Iraque: Esquadrões da morte estimulados por EUA e Irã

Bagdá, 09/12/2005 – Grupos de mascarados que agem em coordenação com a nova política do Iraque são o novo terror da população, junto com as forças norte-americanas de ocupação e os atentados suicidas. Estes esquadrões da morte estão muito mais ativos às vésperas das eleições do próximo dia 15, como demonstra a descoberta de 20 corpos em duas localidades distintas do oeste do país. Os corpos de 11 homens vestidos de civil foram deixados, amarrados com as mãos para trás, à margem da rodovia entre Bagdá e Jordânia, perto da cidade iraquiana de Al-Rutbah, informou a polícia na terça-feira. No dia anterior, outros nove cadáveres, também de civis, foram encontrados crivados de balas. Desta vez em uma estrada perto do enclave sunita de Faluja, a apenas 69 quilômetros de Bagdá.

Existem indícios de que os esquadrões da morte responsáveis por desaparecimentos e assassinatos contam com o apoio de milícias xiitas. Estas organizações armadas, apoiadas pelo Irã, hoje controlam o governo e a polícia do Iraque graças, paradoxalmente, à intervenção dos Estados Unidos, inimigo declarado do regime islâmico no governo em Teerã desde 1979. Abdullah Omar, um engenheiro de 39 anos a quem o desemprego levou a vender combustível e cigarros no mercado negro, garante ser sobrevivente dos esquadrões da morte. "Uma noite estava dormindo no teto da minha casa porque fazia muito calor e não tínhamos eletricidade, como já é de costume", contou Omar à IPS. "De repente, acordei com uma explosão próxima. Em seguida, me vi cercado por homens estranhos com óculos infravermelhos, que permitem ver no escuro".

Segundo Omar, eles o jogaram no chão, algemaram e o vendaram. "Começaram a me bater com as culatras. Depois, revistaram toda minha casa, pegaram o revólver que eu disse que tinha e me levaram com eles". Também amarraram e levaram sua mulher, Sumia, uma professora de 32 anos. Omar conta que antes que cobrissem sua cabeça com um saco viu cerca de 10 pequenos furgões de carroceria aberta com uma centena de homens usando máscaras negras. Ele foi colocado em uma carroceria e apanhou até desmaiar. Sumia também apanhou e disse à IPS que havia "recebido muitos chutes na barriga. Eu ouvia os gritos de dor de Abdullah e por isso lutei até que fui algemada. Depois me bateram até não poder fazer mais nada", acrescentou.

O casal foi levado para a delegacia policial de Suleakh, em Bagdá, onde foram interrogados e acusados de terem um morteiro. "Expliquei que nada sei sobre morteiros e que nunca tive nada a ver com a resistência, mas começaram a me xingar e continuaram me batendo", lembrou Omar. Sua mulher, que também foi interrogada, pedia aos policiais que a deixassem voltar para casa para cuidar dos filhos. "Continuaram perguntando sobre os morteiros e não me deixaram ir. Não sabemos nada de morteiros. Eles nem mesmo me deram um lenço para cobrir a cabeça", disse à IPS.

Na manhã seguinte, Omar foi levado para outra sala onde viu homens algemados e encapuzados jogados no chão. "Estavam jogados direto no chão, sem nenhuma proteção". Depois de algum tempo, ele viu entrarem 14 mascarados com chicotes. "Vi como chicoteavam os prisioneiros dizendo que esse era o café da manhã". Sumia e Abdullah foram finalmente levados para casa, advertidos de que se as forças de segurança fossem atacadas em seu bairro, voltariam a ser procurados. Omar estimou que os que o detiveram pertenciam ao Exército Xiita Badr, uma milícia que responde a Abdel Aziz al-Hakim, o líder do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Irã.

Em Bagdá aumenta a tensão por causa das ameaças de seqüestro e morte que o Exército de Badr faz aos moradores das zonas sob seu controle. "O Exército Badr realiza uma campanha de terror para destruir os demais partidos políticos", disse Saleh Hassir, médico em um hospital da capital iraquiana. "Vemos manchas negras e lágrimas desenhadas nos cartazes do ex-primeiro-ministro Allawi e também nos dos demais grupos sunitas, mas por outro lado os cartazes de Al-Hakim permanecem intocáveis". Também a família de Omar Ahmed aprendeu o que pode acontecer a quem dá de cara com policiais iraquianos e com os grupos parapoliciais que lhes dão assistência.

Omar viajava em seu carro com dois amigos pelo bairro de Adhamiya, na capital, na noite de 1º de setembro quando de um posto de vigilância partiu a ordem de parar. "Os três foram presos logo que saíram do veículo", disse à IPS uma testemunha do ocorrido que pediu para não ser identificada. Eles estiveram desaparecidos por vários dias. Suas famílias os procuraram por todo lado, inclusive em necrotérios, algo comum quando alguém é preso pela polícia iraquiana e não volta para casa.

"Cinco dias depois da prisão encontramos o cadáver de Omar em uma das geladeiras do necrotério com marcas de tiros em um dos lados da cabeça e nos ombros", contou à IPS um amigo de sua família. "Não sabemos se os outros dois estão vivos ou mortos. O que sabemos é que estes homens não tinham culpa de nada e só o que faziam era andar de carro durante a noite. Não temos nenhuma segurança. A polícia está assassinando e desaparecendo com iraquianos diariamente", acrescentou.

O médico Saleh Assir disse que os Estados Unidos contribuíram para que agora vigore um novo tipo de terrorismo de Estado no Iraque, apoiado pelo Irã. "Muitos de nós nos opomos a que o Iraque seja controlado por estes fundamentalistas islâmicos pró-iranianos como Al-Hakim", disse Hassir á IPS. "Agora estamos vendo o verdadeiro rosto da nova ditadura que nos será imposta com a ajuda dos Estados Unidos", afirmou.

(*) Com a colaboração de Isam Rashid.

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

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