Fórum Social Mundial: A África no centro dos debates

Bamako, 24/01/2006 – O capítulo do Fórum Social Mundial que se desenvolveu na capital de Malí conseguiu concentrar-se em problemas da África que costumam ficar enterrados e adiados em outros contextos, disse o coordenador da conferência, Mamadou Goita. Os assuntos e enfoque especificamente africanos tiveram maior espaço neste fórum de Bamako porque mais africanos puderam chegar até esta cidade, participar das discussões e apresentar suas próprias preocupações e propostas, disse Goita ao TerraViva/IPS.

"A africanização das problemáticas tratadas não foi algo deliberado. Simplesmente é a primeira vez que tivemos uma maioria de africanos em um FSM. Em geral, as organizações africanas que participaram dos fóruns anteriores não passaram de uma centena. Para a maioria dos africanos é muito caro viajar até Porto Alegre ou Mumbai", acrescentou Goita. Como exemplo, citou as sessões de mulheres, que desta vez se concentraram em problemas como a mutilação genital feminina, o casamento de jovens e o analfabetismo entre as meninas. Outras questões que tiveram destaque especial neste fórum foram o status do Saara Ocidental e os conflitos o Sudão e na República Democrática do Congo.

Embora nem todos os assuntos abordados tenham sido exclusivamente africanos, o fórum se enriqueceu com as interessantes colaborações de um grande número de especialistas de organizações não-governamentais e ativistas da sociedade civil. "Participaram mais de 300 pessoas das áreas rurais apenas de Malí, além de outras oito mil procedentes de países vizinhos. Todos intervieram nos debates e fizeram com que as discussões fossem mais complexas e ricas. Isto nunca aconteceu antes".

Também foi a primeira vez que se criou um ambiente especial para discutir questões relativas à infância, com a necessidade de desenvolver instrumentos alternativos para educar as crianças no meio rural. Um fórum paralelo de jovens, realizado no estádio Modibo Keita da capital de Malí, ofereceu uma rara oportunidade para intercâmbio de pontos de vista com anciãos e outros adultos sobre problemas que afetam suas vidas, incluindo desemprego, emigração e educação. "Isto foi algo único, porque habitualmente os fóruns juvenis acontecem de maneira autônoma e as discussões e os debates ficam confinados ao diálogo entre jovens", ressaltou Goita.

Outro elemento inovador foi que, para promover sua agenda, o Fórum Social de Malí organizou uma maratona solidária de 15 quilômetros que se dedicou a analisar a mercantilização do esporte, sobretudo de homens e mulheres africanos "comercializados" internacionalmente. "Outro esporte é possível, não um esporte em que as pessoas são compradas e vendidas como mercadorias. Os desportistas deveriam ser tratados com dignidade ao mesmo tempo em que se desfruta do jogo. O esporte não deve se converter em outra transação empresarial", afirmou Goita.

O ativista estimou, mesmo sem poder estabelecer números exatos, que, de acordo com os informes policiais e registros, participaram do capítulo africano do FSM cerca de 11 mil pessoas. Foram realizadas entre 300 e 700 atividades diárias, mais do que as previstas. Tudo isso necessitou de um grande esforço de organização, possível com a contribuição financeira do governo de Malí, um dos mais pobres do mundo, e a cessão de instalações oficiais, como centros de conferências, museus e bibliotecas. De todo modo, faltaram acomodações e instalações sanitárias para abrigar todos os participantes.

A ativista Chele Degruccio, da filial queniana da Federação Luterana Mundial, considerou difícil participar das sessões por causa dos atrasos e do grande número de atividades. Miodrag Shrestha, da Sérvia e Montenegro, conseguiu participar de boa parte das atividades que tinha programado, mas teve dificuldades como o idioma, devido à falta de um sistema mais eficaz de intérpretes. As traduções foram em francês, inglês, português e bambara (a linguagem local).

Margaret da Costa, ativista pelos direitos humanos, ficou alojada em um quarto sem água potável, não pôde acompanhar muitas sessões porque a maioria não foi traduzida para o português e se perdeu nas ruas de Bamako. Mesmo assim, considerou "fantástico" que um país pobre como Malí tenha hospedado com êxito um acontecimento de alcance mundial como o FSM. "As pessoas falam e forjam alianças. Isso foi o importante, e não os pequenos problemas próprios de uma conferência realizada em um país com sérias dificuldades", ressaltou. (IPS/Envolverde)

(TerraViva/IPS)

Zarina Geloo

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