Helsinque, 09/09/2005 – "O trabalho infantil é um mal", afirma Aimé Bada, um defensor dos direitos da infância do Senegal. "Mas é um mal necessário, porque sem a renda que as crianças conseguem nos países mais pobres do mundo suas famílias estariam pior", acrescenta. Bada sabe do que fala, porque quando criança trabalhou muito para ajudar no sustento de sua família. Agora, defende os direitos da infância, e nesses direitos inclui o de trabalhar. Entretanto, disse em uma conferência sobre trabalho infantil em Helsinque, que meninos e meninas devem ter o direito de definir as condições do trabalho que realizam e de serem protegidos de abusos por parte de seus empregadores, tanto em nível doméstico quanto empresarial.
A conferência de que Bada participou aconteceu no contexto do Processo de Helsinque, uma iniciativa de diálogo Norte-Sul sobre novas estratégias para resolver problemas mundiais, lançada em dezembro de 2002 pelos governos da Tanzânia e Finlândia. Bada pediu uma reforma radical da educação institucional nos países em desenvolvimento, especialmente na África, o continente mais pobre do mundo. "A escola deve ser reformulada para permitir que as crianças trabalhem com o que aprendem. A escola deve respeitar as tradições africanas de ensino oral e incorporar aos seus programas a aprendizagem de ofícios, além de condutas que permitam às crianças se transformarem em valiosos cidadãos", afirmou. Muitos participantes concordaram com Bada.
"Condenar o trabalho infantil é insensato e improdutivo", afirmou Päivi Mattila, professora de ciências sociais da Universidade de Helsinque, que fez várias pesquisas sobre trabalho infantil na Ásia, América Latina e África. A Organização Internacional do Trabalho fixou normas para prevenir o trabalho infantil, e a Organização das Nações Unidas aprovou há muito tempo uma convenção sobre os direitos da infância, "Mas ainda há crianças que trabalham no Brasil, na Índia, Filipinas e no Senegal", entre outros países, disse à IPS. Para reduzir, e por fim eliminar, o trabalho infantil, as escolas devem melhorar muito, ressaltou, acrescentando que "as escolas só se transformarão em uma alternativa para as crianças pobres do mundo em desenvolvimento quando proporcionarem educação útil para a vida real". A educação institucional deve incluir formação em ofícios como mecânica de automóveis, eletrônica e carpintaria, disse Mattila. "E essa formação deve transcender a discriminação de gênero. Não é possível que sempre se ensine às meninas atividades cosméticas e de cozinha e aos meninos sempre mecânica e carpintaria", reclamou.
Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), até 250 milhões de meninos e meninas de países em desenvolvimento trabalham, a metade deles em tempo integral. Grande parte é vítima de abusos e obrigados a tarefas perigosas e humilhantes, que variam desde o trabalho em minas até a escravidão sexual. Mas a escola por si só não ajudará a melhorar a vida dessas crianças, alertam especialistas. Rajae Msefer Berrada, do programa de proteção da infância do Unicef no Marrocos, disse que uma educação melhor pode ajudar a romper o círculo vicioso de pobreza e trabalho infantil. "Devemos atacar a pobreza e melhorar as oportunidades de educação para as crianças pobres", afirmou.
A ex-prefeita de São Paulo, Martha Suplicy, destacou que a educação escolar "abre uma janela para as crianças pobres que de outro modo não têm alternativa?. Martha promoveu em sua gestão o estabelecimento de centros culturais e esportivos. "Identificamos as zonas mais pobres da cidade e destinamos fundos para construir teatros e piscinas em suas escolas, e em geral melhorar a infra-estrutura para oferecer às crianças uma educação boa e variada", disse à IPS. "Um dia, uma menina me disse: ´ainda vivo em uma favela, mas agora também vou ao teatro´. Para essa menina, essa possibilidade era como uma janela para um mundo maior e mais bonito, em que podia realizar sua própria dignidade?, afirmou a ex-prefeita. (IPS/Envolverde)

