Pequim, 08/12/2005 – O município de Harbin, capital da província chinesa de Heilongjiang, aprendeu a duras penas que a segurança da água não é uma questão que se arranja por si só. Um vazamento de produtos químicos determinou a suspensão do fechamento de água nesta cidade de 2,8 milhões de habitantes entre os dias 24 e 30 de novembro. As autoridades também tiveram de enfrentar o desafio da transparência administrativa. O desastre já causou a renúncia de um funcionário de nível ministerial em Pequim, o diretor da Administração de Proteção Ambiental do Estado, Xie Zhenhua, no último dia 2.
A crise teve origem na explosão de uma fábrica de produtos químicos da Companhia Petroquímica Jilin – subsidiária da Corporação Nacional de Petróleo da China – no dia 13 de novembro, na cidade industrial de Jilin, 260 quilômetros a sudeste de Harbin. Cerca de cem toneladas de substâncias tóxicas, entre elas benzeno, vazaram para o rio Songhua, principal fonte de água corrente de Harbin que depois segue seu curso de 1.850 quilômetros em direção à Rússia. O local onde ocorreu a explosão fica um poucas centenas de metros do rio. O vazamento deixou uma mancha de 80 metros de comprimento no rio. Ativistas e especialistas pedem que o governo aprenda urgentemente as lições da catástrofe e no futuro maneja as crises ambientais de maneira mais transparente.
Embora as duas cidades compartilhem as águas do mesmo rio, o governo provincial de Heilongjiang não foi informado pela municipalidade de Jilin sobre o acidente até cinco dias depois de ocorrido, lembrou Hu Shuli, diretora do boletim econômico Caijing no dia 28 de novembro. "Outros escritórios do governo responsáveis, como os ministérios de Água e Infra-estrutura, não se envolveram até o dia 22 do mês passado", acrescentou. O governo da Rússia, país com o qual Heilongjiang compartilha uma fronteira de 3.002 quilômetros, tampouco soube de nada até essa data, segundo um informe de Hu para Caijing intitulado "Os assuntos ambientais não são assuntos de importância total". Foi um acidente em que deixou seriamente contaminado um rio importante não só para duas províncias chinesas como também para o distante oriente da Rússia. Mesmo assim, inicialmente foi considerado um problema local, lembrou a jornalista.
"Para diluir as substâncias venenosas no rio é necessário descarregar água de reservatórios no curso alto, o que requer coordenação com as autoridades do vale de Songhua-Liaohe, através do Ministério da Água", disse Hu. "Quando o sistema urbano de fornecimento está sob ameaça, é necessário que o Ministério de Infra-estrutura garanta a segurança e o manejo de águas", afirmou. "Mas nove dias depois da explosão, os dois departamentos do governo central encarregados destes assuntos não estavam informados sobre a contaminação e se mantiveram à margem, o que também foi uma lástima", acrescentou a jornalista. Embora a própria cidade fosse vítima da contaminação rio acima, o governo municipal de Harbin não informou sua população sobre o que sabia. No dia 21 de novembro notificou que suspenderia o fornecimento de água por quatro dias por causa de "obras na rede".
"Uma desculpa que ia de tal modo contra o senso comum que criou desconfiança e pânico entre a população", ressaltou Hu. "A calma só voltou quando o governo municipal disse a verdade, nesse mesmo dia". O governo deve aprender, à luz dos acontecimentos, que deve "ter coragem para enfrentar a crise com um manejo transparente e aberto", pois o pior que pode fazer é "tratar um grande acidente como se fosse algo pequeno. Uma questão de importância global, como a síndrome respiratória aguda grave ou a gripe do frango não podem ser disfarçadas de coisa menor", acrescentou a jornalista. Como demonstrou a explosão e a contaminação resultante, a fábrica em Jilin não contava com um esquema eficiente para emergências, afirmou um cidadão que se identificou como Shuijianzai no site http://www.xyz/org. "Os bombeiros usaram água para apagar o fogo, mas as autoridades locais não sabiam o que fazer com ela depois, já que as toxinas vazaram para o rio sem nenhum tratamento", afirmou.
Outra lição é que uma cidade deve ter mais de uma fonte de água, afirmou Liu Zhiqi, secretário-geral da Associação de Fornecimento de Água do Ministério da Infra-estrutura. Se Harbin contasse com uma fonte alternativa, a população não teria sentido sede durante tanto tempo, acrescentou. Durante o pânico inicial, os moradores da cidade compraram 16 mil toneladas de água mineral e purificada, equivalente ao consumo de cem dias, segundo o governo de Harbin. A cidade perfurou 55 poços para extrair 40 mil toneladas diárias de água. Mas a maioria das grandes cidades chinesas não tem fontes alternativas, disse Liu. "Em uma crise como esta, o fornecimento se torna frágil e pode deixar a cidade em uma situação crítica", acrescentou. (IPS/Envolverde)
(*) Esta matéria foi escrita para Asia Water Wire.

