África: Alívio pela substituição do Sudão na cúpula

Cartum, 26/01/2006 – A República do Congo vai substituir este ano a Nigéria na presidência da União Africana (UA), pois o Sudão adiou suas pretensões até 2007, para alívio da maioria dos governos do continente e aprovação de ativistas de direitos humanos. "Creio que foi uma decisão sábia por parte das autoridades sudanesas", disse à IPS Nhial Bol, editor do jornal independente sudanês Citizen, após a cúpula da UA que concluiu na terça-feira em Cartum. O bloco, estruturado á semelhança da União Européia, substituiu em 2002 a Organização para as Unidades Africanas, criadas em 1963 no contexto das revoluções independentistas.

Cinco presidentes da UA haviam solicitado ao mandatário do Sudão, Omar Al Bashir, que retirasse sua candidatura à presidência da entidade, por causa da imagem ruim causada por seus antecedentes em razão da crise humanitária na região de Darfur. Se Bashir mantivesse sua pretensão "iria sufocar as negociações de paz que acontecem em Abuja entre os rebeldes em Darfur e o governo do Sudão", disse Nhial Bol. Um dos pontos contenciosos nas conversações da capital da Nigéria são as violações do cessar-fogo. Antes do início da cúpula, os rebeldes do sul haviam exigido da UA que a conferência fosse feita em outro dos 53 países da aliança continental.

Seu temor era de que Cartum utilizasse essa posição de privilégio para lançar um manto de sombra e silêncio sobre as ações em Darfur do exército e das milícias árabes Janjaweed, que, com apoio ou anuência do governo, cometem atrocidades contra as comunidades negras. Os janjaweed (homens a cavalo) foram acusados de assassinatos, violações e saques. Mais de 200 mil pessoas foram mortas e mais de dois milhões foram desalojadas desde que em 2003 começou o conflito entre Cartum (com predomínio árabe) e as comunidades étnicas fur, masalit e zaghawa, majoritárias em Darfur, das quais partia o grosso do apoio aos movimentos insurgentes que pegaram em armas.

Ao ser consultado se o Sudão retirou sua candidatura por causa das acusações sobre violações de direitos humanos em Darfur, o ministro sudanês da informação, Zahawi Ibrahim Malik, respondeu que "não. Alguns setores hostis ao Sudão impediram que ocupássemos a presidência". O presidente George W. Bush havia tornado pública sua consternação pela possibilidade de o Sudão assumir a presidência da UA. Depois do golpe militar de 1989 que resultou no estabelecimento de uma ditadura militar islâmica liderada pelo atual presidente, Omar Hassan Al Bashir, o Sudão recebeu os militantes islâmicos, entre eles Osama bin Laden, que morou nesse país entre 1991 e 1996.

Outros dos que quiseram aproveitar a oportunidade para se refugiar no Sudão foi Ilich Ramírez Sánchez, conhecido como "o Chacal", que em 1994 foi detido e extraditado para a França, onde foi condenado à prisão perpétua por vários atentados e seqüestros na Europa nas décadas de 70 e 80. O Sudão também está na lista de países que Washington acusa de apoiar organizações terroristas. Cartum tentou, sem sucesso, ser retirado dessa lista. O Sudão pretendia que o acordo de paz entre o sul e o norte obtido no final de 2005 com os rebeldes do sul do país servisse para persuadir a Casa Branca a por fim a um embargo comercial que impede empresas norte-americanas de fazer negócios com o Sudão.

A candidatura do Sudão dividiu a África em duas metades, mas, finalmente, a questão foi resolvida depois que uma comissão da UA formada por Gabão, Zimbábue, Burkina Faso, Djibuti e Egito (representante as cinco nações da África) decidiu que o Sudão assumiria a presidência somente em 2007. O Sudão presidiu a Organização da União Africana, que precedeu a UA, em 1978. Consultado sobre a solução alcançada, Bol disse: "O ano que vem será outro ano. Quem a sabe o que pode acontecer. A presidência do Sudão pode estar sujeita ao fim do conflito em Darfur". Mas Bashir disse que valoriza muito mais ser o anfitrião da cúpula de 2006 do que presidir a UA.

"O Sudão adotou esta decisão porque não queríamos uma divisão na UA. Nosso objetivo é juntar as pessoas (da África) para enfrentar os problemas que temos pela frente", disse Bakri Mullah, diretor de informação externa, ao ser entrevistado pela IPS. "Uma UA dividida não está entre os interesses do Sudão". Basicamente, a África setentrional e a África oriental apoiavam a candidatura sudanesa. A África ocidental e a África central eram contra. O sul da África estava dividido. Enquanto os presidentes Levi Mwanawasa, de Zâmbia, e Festus Mogae, de Botswana, apoiavam a postura da África ocidental e central, o restante se mostrava favorável à do norte e do leste.

Em seu discurso de aceitação da liderança da UA, o presidente da República do Congo, Denis Sassou Nguesso, disse que buscará atender o problema da fome, da pobreza e da aids, que estão devastando o continente. "Creio que foi uma boa decisão", disse Bol. "A UA esteve à beira da morte. Se votassem em Bashir, as vítimas seriam Darfur e o povo africano", disse á IPS Reed Brody, da Human Rights First. "Teria colocado em questionamento a credibilidade da UA", acrescentou. (IPS/Envolverde)

Moyiga Nduru

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