MÉXICO, 31/10/2005 – Cientistas consultados pelo Terramérica dão seu veredito sobre o Wilma e outros furacões no Atlântico Norte: não são atribuíveis ao aquecimento global.
A intensa temporada de furacões deste ano no Atlântico Norte, com as furiosas e excepcionais tempestades Katrina, Rita e Wilma, não pode ser atribuída diretamente ao aquecimento global, segundo cientistas consultados pelo Terramérica. O furacão Wilma, que devastou a Península de Yucatán e atingiu Cuba e a Flórida, foi a tempestade mais forte nos registros históricos da bacia do Atlântico, com uma pressão barométrica recorde de 882 milibares e ventos de até 270 quilômetros por hora. O Wilma destruiu centenas de hotéis e comunidades no balneário mexicano de Cancún, alagou avenidas centrais de Havana e deixou milhões sem luz em Miami. Milhares de pessoas sofrerão durante meses seus devastadores efeitos.
Entretanto, são estas arrepiantes cenas de destruição produto direto do aquecimento global provocado pelo homem, como sugerem alguns observadores e grupos ambientalistas? Não, segundo Judith Curry, uma das cientistas de maior notoriedade nos Estados Unidos nos últimos meses, exatamente por seu esforço em relacionar os furacões com o aquecimento da Terra. "Não podemos atribuir diretamente ao aquecimento global a intensidade de uma tempestade em particular, nem de várias em uma determinada época", disse ao Terramérica a especialista, que dirige a Escola de Ciências da Terra e da Atmosfera, do Instituto Tecnológico da Geórgia, em Atlanta, Estados Unidos.
O aquecimento global é produzido pelos gases que causam o efeito estufa, derivados do uso de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás). A este fenômeno, provocado pelas atividades industriais do homem, são atribuídas variações climáticas, conhecidas como mudança climática. "Este ano, no Atlântico Norte e no Caribe, os furacões foram especialmente intensos porque a temperatura superficial do oceano se apresenta mais alta do que de costume, e com isso os padrões de circulação atmosférica são favorecidos", disse Curry. Os furacões obtêm sua violenta potência do ar quente e úmido na superfície do mar e começam a se formar em águas com pelo menos 26,6 graus centígrados.
A temporada de 2005, que termina no final de novembro, bateu o recorde em número de tempestades tropicais na região, com a Beta, a de número 23. As causas são múltiplas, segundo Curry. "Este ano excepcional pode ser, provavelmente, atribuído a uma combinação de aquecimento global, El Niño e a Oscilação do Atlântico Norte", resumiu. Esta oscilação é um modo natural de variação climática, com periodicidade de décadas. Outro destacado cientista, Kerry Emanuel, do Instituto de Tecnologia de Massachusets (MIT), concorda com Curry.
No Atlântico, que só registra 11% do número mundial de tempestades, a intensidade dos furacões se deve a ciclos naturais. "É difícil ver um sinal de aquecimento global aí", disse Emanuel. "O terrível dano destas tempestades (Katrina, Rita, Wilma) dependia de tocarem a terra, quando e onde, e isso é, na imensa maioria das vezes, questão de sorte", disse o especialista ao Terramérica. Curry e Emanuel atraíram as atenções nos últimos meses por seus estudos, independentes, que provam pela primeira vez e cada um com sua própria metodologia, que a intensidade (quanto ao número) dos furacões nos mares do mundo duplicou desde 1970, por causa do aumento da temperatura da superfície do mar.
Curry publicou seu estudo na revista Science em setembro, em co-autoria com o cientista Peter Webster. Já o trabalho de Emanuel foi publicado em julho na revista Nature. Para ambos, parte do aumento global da temperatura superficial do mar nas últimas décadas se deve ao aquecimento do planeta. "Mas não sabemos em que porcentagem", disse Curry. E ambos se mostram cautelosos na hora de culpar este fenômeno pela fúria de um furacão específico. Emanuel explica que não existe nenhuma base para afirmar que aumentou o número global de furacões. "Há em torno de 90 ciclones tropicais a cada ano no mundo, e este número se mantém firme como uma rocha", assegurou.
Os estudos dos dois cientistas reavivaram o politizado debate sobre clima nos Estados Unidos, que, apesar de ser o maior emissor de gases causadores do efeito estufa, não assinou o Protocolo de Kyoto que os controla e entrou em vigor em fevereiro. Após a passagem do Katrina pelos Estados Unidos, no dia 29 de agosto, causando a destruição de New Orleans, com prejuízos de US$ 30 milhões, e golpeando politicamente a administração de George W. Bush, o estridente debate sobre o clima voltou a dividir a comunidade científica.
Vários especialistas rejeitam, inclusive, a tese do aumento da intensidade dos furacões nos últimos 35 anos. Reprovam Emanuel e Curry por se referirem a dados obtidos via satélite a partir de 1970, quando a bacia do Atlântico conta com registros tomados por aviões desde, pelo menos, 1945. Esses dados comprovam que o Atlântico teve períodos de ciclones tão ativos quanto o atual, asseguram. O período entre os anos 40 e 60 registrou muito atividade de ciclones; o que compreende os anos de 70 a 90 foi bastante calmo e, em 1995, começou o atual ciclo intenso, segundo o Escritório Nacional de Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).
Jorge Sánchez-Sesma, do Instituto Mexicano de Tecnologia da Água, concorda. "A freqüência dos furacões nos anos 50 e 60 foi intensa e agora estamos voltando a essas condições. O aquecimento global tem uma contribuição antropogênica (não gerada pelo homem) significativa, que não havia sido considerada", afirmou. Além disso, "a população e suas cidades aumentaram notavelmente nas zonas costeiras do sudeste dos Estados Unidos e nas costas de Quintana Roo, no México, o que nos expõe mais do que no passado", acrescentou.
Para Patrick Michaels, professor da Universidade de Virgínia, Estados Unidos, e pesquisador do liberal Instituto Cato, com sede em Washington, não existe nenhuma influência do aquecimento global no surgimento do Wilma, como não houve no do Katrina. Michaels é um dos mais fervorosos críticos do que chama de "histeria dos meios de comunicação" sobre o aquecimento global, das intenções políticas por trás de sua investigação e dos milionários fundos dos contribuintes que esta absorve nos Estados Unidos. "O orçamento para estudar a mudança climática é quase o mesmo do Instituto Nacional do Câncer. Quando isso ocorre, você sabe, as pessoas vão afirmar que seu tema é excessivamente importante", disse ao Terramérica. "Se os furacões tivessem duplicado sua força, as companhias de seguros estariam feitas em pedaços. E não é o que acontece", argumentou.
* A autora é diretora editorial do Terramérica. Com a colaboração de Diego Cevallos (México).
Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

