Pequim, 10/10/2005 – "Sociedade harmoniosa" é o novo lema do governante Partido Comunista da China. Por trás deste ideal se esconde o medo de que a enorme brecha quanto à renda entre as cidades e o campo ponham fim ao monopólio do poder que o partido ostenta há 56 anos. Em um esforço para reduzir esse risco, os líderes comunistas aprovarão em um congresso partidário iniciado no sábado um projeto de modelo político baseado na justiça social, mas não na liberalização política. O Décimo-primeiro Plano Qüinqüenal dá ênfase para a evolução da China à economia de mercado e também tende a completar o caminho dos últimos três anos de um modelo de desenvolvimento voltado cegamente ao crescimento do produto interno bruto, para um "conceito mais científico de desenvolvimento".
Isto significa que o governo central quer um crescimento econômico sustentável a longo prazo, e mais equilibrado do que tem sido até agora. O presidente, Hu Jintao, e o primeiro-ministro, Wen Jiabao, enfatizam um desenvolvimento centrado mais nas pessoas do que na produção, desde que tomaram as rédeas do partido em 2002 e do governo nacional em 2003. "Nos próximos cinco anos, a China deverá prestar mais atenção à justiça social e à democracia, e resolver os problemas estreitamente vinculados com os interesses das pessoas", diz uma declaração publicada pela agência estatal de notícias Xinhua. "O desenvolvimento econômico e social das cidades e do campo, e de diferentes regiões, deverá ser mais equilibrado e harmonioso no período 2006-2010", acrescenta a declaração.
Há alguns anos, o objetivo principal da política central chinesa era maior apoio oficial ao setor privado. Isto ficou claro com as políticas e teorias do ex-presidente e secretário-geral do Partido Comunista, Jiang Zemin (1993-2003). O setor privado mantém sua enorme importância hoje, mas o sucessor de Jiang, Hu Jintao, parece determinado a cumprir as responsabilidades do governo para com aqueles excluídos do "boom" econômico nacional. O anúncio do congresso do PC indica que a China enfrentará "um período crucial nos próximos cinco anos", período no qual "todo o país deveria se conscientizar mais de nossos problemas, pensar mais em nossos perigos", informou a agência Xinhua.
Nos últimos meses, ficou evidente que o PC chinês está cada vez mais preocupado com as tensões sociais entre ricos e pobres. Assessores governamentais manifestaram claramente suas preocupações sobre o custo social do rápido crescimento econômico da China e sua transição para uma economia de mercado. Um relatório oficial encomendado pelo Ministério do Trabalho e Assistência Social adverte que o país se encontra em uma zona de "luz amarela", o segundo indicador mais perigoso de instabilidade social, devido à crescente diferença de renda.
"Nos aproximaremos da luz vermelha depois de 2010, se não encontrarmos soluções eficazes nos próximos anos", previne o relatório, divulgado pelo Study Times, uma publicação da Escola Partidária Central do Partido Comunista. O Ministério de Segurança Pública admitiu que no ano passado houve 74 mil protestos envolvendo mais de 3,7 milhões de pessoas, contra 10 mil em 1994 e 58 mil em 2003. Zhou Yongkang, chefe nacional de polícia, anunciou a criação de esquadrões especiais antidistúrbios, encarregados de reagir rapidamente aos protestos que, segundo as autoridades, possam se tornar "muito violentos". Neste ano, choques e distúrbios já custaram a vida de 23 policiais e deixaram outros 1.826 feridos, segundo informações da imprensa.
O presidente Hu chegou ao poder em 2002, com a promessa de corrigir a desigualdade entre as prósperas zonas costeiras da China e o interior rural, onde vive a maioria dos 1,3 bilhão de habitantes do país. Hu prometeu prestar mais atenção aos marginalizados durante os anos de reforma econômica, entre eles os habitantes do campo, cuja renda ficou muito defasada, e os ex-empregados de empresas públicas que perderam sua segurança no trabalho e seus benefícios. Os últimos dois orçamentos aumentaram o investimento em educação e saúde rural e reduziram a carga fiscal para os camponeses.
Entretanto, os numerosos choques registrados entre camponeses e autoridades pela propriedade da terra, fábricas poluidoras e epidemias de gripe do frango e do porco provaram que os esforços governamentais não foram suficientes. Outro relatório confirmou recentemente um dado que há anos é manejado por especialistas independentes: a maior parte do orçamento nacional de saúde é investida em uma minoria que reside nas cidades. Além disso, o dinheiro destinado à educação obrigatória em zonas rurais representa apenas 7% do orçamento para a área da educação. "Será muito difícil para a China manter seu rápido crescimento se não resolver os problemas do campo e dos camponeses", disse Wen Tiejun, pesquisador da Faculdade de Agricultura e Desenvolvimento Rural da Universidade Renmiin. (IPS/Envolverde)

