Ambiente: Os cultivos orgânicos do fazendeiro John

TORONTO, 10/10/2005 – "O México me ajudou a reencontrar a terra", disse John Anderson, protagonista de um premiado documentário sobre os desafios que enfrentam os pequenos produtores agrícolas nos Estados Unidos.
A vida excêntrica do produtor agrícola John Anderson, do Estado de Illinois, é o tema principal de um premiado documentário que rastreia o declínio das fazendas familiares dos Estados Unidos e, em uma virada surpreendente, mostra sua ressurreição. "The Real Dirt on Farmer John" é a história pessoal de Anderson que enfrentou a bancarrota, a perda da maior parte de suas terras e acusações de ser um "satânico" vendedor de droga. Também é uma crônica dos enormes desafios que os fazendeiros enfrentam nos Estados Unidos.

Desde 1930, a família Anderson havia trabalhado com sucesso cerca de 146 mil hectares de terras localizadas 160 quilômetros ao norte de Chicago. Mas sua idílica forma de vida acabou nos anos 80 quando a crise dos preços internacionais dos grãos levou à quebra a maioria dos pequenos produtores, como Anderson. Apesar de suas dificuldades aparentemente intermináveis, o fazendeiro encontrou a salvação e inspiração em um lugar surpreendente: o México. Depois de uma profunda depressão, uma visita casual a esse país derivou em uma permanência de dois anos, durante a qual começou a recuperar sua paixão pelo trabalho agrícola.

Após ver como as drogas haviam arruinado as vidas de alguns de seus amigos, Anderson assumiu a determinação de cultivar sem produtos químicos, ou "drogas para plantas", como os chama. Voltou, então, para sua fazenda em Illinois com planos de ser o primeiro produtor orgânico da região. Fazer a transição para a produção orgânica foi muito difícil e Anderson lutou por muitos anos até que uma organização de moradores de Chicago lhe pediu que criasse uma fazenda de Agricultura Apoiada pela Comunidade (CSA, sigla em inglês).

Sua fazenda, chamada "Angelic Farms", agora é uma das de maior sucesso de seu tipo nos Estados Unidos. Os consumidores urbanos pagam adiantado para que ele entregue vegetais orgânicos uma vez por semana. Anderson conversou com o Terramérica durante a apresentação do documentário sobre sua vida no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental de Toronto, que terminou no dia 2 de outubro.

Terramérica – Como influiu o tempo que passou no México em sua decisão de se converter em produtor orgânico?
Anderson – A cultura mexicana é mais vibrante e se sente muito mais próxima da terra. Pode ser vista na arquitetura e no modo como as pessoas se vestem e vivem. Os Estados Unidos tiveram muito disso em um momento, mas já faz tempo. A agricultura norte-americana é solitária e está desolada. Nossos produtores já não têm uma ligação estreita com a terra. Os produtores mexicanos me ajudaram a religar com o solo e acenderam uma nova paixão e a determinação de plantar autênticos cultivos orgânicos.

– Quais são os problemas da atual política agrícola dos Estados Unidos?
– O governo federal norte-americano está muito ligado às corporações agrícolas. Muita gente com altos postos no governo trabalha para grandes companhias de agroquímicos, como Monsanto e outras. Assim, a política do governo está completamente voltada para as enormes operações agrícolas, às fábricas de produtos químicos e à bioengenharia dos cultivos. Por outro lado, dentro do governo existe apoio à agricultura orgânica, porque o público pede. É pouco, mas está crescendo.

– O quanto é difícil para os produtores norte-americanos passar da agricultura tradicional para a orgânica?
– Cultivar sem produtos químicos requer diferentes habilidades e uma mentalidade diferente. O solo se torna dependente dos fertilizantes artificiais e sofre uma síndrome de abstinência, como ocorre com os viciados em drogas. Por isso é preciso superar esse período, o que pode demorar três anos. E então, é preciso ter um mercado para sua produção. Entendo o motivo de as pessoas não passarem para a agricultura orgânica, mas há aqueles que passam. A pessoa tem de estar meio louca para dedicar o tempo necessário para fazer com que funcione.

– Qual é o futuro da agricultura nos Estados Unidos?
– Tudo o que sei é que usar o passado ou o presente para prever o futuro não funciona. O mercado de produtos orgânicos, com seus 25% de taxa, agora é muito atraente para as grandes corporações. Em lugar de os produtos orgânicos conduzirem a um ressurgimento das fazendas familiares com gente que trabalha de perto a terra, podem acabar fomentando a produção em grande escala por parte de corporações. Me agradaria ver novamente pequenas propriedades salpicando a paisagem e que fossem viáveis, mas não sei se isso acontecerá.

* O autor é correspondente da IPS.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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