Fórum Social Mundial: Indígenas reclamam protagonismo

México, 24/01/2006 – Líderes indígenas da América Latina estão satisfeitos com a chegada ao governo da Bolívia de um dos seus, Evo Morales, o que assumem como um triunfo próprio. Agora, esperam ser protagonistas no Fórum Social Mundial, que começa nesta terça-feira na Venezuela. "No Fórum Social Mundial até agora participou somente um setor dos indígenas e seus debates não chegaram a ser socializados, o que é uma falha, pois nós devemos isso às nossas comunidades", disse à IPS a equatoriana Rosa Alvarado, dirigente da Coordenadora Indígena da Bacia Amazônica (Coica).

O encontro na Venezuela, que terminará no próximo domingo, é o sexto anual de representantes da sociedade civil de todo o mundo, cuja primeira edição data de 2001 em Porto Alegre. Este ano foi adotado o formato policêntrico, com o encontro que terminou nesta segunda-feira em Bamako e outros marcados para o final de março em Karachi, no Paquistão. Em quase todas as reuniões anteriores participaram delegados de organizações indígenas, mas não foram protagonistas e sempre estiveram em minoria.

"Temos sido atores marginais e marginalizados (do FSM), mas esperamos que isso mude e que agora sejamos considerados e ouvidos", disse à IPS Manuel Castro porta-voz da poderosa Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie). Segundo pesquisas feitas pelo Instituto Brasileiro de Análises Econômico e Social nos fóruns anteriores, a maioria de seus participantes é de jovens que não militam em partidos políticos e contam com uma formação universitária.

Para a dirigente da Coica, que aglutina organizações do Brasil, da Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela, a presença dos indígenas no fórum de Caracas chegará a ter importância somente se alimentar-se da opinião das comunidades e se suas resoluções posteriores chegarem a elas. Castro disse, por sua vez, que o sexto FSM é um importante lugar para debater e denunciar. Entretanto, pensa que essas características já devem mudar para a definição de "planos de ação sólidos e concretos". Os dois dirigentes consideram que a chegada do aymara Morales à presidência da Bolívia ajudará a posicionar a questão indígena neste encontro da sociedade civil.

Postura semelhante expressou o mexicano Alberto Gómez, coordenador da organização global Via Camponesa para Canadá, Estados Unidos e México. "Estamos agora em uma conjuntura importante devido à vitória de Morales, por isso esperamos que o tema indígena consiga se posicionar como um dos mais relevantes do Fórum", disse à IPS. "Até agora, como camponeses e indígenas fomos mais um ator no Fórum, mas isso deve mudar a partir de agora", afirmou o também dirigente da mexicana União Nacional de Organizações Regionais Camponesas Autônomas.

Nos últimos 15 anos, a influência e o poder político das organizações dos povos originários da América Latina tiveram um crescimento exponencial. Assim, derrubaram governos na Bolívia e no Equador, e promoveram novos caminhos nos processos políticos como no caso do México, onde fez sua irrupção o guerrilheiro Exército Zapatista de Libertação Nacional. Além disso, agora têm pela primeira vez na história moderna um presidente que reivindica sua raça. Trata-se do novo mandatário da Bolívia, país onde 60% de seus 9,2 milhões de habitantes são identificados com algum povo originário.

Mas embora tenham crescido politicamente nos últimos anos, a grande maioria dos cerca de 40 milhões de indígenas que vivem na América Latina e no Caribe permanecem em situações de extrema marginalização. Na região, onde os povos aborígines se concentram majoritariamente na Bolívia, Guatemala, México, Peru e Equador, o fato de nascer em alguma comunidade destas etnias é quase uma condenação a ser pobre, afirma o Banco Mundial em seu estudo "Povos indígenas, pobreza e desenvolvimento humano na América Latina: 1994-2004", divulgado em maio do ano passado.

As organizações étnicas lutam para mudar essas condições de vida, enquanto lutam para terem reconhecidas suas particularidades sociais e culturais e seu direito de mantê-las e recriá-las. "Esperamos que Evo Morales faça bem as coisas, pois nos sentimos muito orgulhosos dele" e seu trabalho como presidente pode significar um avanço adicional nas lutas dos indígenas da região, afirmou a porta-voz da Coica. Para o indígena Castro, se Morales fracassar com presidente será uma "vergonha" para as etnias de América. "Existe o perigo de não haver uma mudança definitiva na Bolívia, o que seria um duro golpe", advertiu. Mas se tiver êxito, seu exemplo "poderá impulsionar outros países com alta presença indígena, como o Equador, a optarem por escolher um presidente" com suas características, acrescentou.

Vários indígenas da América Latina e do Caribe assistiram no domingo, em La Paz, como testemunhas de honra a posse de Morales, que lhes enviou convites pessoais, e agora fazem as malas para participarem do FSM. Morales, de 46 anos e pertencente à etnia aymara, é um dirigente da condução das mobilizações dos plantadores da ancestral folha de coca na região do Chapare e reivindica em seu discurso as lutas de seus antepassados e a cosmovisão dos nativos a respeito do mundo e da história. (IPS/Envolverde)

Diego Cevallos

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