EUA: Depois do Katrina, a indignação

Nova York, 08/12/2005 – Três meses depois que o furacão Katrina devastou a costa norte-americana do golfo do México, o prefeito de Nova Orleans, Ray Nagin, deu poucas respostas às perguntas de centenas de confusas, desesperadas, irritadas e frustradas vítimas. Elas se reuniram na prefeitura para apresentar suas reclamações e foram chamadas por Nagin a retornarem à cidade, a mais importante do Estado de Lousiana. Setenta e cinco por cento dos participantes da reunião eram negros, bem como a imensa maioria das vítimas do furacão. O prefeito lhes prometeu reboque, eletricidade, água corrente e ajuda para encontrar trabalho enquanto estivessem temporariamente em lugares distantes, tentando recompor suas vidas depois do desastre ocorrido dia 29 de agosto.

Porém, contaram ao prefeito e seus colaboradores os problemas que sofriam ao regressar à cidade e que revelavam uma terrível burocracia caracterizada pela desinformação e aparente falta de interesse de seus funcionários. A desaprovação pela atuação em todos os níveis do governo se manifestou com fúria nessa reunião. Muitos contaram como passavam dias tentando contato com agências locais, estaduais e federais de ajuda só para encontrar, freqüentemente, seus telefones fora de serviço. Outros disseram que foram a centros montados pela Agência Federal para o Manejo de Emergências (Fema) e os encontraram fechados.

Uma mulher, que viajara 800 quilômetros desde Atlanta, disse que a Administração de Pequenas Empresas lhe concedeu um empréstimo para reconstruir sua casa, mas ainda não tenha recebeu o dinheiro. No dia seguinte à assinatura do contrato, a Fema a notificou de que perdera o direito de receber vale-alimentação ou gastos com moradia temporária. Outra mulher contou ao prefeito Nagin que cumpriu regularmente o pagamento de sua hipoteca, apesar dos danos causados pelo furacão à sua casa a impedirem de morar nela. Nagin respondeu que os credores locais garantiram que seriam flexíveis com os bons pagadores.

Uma senhora que reclamou o corpo do marido, morto durante a inundação, teve seu pedido negado porque ainda não começaram os testes de DNA no necrotério central, por falta de um contrato com o laboratório encarregado das análises. O dono de uma empresa de cuidados de árvores lamentou que contratados alheios ao Estado de Lousiana se encarregassem do trabalho que ele realizou em Nova Orleans nos últimos 20 anos. E garantiu que nunca foi procurado pela Fema, apesar do compromisso dessa agência em favorecer empresas locais. Vários participantes da reunião foram instados pelas autoridades a procurarem outros abrigos por causa do fechamento daqueles que estavam ocupando, segundo disseram ao prefeito. Muitos tiveram de passar a noite em caminhões, automóveis ou mesmo na rua. Outros se queixaram da falta de escolas, apesar de serem incentivados a voltar à cidade.

Todos esperam a ajuda prometida que ainda não chegou. "A gente vem a estes centros da Fema, fica sentado o dia todo e não consegue resposta, só evasivas. Nos dizem que devemos estar pendentes. O que querem que façamos? Ficar pendentes por toda a vida? Perdi tudo", disse uma mulher cuja casa e comércio foram destruídos pelo furacão. O prefeito Nagin ouviu atentamente o que cada um tinha a dizer. Respondeu a alguns com vagas generalidades e outros repassou à sua equipe, prometendo que agiria rapidamente e de maneira apropriada. Atualmente, Nagin dirige outras reuniões desse tipo em cidades onde residem temporariamente milhares de refugiados de Nova Orleans, e continua pedindo a eles que retornem.

Muitos dos que assistiram essa reunião na cidade devastada viviam no Nono Distrito, a área mais pobre de Nova Orleans, a mais afetada pelo furacão e pela inundação que causou, já que fica abaixo do nível do mar. Por outro lado, o Katrina desapareceu, lenta, mas constantemente, das prioridades dos meios de comunicação. Como o presidente George W. Bush já não visita as áreas atingidas, ao que parece, a imprensa tampouco o faz. "Com toda a cobertura dada a este desastre e tendo danificado tão severamente a credibilidade do governo Bush, é surpreendente que estas pessoas tenham sido esquecidas tão rapidamente pelo nosso governo", disse à IPS o reverendo Tim Simpson, da Aliança Cristã.

Segundo Simpson, o presidente "despreocupadamente desviou" sua atenção para outros assuntos "como a reforma da imigração, como se a costa do golfo do México estivesse estável ou reparada. O que este problema precisa é atenção constante do presidente. Se as pessoas pensassem que ele estivesse fazendo algo para melhorar a vida dos norte-americanos, provavelmente não necessitaria de uma mudança extrema", acrescentou. Também há sinais de que uma proposta de investigação legislativa sobre as resposta do governo ao desastre poderia ficar patinando em pântanos jurisdicionais e lutas internas dos partidos.

Desde o início do desastre, a senadora Mary Landreau, representante do Partido Democrata (oposição) pela Louisiana, pediu urgência ao Congresso para destinar verba à reconstrução da cidade, em um estilo que irritou alguns de seus colegas. Por outro lado, senadores do Estado do Mississippi – que teve regiões também devastadas pelo furacão – agiram com mais "tranqüilidade". Mas alguns funcionários de Lousiana sugerem que a política partidária tem um papel importante no envio de recursos. O Estado tem uma governadora democrata, Kathleen Babineaux Blanco, e Nova Orleans é um baluarte desse partido.

Já o Mississippi é fortemente republicano. Seu governador, Haley Barbour, foi presidente do Comitê Nacional Republicano e tem vínculos próximos com o governo Bush. Documentação divulgada na segunda-feira pela governadora Blanco revela o caos total que existiu entre as autoridades locais, estaduais e federais nos dias anteriores, durante e depois da passagem do furacão. Estes dados sugerem que as autoridades federais estavam tentando desviar a responsabilidade para a governadora, enquanto, de fato, ninguém fazia nada. James McIntyre, porta-voz da Fema, disse na semana passada que a agência trabalhava o mais rápido que podia para ajudar as milhares de pessoas que ficaram sem nada por causa do Katrina. "Quase 1,5 milhão de pessoas se registraram para receber ajuda, e trabalhamos para dar assistência a todos", afirmou.

O administrador de um centro de assistência da Fema no distrito de Lower Garden, em Nova Orleans, disse que a angústia de muitos usuários de seus serviços é palpável. "Na medida em que as pessoas entram, se desesperam", disse o funcionário. "Estão regressando, pensando que podem viver em suas antigas casas. E, então, de repente, não existe nada". Os furacões Katrina e Rita deixaram mais de 281 mil moradores de Lousiana (14% dos trabalhadores desse Estado) sem emprego. Nas primeiras sete semanas posteriores ao Katrina, os moradores de Lousiana apresentaram 281.745 demandas relacionadas com o furacão para conseguir subsídio por estarem desempregados, superando os 193 mil pedidos apresentados em todo o ano de 2004, segundo o Departamento de Trabalho do Estado. A quantidade é 13 vezes maior do que a normal para um período de sete semanas. (IPS/Envolverde)

William Fisher

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