Bruxelas, 08/12/2005 – Organizações da sociedade civil vão pressionar a União Européia para que negocie acordos que contemplem o desenvolvimento sustentável, o comércio justo e a proteção do meio ambiente, na conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio de Hong Kong. Esta reunião será, "no melhor dos casos, um tiro n`água" que não servirá de nada às milhares de milhões de pessoas que vivem na pobreza, afirmaram quatro organizações não governamentais que se somarão à delegação da UE. No pior dos casos, o resultado da conferência poderia destruir o sustento de milhões de pessoas, acrescentaram.
As quatro organizações são a ambientalista Greenpeace; a humanitária Solidar; a aliança Cooperação Internacional para o Desenvolvimento e a Solidariedade (CIDSE), integrada por 15 grupos católicos da Europa e América do Norte que trabalham pelo desenvolvimento; e Mulheres no Desenvolvimento da Europa (WIDE). Os ministros de comércio dos 148 países-membros da OMC estão reunidos em Hong Kong para tentar destravar a Rodada de Doha de negociações multilaterais, lançada na capital do Qatar em 2001 e destinada a liberalizar o comércio mundial. Os subsídios que os países do Norte industrializado concedem à sua produção agrícola, afetando a competitividade das nações do Sul, foi o principal motivo do fracasso da conferência anterior, no balneário mexicano de Cancún, e continua sendo o principal obstáculo das conversações.
Os países ricos exigem das nações em desenvolvimento que abram seus mercados aos bens e serviços em troca de qualquer concessão na agricultura. Os grupos da sociedade civil alertaram em um comunicado que a União Européia não está disposta a fazer concessões suficientes para que as nações pobres consigam um acordo justo. Por outro lado, UE, Estados Unidos e outros países ricos parecem dispostos a fazer acordos em Hong Kong sem calcular os efeitos que podem ter nas comunidades do Sul. "Mais comércio pode criar empregos, mas ninguém sabe quanto se perderá e quem perderá, nem quantas formas de sustento serão arruinadas", disse a jornalistas o secretário-geral da Solidar, Giampiero Alhadeff.
Por sua vez, Guillaume Legaut, da CIDSE, disse que a UE deve mudar seu enfoque das negociações que se deseja um acordo que promova o desenvolvimento. "Os assuntos em jogo não devem ser interesses comerciais ofensivos e defensivos, ou liberalização versus proteção do mercado", afirmou. "O desafio das pessoas pobres tem a ver com vulnerabilidade econômica versus sustentabilidade. É sobre segurança alimentar, trabalho, decente para homens e mulheres, e sustento das comunidades", acrescentou. A diretora-executiva da WIDE, Meagen Baldwin, anunciou que lembrará à Comissão Européia (órgão executivo da UE) que, embora muitas mulheres tenham se beneficiado da liberalização comercial, muitas outras perderam suas fontes de renda ou foram obrigadas a trabalhar em más condições, sendo vítimas de abusos e violência.
Por outro lado, o Greenpeace se dedicará em Hong Kong a alertar sobre os impactos ambientais dos acordos. "O desenvolvimento sustentável deve ser o objetivo primordial do sistema de comércio global. As atuais negociações têm que deixar de ignorar o meio ambiente e usar o desenvolvimento com fins retóricos. Como ator-chave dentro da OMC, a UE tem a responsabilidade de assumir a liderança para garantir um resultado sustentável para todos", disse Juergen Knirsch, do Greenpeace. Apesar de sua determinação, as organizações não-governamentais demonstram certa preocupação pelas limitações que sua influência terá dentro da delegação européia em Hong Kong. "Queremos que a Comissão Européia nos leve mais a sério para que possamos conseguir um diálogo maior", disse Baldwin. (IPS/Envolverde)

