Paris, 11/01/2006 – Os ecologistas alertam que a última crise gerada pelo fornecimento de gás natural da Rússia para a Ucrânia reavivou o interesse pelo desenvolvimento da energia atômica na Europa, repleta de perigos. Entre os riscos da produção de energia nuclear, os ambientalistas se preocupam com o armazenamento dos resíduos radioativos, a segurança dos reatores e a disponibilidade de urânio no futuro próximo. "Os geradores nucleares deixam 95% da energia fissionável no material combustível", disse á IPS o porta-voz da organização ambientalista francesa Sortir du Nucléaire (Sair do nuclear), Stéphane Lhomme.
"Esta enorme quantidade de lixo permanecerá radioativo por milhares de anos, representam um risco incalculável para a saúde e o meio ambiente, e ninguém ainda encontrou um lugar apropriado e uma forma segura de se desfazer dele", disse Lhomme. Além disso, a evolução do mercado de urânio levou as políticas energéticas nucleares a um beco sem saída. A disponibilidade de urânio será insuficiente para atender a demanda em 2020, previu. Porém, líderes conservadores agora reclamam a renovação dos reatores nucleares.
Na Alemanha, Roland Koch, primeiro-ministro do Estado de Hessen e uma das principais figuras da União Democrática Cristã (UDC), o novo partido no governo, reclamou que seja reconsiderada a decisão do governo anterior, do Partido Social Democrático (PSD) e dos Verdes de interromper o uso de energia atômica até 2030. A anterior coalizão governante PSD-Verdes havia lançado um projeto de investimentos em programas de energia eólica e solar. Koch disse à imprensa alemã, na segunda-feira, que a idéia de abandonar gradualmente a produção de energia nuclear seria "um desastre econômico". A Alemanha "deve responder à pergunta (de como atender a demanda por energia). Esta é uma questão de ordem tecnológica e econômica, não ideológica", ressaltou.
A energia atômica abastece a terça parte das necessidades energéticas alemãs. Com uma produção de 15 mil megawatts de energia eólica, a Alemanha lidera a lista mundial de países que recorrem a fontes limpas, segundo a Agência Européia de Energia. Também possui a maior superfície de coleta de energia solar do mundo, com cerca de seis milhões de metros quadrados de celulares solares em uso. Mas agora que os Verdes ficaram fora do governo e o PSD é o sócio menor da coalizão no poder, estes êxitos do passado correm o risco de evaporar.
No momento, o atual governo está de acordo em prosseguir com o plano de ir fechando gradualmente as usinas nucleares, mas a crise do gás fez com que líderes muito influentes, como Koch, se sentissem com força para desafiar essa política. O PSD alemão resiste a qualquer medida para reavivar o poder nuclear. O ministro social-democrata de Meio Ambiente, Sigmar Gabriel, pede urgência aos cidadãos para que economizem e consumam menos energia, melhorando o isolamento de suas casas. "Se todos os alemães desligarem todos seus eletrodomésticos em lugar de deixá-los ligados na tomada, poderíamos fechar uma usina nuclear", disse Gabriel aos jornalistas, no domingo."Na área ambiental, o quilowatt mais eficiente é o que não consumimos", acrescentou.
No final de dezembro, Ucrânia e Rússia se envolveram em uma disputa por causa do enorme aumento no preço do gás natural russo, vital para a economia ucraniana. A questão incluiu a ameaça de Moscou de cortar o fornecimento, e de Kiev de desviar o gás russo que é exportado por gasodutos para a Europa passando por seu território. Em Paris, o presidente Jacques Chirac anunciou, na semana passada, que seu governo aprovaria uma nova geração de usinas nucleares que deveriam estar funcionando até 2020. "A França deveria preservar o avanço no poder nuclear. Numerosos países já trabalham na nova geração de reatores nucleares que deverão estar funcionando entre 2030 e 2040, produzindo menos lixo nuclear e otimizando o uso de materiais fissionáveis", afirmou.
A energia nuclear atente mais de 80% das necessidades energéticas da França. O uso de fontes renováveis, com o vento, é insignificante. Segundo a agência estatal para o meio ambiente e a administração de energia (Ademe), a França tem capacidade de 632 megawatts em turbinas eólicas, que representam apenas 0,15% da geração total. Um relatório oficial divulgado em dezembro pede urgência ao governo para lançar um programa substancial de energia eólica, porém Chirac prefere aumentar o investimento em potência nuclear. O governo encomendou a construção de uma terceira geração de usinas nucleares em outubro, cuja produção deve começar em 2012.
No ano passado, a França ganhou a licitação para construir o Reator Experimental Termonuclear Internacional (ITER) aumentando substancialmente sua contribuição financeira ao projeto. Espera-se que o ITER reproduza a fusão utilizando mais materiais fissionáveis para gerar enormes quantidades de energia. O reator está sendo construído ao custo de US$ 12 bilhões. França e União Européia pagam, juntas, a metade desse valor.
Porém, muitos cientistas consideram que este investimento é extremamente de risco, devido às dificuldades tecnológicas que o ITER terá de superar, especialmente no tocante ao uso de trítio, um elemento instável e altamente ratioativo. Os inspetores franceses admitiram no mês passado que 34 das 58 usinas nucleares da França apresentam defeitos de projeto nas bombas de refrigeração, que supõe-se devem ser ativadas em caso de acidente. "Pedimos à agência francesa de segurança nuclear que feche os 34 reatores", disse Lhomme. Seu pedido foi ignorado. (IPS/Envolverde)

