Cairo, 28/10/2005 – O Egito realiza intensos esforços para aliviar a pressão internacional sobre a Síria, especialmente a norte-americana, depois do relatório preliminar da Organização das Nações Unidas que implica Damasco no assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafiq Hariri. O informe da equipe investigadora da ONU, divulgado no último dia 20, garante ter "evidência que leva a uma implicação libanesa e Síria" no assassinato. Hariri, um político multimilionário, morreu junto com mais 22 pessoas em um atentado com explosivos em Beirute, em fevereiro. Os fatos derivados desse crime culminaram com a retirada das tropas e dos agentes de inteligência sírios que permaneciam no Líbano desde o começo da guerra civil nesse país (1975-1980).
O relatório final dos investigadores será apresentado à ONU no dia 15 de dezembro, e é possível que seu Conselho de Segurança adote sanções contra Damasco a instâncias dos Estados Unidos. O governo do Egito teme que eventuais sanções contra a Síria afetem o regime do presidente Bashar Al Assad e acrescentem outra crise à conflitiva região do Oriente Médio. "Já temos problemas suficientes no Iraque, onde a guerra civil parece estar de volta a cada esquina, e com os territórios palestinos, onde a situação está fora de controle", disse uma fonte do governo egípcio à imprensa estatal. "O papel do Egito é colaborar para facilitar o diálogo" entre Estados Unidos e Síria, disse o chanceler egípcio, Ahmed Abdul Geit, em entrevista ao canal de televisão árabe Al Jazeera, no último dia 23.
O Iraque poderia acabar sendo um fator-chave para resolver a situação, segundo analistas. "Por exemplo, Damasco poderia ajudar a controlar a violência nesse país em troca de Washington moderar sua atitude", disse à IPS o subdiretor do estatal Centro Al Ahram para Estudos Políticos e Estratégicos do Egito, Mohammed Sayyed Said. Estados Unidos, França e Grã-Bretanha apresentaram esta semana uma proposta de resolução ao Conselho de Segurança com uma série de demandas ao governo sírio, entre elas que detenha todas as pessoas apontadas como suspeitas pelo relatório e as coloque à disposição plena da comissão investigadora.
Também exige que todos Estados-membros congelem as contas bancárias e proíba a entrada de suspeitos e ainda exorta Damasco a permitir o interrogatório de outras pessoas, incluindo o próprio presidente Assad. Os promotores da resolução esperam que seja votada no Conselho no próximo dia 31. O presidente egípcio, Hosni Mubarak, se reuniu no mês passado no Cairo com seu colega sírio, diante do aumento da pressão norte-americana. Assad teria garantido a Mubarak que consideraria assumir determinados compromissos para aliviar a tensão. Em troca de usar sua modesta influência em Washington, o Egito fez várias exigências à Síria.
O Cairo pediu ao governo sírio que se desvinculasse de qualquer ato de violência no Líbano, adotasse severas medidas de vigilância na fronteira com o Iraque para impedir o trânsito de rebeldes, interviesse para conseguir uma conciliação entre a Autoridade Nacional Palestina e os grupos armados de resistência e ainda deixasse de fazer declarações provocativas. O governo de Mubarak parece disposto a adotar uma posição de claro apoio à Síria perante a comunidade internacional. "O Egito se nega a ver a Síria ainda mais isolada e acredita que a região precisa de estabilidade, e não de outro ponto de tensão", disse o porta-voz do governo egípcio, Suleiman Awad.
Nas últimas semanas, Mubarak se reuniu com vários líderes árabes em uma tentativa de consolidar uma postura regional única sobre a Síria diante do que for apresentado no relatório final da ONU, em dezembro. O governo egípcio, depois de uma reunião no último dia 10 entre Mubarak, o rei Abdulá, da Jordânia, e o emir de Bahrein, Hamad Bem Issa, havia anunciado que se oporia a um julgamento prematuro sobre a cooperação síria com os investigadores da ONU e com a comunidade internacional. Dias depois, o chanceler Abdul Geit disse à imprensa depois de uma reunião com o presidente da Líbia, Muammar Gaddafi, que o Cairo trabalhava para "impedir que se acrescente tensão na região". Ainda está por ver-se qual será o êxito dos esforços egípcios a favor da Síria.
Diante das últimas e duras declarações do presidente norte-americano, George W. Bush, e de sua secretária de Estado, Condoleezza Rice, parece que Washington desdenha a intervenção egípcia, mas o Cairo "está determinado a avançar em seus esforços", disse Said. A postura do Egito foi explicada em detalhes em um editorial do semanário Al Ahram do jornalista Ibrahim Nafie, reconhecido por suas profundas análises das políticas de governo. "A Síria está em uma situação muito comprometida, e necessita avaliar bem detalhadamente suas políticas e ações. Os países árabes têm pouco para oferecer neste momento, e estariam e melhor situação para ajudar se Damasco fizesse mais para desativar a crise", escreveu Nafie.
Entretanto, muitos na Síria não concordam com a idéia de cooperar com Washington. O relatório das Nações Unidas "confirma as intenções dos Estados Unidos de solapar o regime sírio, golpear a resistência iraquiana e enfraquecer o movimento islâmico Hezbolá, para assim cumprir seu plano de dominar o Oriente Médio", disse o semanário independente sírio Sout Al Umma em seu editorial. (IPS/Envolverde)

