Desenvolvimento: A África é minha prioridade, diz Wolfowitz

Helsinque, 25/10/2005 – Acabar com a pobreza e os sofrimentos da população da África será a prioridade do Banco Mundial nos próximos anos, anunciou seu presidente, o norte-americano Paul Wolfowitz. "Creio que a situação da África subsaariana é inaceitável. Deve ser a prioridade" do Banco, disse, durante uma reunião com a Rede Parlamentar sobre o Banco Mundial, realizada no final de semana na sede legislativa da Finlândia. A Rede é uma associação de quase mil legisladores de 110 países, criada há cinco anos como plataforma de diálogo entre os parlamentos do mundo e o Banco, com o propósito de impulsionar projetos de desenvolvimento e lutar contra a pobreza.

Interrogado por alguns parlamentares, Wolfowitz destacou que o Banco Mundial se concentraria em fornecer infra-estrutura para integrar as economias do continente africano. O tema central da reunião, realizada entre sexta-feira e domingo, foi "Mais além do Ano do Desenvolvimento: o que vem agora?". Wolfowitz anunciou um projeto para construir uma central de energia na África austral que beneficiará a República Democrática do Congo, Malawi, África do Sul e Zimbábue. O Banco também financiará a construção de uma rodovia que unirá a costa África no Índico com a do Atlântico.

Outro plano patrocinado pela instituição junto com um consórcio de empresas de petroleiras – criticado por grupos ambientalistas – é a criação de um gasoduto que transportará gás natural da Nigéria para Benin, Gana e Togo. Wolfowitz explicou que estes projetos de infra-estrutura não significam que o organismo abandonará outros programas para melhorar a saúde e a educação no continente africano. "O Banco Mundial não se comportará como no futebol, onde todos os jogadores perseguem a bola em qualquer parte do campo", afirmou.

Wolfowitz exortou os países industrializados a cumprirem sua promessa de aumentar a ajuda e aliviar a dívida das nações mais pobres. Também os exortou a melhorar a coordenação em seus programas de assistência. "Mas o mais importante é que devem fazer com que a Rodada de Doha tem um final positivo. Estas negociações têm a chave para melhorar a situação de 1,2 bilhão de pessoas em todo o mundo que vivem com menos de um dólar diário", destacou. Esta rodada de negociações, lançada na conferência da Organização Mundial do Comércio de 2001 na capital do Qatar, busca liberalizar o intercâmbio de bens e serviços, bem como beneficiar os países pobres.

"Seria incômodo para quase todos os governos (do Norte) dar um passo adiante e renunciar aos seus subsídios e a outras barreiras ao livre comércio, mas essa situação temporária não é nada comparada com um incômodo diário e as privações que sofrem os países mais pobres do mundo", disse Wolfowitz. O encontro com os parlamentares deu ao presidente do Banco Mundial, ex-subsecretário da Defesa dos Estados Unidos e considerado o arquiteto da invasão do Iraque, a oportunidade de eliminar os temores de muitos por sua falta de experiência em assuntos de desenvolvimento. "Temia-se que ele converteria o Banco em um instrumento da política externa norte-americana, mas é evidente que continuará com as boas obras de seu antecessor, James Wolfensohn", afirmou o legislador ugandense Norbert Mao.

Durante sua visita a Helsinque em 2001, Wolfensohn recebeu uma torta de creme no rosto jogada por um manifestante. Isso não aconteceu com Wolfowitz no final de semana, graças, em parte, às fortes medidas de segurança. Mas quando o presidente do Banco Mundial se dirigia aos legisladores, manifestantes procedentes de diferentes partes da Finlândia desafiavam a chuva e protestavam na porta da sede do parlamento local. "Procurado: Paul Wolfowitz por assassinatos em massa", dizia um cartaz dos manifestantes, em alusão à guerra do Iraque. Alguns parlamentares receberam o discurso de Wolfowitz com cautela. "Se agirá de acordo com o que disse, então há esperanças de que faça um bom trabalho", disse o legislador sueco Kaj Nordquist.

Por sua vez, Mao disse à IPS que Wolfowitz mostrou maturidade ao reconhecer o fracasso das políticas passadas do Banco Mundial para a África. "Este foi um ano de muitas promessas, mas todas poderão ser ignoradas, a menos que os parlamentares pressionem mais seus governos", afirmou o presidente da Rede, o legislador holandês Bert Koenders. "Os parlamentares são o elo perdido no debate sobre o desenvolvimento", disse à IPS. O Grupo dos Oito países mais poderosos decidiu em sua reunião de julho, na localidade escocesa de Gleneagles, cancelar a dívida dos 18 países mais pobres, 14 deles africanos, com o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. Mas agora o G-8 está dando marcha-à-ré em suas promessas de Gleneagles e começou "um jogo de ping pong" com o Sul em desenvolvimento, disse Mao. (IPS/Envolverde)

Linus Atarah

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