OMC: Hong Kong entre o tapete vermelho e o assédio policial

Hong Kong, 14/12/2005 – Depois de meses de boatos dizendo que os críticos da Organização Mundial do Comércio iriam causar estragos durante sua conferência ministerial em Hong Kong, os ativistas se dizem vítimas de uma campanha de hostilidade lançada pelas autoridades. No protesto organizado nesta terça-feira contra a Sexta Conferência Ministerial da OMC, da qual participaram milhares de pessoas, a polícia jogou gás pimenta contra manifestantes. Mas já no aeroporto surgiam os primeiros obstáculos para quem queria chegar a Hong Kong para fazer ouvir suas reclamações e seus protestos contra a agenda da OMC, que se reúne até o próximo domingo discutindo o espinhoso assunto da liberalização comercial, sobretudo na agricultura.

Para os delegados ministeriais e altos funcionários, foi estendido um tapete vermelho. Os demais visitantes devem suportar trâmites intermináveis, tratamento desrespeitoso e abusivos e longos interrogatórios. Entre os que foram separados para interrogatório estavam o agricultor e ativista francês José Bové, três agricultores tailandeses e quatro destacados dirigentes da sociedade civil filipina. Entre estes últimos se encontravam os líderes do movimento de esquerda das Filipinas, de sua principal organização feminina e um importante dirigente sindical.

"Começaram a mexer nas malas", disse Elisa Dita Lupi, do partido de mulheres Gabriella, das Filipinas. "Depois me isolaram e fizeram uma lista dos materiais contra a OMC que eu levava, com panfletos, decalques, e até me deram a impressão de que o material seria confiscado, embora depois tenham me tranqüilizado e deixado guardar minhas coisas", contou. Norma Binas, dirigente do Centro do Movimento de Trabalhadores 1º de Maio, também das Filipinas, disse que ao passar pelo posto de controle de passaporte foi escolhida para ser interrogada.

Depois, Binas foi escoltada por 10 agentes policiais armados com metralhadoras para uma sala especial onde "me deixaram sozinha". Segundo Binas, quando os interrogadores chegaram começaram a lhe perguntar pelas atividades políticas de sua organização. "Respondei que vim a Hong Kong para participar do seminário de trabalhadores. Então, a polícia me perguntou se tinha um convite, e respondi que estava na Internet. Estão todos convidados, podem ver vocês mesmos". Binas disse que foi interrogada por seis horas. "Tinham um questionário de duas páginas, e me perguntaram se estávamos envolvidos em atividades contra a globalização em nosso país. Expliquei a eles a situação dos trabalhadores das Filipinas, e disse que protestar é o mínimo que se pode fazer para não perder sua fonte de renda", contou.

Finalmente, todos os ativistas retidos no aeroporto foram liberados, embora a agência de notícias Associated Press tenha informado que autoridades francesas tiveram de intervir para conseguir a liberdade de Bové e sua saída do terminal aéreo. Mas as hostilidades no aeroporto foram apenas o começo. Uma vez que os ativistas chegaram à cidade se depararam com uma bateria de medidas de segurança. Uma força policial de nove mil homens foi enviada para o lugar onde acontece a conferência. Os policiais patrulham a pé a região durante as 24 horas do dia.

Nos últimos dias, a polícia instalou uma cerca de arame ao longo de todas as passagens de pedestres, as bocas-de-lobo foram soldadas e instalaram inúmeras barricadas por todos os lados, que precisaram de caminhões para serem transportadas. Também foi erguido um cordão de vários quilômetros de comprimento com barreiras de três metros de altura, cheias de água, para controlar manifestantes no perímetro da zona de exclusão em torno do centro de convenções de Hong Kong. Também houve incursões e blitze da polícia nos lugares onde os ativistas estão acampados.

A Associação de Trabalhadores Imigrantes da Indonésia, que ajudou a organizar uma manifestação pacífica de milhares de trabalhadoras domésticas contra a OMC no último dia 11, é visitada várias vezes por dia pela polícia. "Dizem que procuram imigrantes ilegais, algo com que nunca se preocuparam antes", disse uma das organizadoras que preferiu não dar seu nome com medo de ser deportada. "Todos estão muito preocupados. Estão com medo. Não estamos fazendo nada de errado, então, por que a polícia faz estas coisas?", perguntou. Diante da porta de seu escritório a polícia estacionou um caminhonete com cinco agentes, que ficam ali quase permanentemente, acrescentou. "Não é razoável. Dizem que estão ali só por segurança. Mas tudo aqui é pacífico, não sei para que vêm tantas vezes ao dia. Não tem motivo algum", acrescentou.

A polícia teme que durante a conferência ocorra o mesmo tipo de violência que caracterizou as edições anteriores, especialmente a de Seattle (1999, EUA) e procurar não correr nenhum risco de que isso se repita. A polícia de Hong Kong aumentou as medidas de segurança em todo o território. Em comentários feitos durante o final de semana, o diretor-executivo do território de Hong Kong, Donald Tsang Yam-kuen, minimizou as acusações de hostilidade e maus-tratos policiais. "Esta é a primeira vez que em uma conferência da OMC se permite que as ONGs entrem no centro de convenções e fiquem lado a lado com os delegados" que participam das negociações, disse ao jornal South China Morning Post.

Porém, as organizações às quais Yam-kuen se referiam eram na realidade um número relativamente pequeno de prestigiosos institutos de especialistas (ou "think tanks"), aos quais foi permitido entrar no centro de convenções. "Isto demonstra a atitude dos anfitriões bem como da própria OMC a respeito do intercâmbio de pontos de vista", acrescentou o diretor-executivo. As rígidas medidas de segurança não escaparam do olho vivaz da Anistia Internacional. Em uma carta aberta a Lee Siu-Kwong, o chefe da segurança de Hong Kong, a presidente do escritório da Anistia em Hong Kong, Si-si Liu Pui-san, expressou sua preocupação pelo tratamento dado pela polícia aos manifestantes. Não tratam os ativistas com "sensibilidade e de acordo com os padrões internacionais em matéria de direitos humanos no tocante à liberdade de associação, reunião e expressão", afirmou a Anistia. (IPS/Envolverde)

Aaron Glantz

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