Iraque: Novo plano de retirada americana em dois anos

Washington, 05/10/2005 – Em uma aparente tentativa de unificar a posição do Partido Democrata dos Estados Unidos sobre o Iraque, um centro de estudos propôs uma "reorganização estratégica" das forças enviadas para este país que garantisse uma retirada total até janeiro de 2008. O plano, elaborado pelo Centro para o Progresso Norte-Americano (CAP), sugere uma retirada progressiva em um período de dois anos, que começaria em janeiro próximo, das tropas de todas as zonas urbanas, deixando a vigilância nas mãos da polícia iraquiana.

Desta maneira, até o final de 2006, 116 mil dos cerca de 150 mil soldados norte-americanos no Iraque teriam regressado ao seu país. Os outros 34 mil seriam reorganizados paulatinamente em diferentes frentes da "guerra contra o terrorismo": 14 mil seriam enviados para formar uma força especial com base no Kuwait, 18 mil iriam para o Afeganistão deter o ressurgimento do movimento radical islâmico Talibã, mil seguiriam para o Chifre da África e outros mil para o sudeste da Ásia.

O trabalho do CAP, intitulado "Reorganização estratégica: um plano de progresso para o Iraque e a luta contra os extremismos violentos", também propõe a participação dos países vizinhos do Iraque, como Irã e Síria, em iniciativas para garantir a estabilidade da região. "A reorganização estratégica rejeita os chamados a uma retirada imediata e completa, que para nós serviria apenas para desestabilizar a região e fortalecer os terroristas", afirmaram seus autores. "Mas, a reorganização estratégica também rejeita o atual enfoque (do governo), um vago compromisso que coloca nossas forças em uma guerra que não se pode vencer militarmente", acrescentaram.

O trabalho, resultado de uma série de consultas que começaram no final de julho, foi apresentado em um momento em que aumenta a pressão contra o governo do presidente George W. Bush para que reconsidere sua determinação de permanecer no Iraque. No dia 24 de setembro, Washington foi palco da maior manifestação pacifista desde a primeira guerra do Golfo em 1991, com mais de cem mil pessoas. Ao mesmo tempo, os altos custos associados á reconstrução da cidade de Nova Orleans, devastada pelos furacões Katrina e Rita, agravou a preocupação no Congresso norte-americano, tanto entre democratas quanto no governante Partido Republicano, a respeito dos US$ mensais que custa manter as tropas no Iraque.

As últimas pesquisas nos Estados Unidos mostram um crescente descontentamento popular pela ocupação do Iraque. Quase dois terços dos consultados estão a favor de uma retirada, embora discordem quanto a ela ser imediata ou gradual. Entretanto, o governo Bush até agora rejeita toda idéia de retirada e procura dissuadir os militares que a sugerem. "Agora não é tempo de duvidar nem de ceder", afirmou a secretária de Estado, Condoleezza Rice, em um discurso pronunciado sexta-feira a estudantes da Universidade de Princeton. Com poucas exceções, os líderes democratas, especialmente aqueles com pretensões presidenciais, como o senador Joseph Biden, integrante do Comitê de Relações Exteriores, e a senadora Hillary Clinton, rejeitam a retirada imediata.

Isto causou uma divisão entre os democratas, em particular entre os principais líderes e os que fazem o trabalho de base. O partido, incapaz de apresentar uma postura única sobre o Iraque, permanece em silêncio e espera que a opinião pública acabe culpando os republicanos pelos efeitos da guerra. É neste contexto que o CAP apresenta seu plano. Cabe destacar que o diretor do instituto, John Podestá, foi chefe de pessoal da Casa Branca no governo de Bill Clinton (1993-2001) e que vários de seus assessores também ocuparam postos importantes nessa administração.

"Muitos democratas temem tomar uma posição que possa ser vista como uma crítica aos esforços dos militares em meio a uma guerra, enquanto outros acreditam que os Estados Unidos necessitam começar a retirada", indicou Jim Cason, analista do não-governamental Comitê de Amigos da Legislação Nacional. O plano, que critica os "múltiplos fracassos" de Bush no Iraque, diz que a situação atual é "insustentável", mas descarta "uma retirada apressada" e ignora "o debate simplista centrado em uma opção falsa" como a retirada imediata.

Também critica "muitos democratas" que, "depois das cicatrizes do Vietnã, dos helicópteros derrubados no Irã e dos soldados arrastados pelas ruas de Mogadíscio, são susceptíveis a qualquer desordem da segurança nacional" e se limitam a criticar Bush. Por outro lado, o trabalho afirma que a presença norte-americana no Iraque "motiva os inimigos terroristas. Não estabelecer uma data para a retirada é uma receita para o fracasso e representa uma mensagem equivocada sendo enviada aos líderes iraquianos", adverte o plano. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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