Nações Unidas: Cega investida dos EUA

Nações Unidas, 07/12/2005 – Os Estados Unidos parecem decididos a uma colisão frontal com a Organização das Nações Unidas quanto à forma como o fórum mundial conduz seus assuntos. O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, deveria estar agora em viagem pela Ásia, mas a suspendeu quando Washington ameaçou não aprovar o orçamento das Nações Unidas se não forem adotadas reformas administrativas. A advertência, feita na semana passada pelo embaixador norte-americano na ONU, John Bolton, levou Annan a cancelar a viagem de duas semanas pela China, Coréia do Sul, Japão e Vietnã, que começaria segunda-feira, para se resolver o problema com a Casa Branca.

"Não queremos estar em uma posição em que adotemos um orçamento no próximo mês e não consigamos nenhuma reforma durante os dois anos de vida desses fundos", disse Bolton a jornalistas, ao justificar sua idéia de adotar um orçamento provisório que cubra apenas os próximos três meses. Porém, Annan e outros funcionários da ONU rechaçaram a proposta. "Necessitamos de um orçamento para podermos nos planejar e realizar nosso trabalho. Do contrário, não há base nem mesmo para pedir aos Estados-membros que contribuam, e se causaria uma grave crise financeira à organização", disse Annan em resposta ao anúncio de Bolton.

Funcionários da ONU responsáveis pela administração do orçamento estão preocupados com a demora na aprovação das novas partidas. "A Secretaria Geral considera que é um grave problema em termos de fluxo de fundos. A percepção dos países-membros é que isto faz parte de um esquema de negociação" dos Estados Unidos, disse o chefe de contabilidade da ONU, Warren Sach. As Nações Unidas esperavam a aprovação de um orçamento bianual de quase US$ 4 bilhões, dos quais os Estados Unidos entrariam com US$ 360 milhões. A organização advertiu que, se não for aprovado, poderá atrasar o pagamento de salário de seus funcionários.

Diplomatas asseguram que, apesar das dificuldades sobre as reformas, todos os demais membros da ONU, incluindo a Grã-Bretanha, estreito aliado de Washington, estão dispostos a aprovar o plano orçamentário este mês. Embora a Carta da ONU não o exija, aprovar o orçamento bianual por consenso entre os membros tem sido uma prática ininterrupta desde os tempos do presidente norte-americano Ronald Reagan (1981-1989), segundo funcionários das Nações Unidas. Bolton defende agressivamente uma campanha de renovação do aparato administrativo da ONU desde que foi designado pelo presidente George W. Bush em agosto, mas enfrenta grande oposição por parte do Grupo dos 77 e China, bloco de 132 países em desenvolvimento.

O G77 e China vêem nas propostas de Bolton uma tentativa de reduzir os poderes da Assembléia Geral e concentrá-los na Secretaria Geral pela tentativa de Annan de criar um novo escritório sobre ética e império da lei sem a aprovação do Quinto Comitê da Assembléia Geral, que estuda assuntos administrativos e financeiros, nem do Comitê Assessor sobre assuntos orçamentários. 'A Secretaria deveria ser mais cautelosa ao tratar de assuntos tão delicados, já que estes passos podem ser considerados uma intervenção no processo intergovernamental", disse o embaixador da Jamaica e presidente do G77, Stafford Neil, em carta enviada ao presidente da Assembléia Geral, no mês passado.

Neil disse que a decisão de Annan de criar um escritório de ética causou "grande preocupação" e a considerou um "afastamento" ao acordo alcançado na Cúpula Mundial 2005 realizada em setembro, em Nova York, sobre a reforma da ONU. "O procedimento esperado neste caso inclui todos os detalhes, não só os alcances orçamentários. Deve-se enviar a proposta à Assembléia Geral para sua consideração, segundo as regulamentações existentes", afirmou. Ao voltar de sua viagem pela Ásia no mês passado, Annan conversou sobre esse assunto com líderes do G77 que disseram ter tido uma "boa e franca" conversa com o secretário-geral.

Entretanto, observadores assinalaram que a reunião foi caracterizada pela desconfiança e tensões, já que o G77 vê as iniciativas de Annan como uma tentativa de agradar Washington. "Deixei bem claro que não há uma tentativa de tomar o poder", disse Annan aos jornalistas depois da reunião destinada a tranqüilizar o G77. Quando começou a crise pelo orçamento, novamente o secretário-geral teve uma rodada de encontros com representantes do G77 e do Movimento de Países Não Alinhados (Noal), segundo funcionários próximos às negociações. Apesar da forte reação da Secretaria Geral e de outros Estados-membros, não parece haver sinais de flexibilização na posição dos Estados Unidos.

Graças às suas duras posturas em relação à ONU, Bolton recebeu muitas críticas, não só da comunidade diplomática internacional, mas também de alguns meios de imprensa norte-americanos. "Diplomacia com força é uma coisa, mas John Bolton foi pura força e nada de diplomacia como embaixador dos Estados Unidos", afirmou em seu editorial do último dia 2 o jornal The New York Times. Observadores dizem que, no momento, não está claro qual será o final das negociações, mas prevêem que Bolton poderia retroceder diante da forte oposição da Secretaria Geral, da União Européia, do G77 e do Noal. (IPS/Envolverde)

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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