êxito", disse Mônica Amolo, diretora-executiva do Programa de Reabilitação de Mulheres com Dificuldades Sócio-econômicas (Prowed, sigla em inglês). "Estamos cansadas de promessas vazias. O que as mulheres querem agora é ação. Isto leva à intensificação de esforços na área da educação cívica", acrescentou o Prowed trabalha com comunidades no Quênia ocidental.
Mesmo com a melhor boa vontade do mundo, podem o Prowden e outras organizações semelhantes dar às mulheres do Quênia a informação que precisam para tomar decisões informadas nas urnas? E, em caso contrário, as mulheres seriam capazes de obter esta informação em outro lugar? Por exemplo, a imprensa pode parecer uma boa fonte para conhecer quais são os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio da Organização das Nações Unidas e a análise sobre o que fazem os políticos para implementá-las. Entretanto, o analfabetismo impede que milhões de mulheres se beneficiem dessa informação. Um desses oito objetivos, adotados pela comunidade internacional em 2000, estabelece a igualdade de gênero em todos os níveis da educação, melhoria na saúde materna e na infantil e a redução pela metade da proporção de pessoas indigentes ou que passam fome no mundo, entre outros propósitos.
Segundo os últimos dados disponíveis (de 1999) do Departamento de Educação para Adultos do Ministério de Gênero, Esportes, Cultura e Serviços Sociais, cinco milhões de pessoas são analfabetas. Destas, 60% são mulheres. Pode-se argumentar que os meios de comunicação deveriam preencher a brecha, já que os programas de rádio e televisão sobre temas de desenvolvimento podem ultrapassar a barreira do analfabetismo. As rádios comunitárias, enfocadas nos problemas locais, parecem um caminho promissor, especialmente as que transmitem em línguas autóctones. Entretanto, a preocupação do governo pelos possíveis efeitos de criar uma ativa rede de emissoras comunitárias enfraquece o papel que tais meios podem ter em informar as mulheres sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.
"Quando se dão informações sobre temas delicados como a governabilidade e se permite às comunidades exporem seus pontos de vista sobre eles, se está democratizando a informação, para desagrado do governo", disse à IPS Grace Githaiga, coordenadora da Rede de Meios Comunitários do Quênia (Kcomnet, sigla em inglês), que reúne jornalistas e organizações não-governamentais, com sede em Nairóbi. "O governo teme que uma audiência informada o desafie", acrescentou Githaiga. É eloqüente que o Quênia tenha apenas uma emissora desse tipo, a Rádio Comunitária Mang`elete, localizada no leste do país, que no ano passado foi autorizada a funcionar, depois de uma década de intensa pressão por parte de ativistas.
Mas mesmo se as mulheres conseguirem se informar sobre o que fazem os governantes para cumprirem promessas relativas ao desenvolvimento, seus votos podem ir para políticos que não os merecem, alertou Amolo. "A maioria das mulheres nas áreas rurais vota por qualquer um que lhes dê esmolas como açúcar, farinha e dinheiro, devido ao alto nível de pobreza", acrescentou. A informação sobre temas de desenvolvimento deve estar de mãos dadas com as iniciativas para aliviar a pobreza, se a intenção é evitar que a fome e a necessidade sufoquem os esforços para fazer com que os políticos assumam suas responsabilidades, disse Amolo. "Isto só pode ter êxito se embarcarmos em programas sócio-econômicos para dar poder às mulheres, especialmente as camponesas. Existe uma necessidade de coletar dados sobre quantas mulheres da área rural têm alguma fonte de renda e depois averiguar como se pode ajudar as que carecem deles para que se mantenham por si mesmas. Fica mais fácil falar a alguém que é capaz de ajudar a si própria".
As estatísticas do governo indicam que aproximadamente 56% dos quenianos vivem com menos de um dólar diário, limite internacional para medir a pobreza extrema. A questão étnica pode prejudicar o trabalho dos ativistas e das rádios comunitárias. "As pessoas não votam a partir de um ponto de vista informado. Há uma tradição de que o poder pertence ao homem, a pertinência étnica determina que alguém só pode votar em alguém de sua etnia, etc, etc", disse à IPS Winnie Mitullah, pesquisadora do Instituto de Estudos de Desenvolvimento na Universidade de Nairóbi. Quênia tem várias dezenas de grupos étnicos, dos quais o kikuyu é o maior, com cerca de um quinto da população.
Os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio foram estabelecidos pela comunidade internacional durante a Cúpula realizada em Nova York em 2000. A data fixada para cumprir a maior parte deles é 2015. Os objetivos se centram em reduzir à metade a proporção de pessoas com fome e em situação de pobreza extrema, conseguir a educação primária universal e promover a igualdade de gênero (que se medirá pelo acesso de meninos e meninas à educação primária e se recebem ensino igual na escola primária e secundária). Os objetivos também pretendem reduzir a mortalidade infantil e materna, combater a aids e outras importantes enfermidades, garantir a sustentabilidade ambiental e abordar problemas de desenvolvimento, como os desequilíbrios comerciais e os altos níveis de endividamento.
Entre os dias 14 e 16 deste mês, outra cúpula acontecerá na sede da ONU para avaliar o progresso dos objetivos. Espera-se que as discussões dêem novo ímpeto à campanha, colocando as mulheres do Quênia – e do resto do continente em uma posição em que possam "usar seus votos inteligentes", como afirmou a ativista pelos direitos humanos Yassine Fall. Fall fez este comentário em maio, durante uma conferência organizada pela Iniciativa para o Milênio das Mulheres Africanas sobre Pobreza e Direitos Humanos, uma organização não-governamental com sede em Dacar, no Senegal, a qual preside. Este encontro abordou a implementação dos objetivos. "Antes de votar, as mulheres devem cobrar de seus líderes o direito de saber quando serão implementadas as leis ou os tratados assinados a seu favor", disse Fall a IPS. "Deveria ser algo como ´se quer meu voto, me diga o que vai fazer por mim e quando", acrescentou. (IPS/Envolverde)

