Genebra, 23/01/2006 – Manifestações contra o Fórum de Davos, a conferência de líderes empresariais, políticos e economistas neoliberais que acontece anualmente neste centro turístico nos Alpes, aconteceram no final de semana em várias cidades da Suíça. O principal ato do sábado aconteceu na pequena localidade de Reconvilier, noroeste do país, onde centenas de sindicalistas marcharam em protesto pela decisão da empresa proprietária da fundição Swissmetal Boillat de fechar o estabelecimento. A marcha dos trabalhadores, acompanhados de suas famílias, reflete a resistência "diante da arrogância e influência do poder econômico", disseram os organizadores da manifestação.
Durante esta semana acontecerão novos atos de oposição ao Fórum de Davos em Berna, capital suíça, e em cidades como Basiléia, San Gall, Lucerna, Coire, Thun, Berthud e Lugano. A conferência de Davos, organizada pelo Fórum Econômico Mundial (FEM), começa nesta quarta-feira e vai até domingo. O aspecto mais significativo destas manifestações é que pela primeira vez, nos 34 anos de vida da conferência do FEM, os atos de protestos acontecerão fora da própria cidade de Davos, localizada no cantão de Grisón, sudeste da Suíça.
Daniele Jenni, do Partido Ecologista da Suíça, explicou à IPS que foram obrigados a renunciar aos protestos no mesmo cenário do Fórum porque "de fato, durante o FEM, em Davos não vigoram os direitos fundamentais e muito menos o direito de manifestação". Davos e todo o cantão de Grisón é uma zona "policialmente ocupada durante este período", descreveu Jenni, que desde Berna coordena as ações de protesto de organizações de esquerda em todo o país. Nestes dias para realizar uma manifestação em Davos é necessário submeter-se a controles policiais antes de ingressar na zona e em seguida inscrever-se em um registro de "extremistas" do serviço de prevenção da polícia federal suíça, afirmou a ativista.
Estas condições "são inaceitáveis", enfatizou Jenni, sobretudo porque não se pode exercer os direitos fundamentais, tais como o de discordar e se manifestar, depois de ter passado por "esses procedimentos indignos", acrescentou. Os opositores à reunião do FEM o qualificam de "fórum privado, onde uma elite formada por homens poderosos (e muito poucas mulheres) se dedica a ditar as prioridades políticas e discutir os grandes negócios", resumiu Iris Widmer, da Attac Suíça. Widmer afirmou que a cada dia se pode ver as conseqüências dessas políticas, na guerra contra o Iraque, na pobreza e na fome de numerosos países do Sul, na destruição da segurança social nos países do Norte, no desemprego em massa, na destruição do meio ambiente, e também nos lucros sem precedentes obtidos pelas multinacionais.
Jenni afirmou que o Fórum de Davos expõe a intenção "dos ricos e dos poderosos do mundo" de fazer valer seus interesses, "os interesses do benefício e do poder em detrimento da maioria da população do mundo, sobretudo do Terceiro Mundo". Com as manifestações que começaram no fim de semana na Suíça, pretende-se demonstrar que "existe uma resistência contra isso, que essa tendência ao lucro não pode ser aceita como algo natural", disse Jenni. A Attac Suíça realizará pelo sétimo ano consecutivo sua conferência denominada O Outro Davos, para discutir as propostas de grupos de base alternativos e estimular as mobilizações sociais contra o FEM, disse Widmer à IPS.
Attac é um movimento internacional, criado na França em 1998, mas com ramificações em quase todo o mundo, que se pronuncia pelo controle democrático dos mercados financeiros e de suas instituições. O Outro Davos acontecerá na sexta-feira em Zurique, com participação de Nahla Chahal, diretora de uma associação de pesquisa árabe na França, e de Tânia Quizoz Mendieta, ativista contra a privatização da água na Bolívia. A conferência da Attac Suíça também contará com a presença de Jay Arena, militante de grupos de base e pacifistas dos Estados Unidos, que informará sobre as dificuldades que enfrentam os moradores pobres de Nova Orleans castigados pelo furacão Katrina.
A conferência discutirá a "guerra contra a pobreza" declarada pelos responsáveis pelas políticas neoliberais e das guerras imperialistas, disse Widmer em referência à campanha lançada pelo Grupo dos Oito países mais poderosos do mundo na cúpula realizada na localidade escocesa de Gleneagles, em julho de 2005. Widmer disse que os conferencistas irão analisar se essa "guerra contra a pobreza" não é "apenas uma nova forma de dominação imperialista do Norte sobre os Países do Sul". Mas além dessas tendências que o Fórum de Davos representa, cresce uma resistência à ideologia da privatização e do mercado, advertiu Jenni.
Isso se nota claramente na América Latina, por exemplo, na Venezuela e no caso mais recente da Bolívia, onde não se aceita mais essa ideologia propagada nas décadas de 80 e 90, afirmou a ativista. Por isso, é significativo que os até agora centros tradicionais da economia e das grandes empresas, como Davos, já não estão mais sozinhos no mundo, ressaltou o coordenador das manifestações. (IPS/Envolverde)

