Cuba: A economia já não passa pelo engenho

Havana, 11/01/2006 – O outrora repetido lema "Açúcar para crescer" já não se ouve nem se lê em nenhuma parte de Cuba, cujo governo impulsiona este ano uma safra curta para alimentar pouco mais da metade dos engenhos que sobreviveram à reestruturação em marcha desde 2002. A colheita envolverá nada mais do que 42 fábricas açucareiras e estima-se que somente durará três meses, em contraste com as décadas passadas nas quais as safras se prolongavam até maio ou junho e a marcha da economia estava subordinada a este setor. "Era um erro, sempre se soube que a boa moagem, a que mais rende, é a realizada entre janeiro e fevereiro", disse à IPS um veterano trabalhador do setor do açúcar que ainda não assimila o fim da que em tempos não tão distantes foi a principal indústria do país.

Por sua vez, Juan Varela Pérez, especialista em temas do setor do jornal oficial Granma, considerou muito "oportuna" a decisão de iniciar a safra no dia 1º deste mês. "Isto permite cortar e moer a cana em seu período de ótima maturidade", explicou. A colheita começou no final da primeira semana do ano em quatro engenhos, aos quais, até o próximo dia 15, se somarão outros 25. Os restantes, até completar um total de 42, iniciam seus trabalhos na primeira quinzena de fevereiro. Segundo Pérez, se dispõe de 3,8 toneladas a mais de cana por hectare para colher, em comparação com a safra anterior.

No ano passado, Cuba produziu 1,3 milhão de toneladas de açúcar, e as autoridades previam para este ano uma quantidade semelhante, embora contando com preços mais favoráveis o mercado internacional e maior economia de recursos. O país consome cerca de 700 mil toneladas anuais e exporta o restante. Economistas lamentam o fato de que a queda da produção ocorra justamente quando os preços internacionais passam por um dos seus melhores momentos. Uma alta das cotações, que começou em fevereiro de 2004, aumentou de 6,4 centavos de dólar a libra de açúcar não refinado para mais de 11 centavos de dólar em 2005, enquanto o açúcar refinado ultrapassou os 14 centavos de dólar.

O açúcar deixou de ser o primeiro recurso gerador de divisas para o país, como foi durante muitos anos, agora deslocado por setores como do níquel e do turismo e, inclusive, em alguns períodos, pelas remessas de dinheiro enviadas pelos cubanos no exterior aos seus familiares na ilha. As autoridades informaram que o aumento das exportações em 2005 chegou a 27,8% em relação ao ano anterior, dos quais 70% corresponderam ao setor de serviços, especialmente os prestados à Venezuela no campo da saúde, entre outros. Entre as causas do aumento de preços, que segundo os primeiros movimentos do mercado continuará neste ano, menciona-se o uso cada vez maior da cana-de-açúcar para produzir etanol (álcool etílico), um biocombustível que atrai maior interesse a partir do aumento sem precedentes dos preços do petróleo, que nos últimos dias passou a barreira dos US$ 60,00.

Também contribuíram para a alta dos preços, entre outros fatores, a forte seca que afetou a produção da Tailândia, um dos maiores exportadores mundiais, os planos de reforma da União Européia de sua política agrária, que inclui a redução da área açucareira, e o aumento da demanda acima da oferta disponível no mercado internacional. Estimativas da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) situam o consumo mundial de 2005 em 144,8 milhões de toneladas, contra uma produção nesse ano de 144 milhões de toneladas. Entre os países que aumentaram sua demanda estão Rússia, Índia, Paquistão e Irã.

"A pergunta fundamental é se os melhores preços respondem a uma situação conjuntural que se manifestará apenas por um curto prazo ou marcará o início de uma tendência mais prolongada", afirmou à IPS o economista cubano Armando Nova. Em todo caso, o aumento provocou uma variação do critério das autoridades cubanas de que produzir açúcar já não é mais rentável para o país, cuja economia seguiu durante anos ao ritmo do som das sirenes que caracterizam nos engenhos o início e o fim da safra. "Agora, aumentou um pouco o preço do açúcar, mas sei que disse o país jamais voltará a viver", disse em março de 2005 o presidente cubano, Fidel Castro, para quem a indústria do açúcar deixou de ser o principal sustento da economia local para se converter em sua "ruína".

A indústria açucareira consome "três vezes mais diesel do que o Ministério dos Transportes", disse Castro naquela oportunidade. Segundo suas contas, esse consumo significava um gasto de mil toneladas de combustível por dia, ao custo de US$ 183 milhões. Em novembro passado, o mandatário voltou à carga e disse que "já não se coloca" o dinheiro em "colossais disparates como o da indústria açucareira". Também criticou a pasta do setor por dispor de dois mil a três mil caminhões a mais em relação aos que tinha quando produzia oito milhões de toneladas.

O último ano em que Cuba teve um resultado desse calibre foi em 1990, quando colheu 8,4 milhões de toneladas. A partir daí, a produção começou a diminuir paulatinamente até chegar ao atual 1,3 milhão, o mais baixo rendimento desde o início do século XX. Uma drástica reforma aplicada em 2002, para adequar a produção aos baixos preços do açúcar na época, deixou em atividade apenas 85 engenhos dos 156 existentes até então. Pouco mais de uma dezena desses engenhos tiveram suas atividades voltadas à produção de álcool, açúcar orgânico e outros derivados.

A reestruturação reduziu para menos da metade as terras dedicadas à cultura da cana-de-açúcar e racionalizou o emprego através da transferência de pessoal para outros ramos da economia ou com a criação de planos de estudos para requalificar milhares de trabalhadores, entre outras medidas. Em uma segunda etapa desta mudança na atividade, iniciado em meados de 2005, decidiu-se pelo fechamento – em alguns casos temporariamente – de aproximadamente 40 dos 85 engenhos ainda em funcionamento e dedicar a outros cultivos um terço dos 900 mil hectares nos quais ainda era plantada a cana-de-açúcar. (IPS/Envolverde)

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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