Bamako, 23/01/2006 – Quando começava, na quinta-feira, o sexto Fórum Social Mundial (FSM) na capital de Malí, muitos notavam no ar o espírito da Conferência de Bandung, que em 1955 preparou o terreno para a criação do Movimento dos Não-alinhados (Noal). Na cidade Indonésia de Bandung se reuniram naquela oportunidade representantes de 29 países da África e da Ásia, preocupados com as tentativas de controle de suas políticas internas pelas superpotências da época, Estados Unidos e União Soviética. Os que participam em Bamako do FSM, conferência anual de organizações da sociedade civil em todo o mundo que este ano terá três fases em três capitais distintas, reclamam a reanimação da iniciativa de Bandung.
Ativistas consideram que a revitalização do movimento intergovernamental ajudaria a atender as iniqüidades nos países em desenvolvimento, às quais se atribui políticas adotadas pelo Norte industrializado. "Continuamos vivendo formas novas de colonização, pela qual os países em desenvolvimento continuam sofrendo a ditadura dos industrializados", disse Samir Amin, diretor do Fórum do Terceiro Mundo, rede de centros de estudos da Ásia e da África com sede em Dakar. Amin fez estas declarações durante uma cerimônia em que o FSM comemorou os 50 anos da iniciativa de Bandung, que em 1961 derivou na fundação do Noal.
"É injusto que 75% da população mundial esteja sob domínio de um grupo muito pequeno. Enfrentamos um sistema colonial que priva as nações em desenvolvimento do direito de escolher nosso modo de vida", afirmou Amin. "As privatizações e a liberalização econômica que continuam afligindo o Terceiro Mundo constituem um debate que se pode traçar até o espírito de Bandung", acrescentou. Os Estados representados na conferência de Bandung também procuravam promover a cooperação entre África e Ásia, com vistas a reduzir a dependência das nações ricas.
De todo modo, a pressão da Guerra Fria entre Estados Unidos à frente do campo capitalista e a União Soviética liderando o lado comunista minou a eficácia do Noal, cujos membros supostamente neutros se inclinaram para um ou outro grupo. Paradoxalmente, o fim da Guerra Fria também afetou o Movimento, pois o privou de sua razão de ser. François Houtart, diretor-executivo do não-governamental Centro Tricontinental, com sede na Bélgica, considera possível reivindicar o espírito de unidade que prevaleceu em Bandung. "Propomos construir um novo mundo, pôr fim a esta era colonial a que estamos submetidos pela Organização Mundial do Comércio (OMC), pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial", sentenciou. Houtart considerou que essas instituições "impuseram seus termos, como nos obrigar a privatizar ou criar políticas comerciais injustas", acrescentou.
Os críticos das normas ditadas pela OMC advertem que os países em desenvolvimento são postos em desvantagem ao se verem obrigados a reduzir suas barreiras comerciais mesmo quando a industrialização mantém seus mecanismos de proteção. Ao mesmo tempo, o incentivo às privatizações por parte do FMI e do Banco Mundial deixam serviços básicos, como saúde, educação, eletricidade e água potável, fora do alcance dos mais pobres. "É importante que todos os africanos e asiáticos sejam informados sobre estes assuntos e resistam unidos", disse à IPS o ex-ministro de Turismo de Malí, Aminata Traore. Estes esforços dariam impulso à Aliança Estratégica Asiático-Africana instalada pelos governos na comemoração do cinqüentenário da Conferência de Bandung, no ano passado.
O FSM é uma reunião anual de representantes da sociedade civil de todo o mundo que teve sua primeira edição em 2001 em Porto Alegre, com alternativa ao Fórum Econômico Mundial de Davos, que desde 1971 reúne empresários e governantes nesse exclusivo centro turístico da Suíça. Enquanto o Fórum de Davos convoca financistas, empresários, chefes de Estado e de governo favoráveis ao atual processo de globalização, o FSM reúne organizações não-governamentais e outros grupos da sociedade civil que, por diversas razões, são contrárias a ela.
Alguns eixos temáticos do FSM policêntrico em Bamako são: a guerra, a segurança e a paz, a expansão do liberalismo e o empobrecimento e o apartheid que ocasiona, o direito de fuga e das migrações, a violação dos direitos econômicos, sociais e culturais, a agressão que sofrem as sociedades camponesas, entre outros. Também será abordada a luta das mulheres, relação entre liberalismo e patriarcado, problemas dos meios de comunicação e informação, destruição dos ecossistemas, direito internacional, a Organização das Nações Unidas, o comércio internacional, dívida externa, avanço da democracia e soberania dos povos.
Depois do primeiro Fórum de 2001, Porto Alegre também foi sede em 2002 e 2003, sendo que em 2004 foi realizado em Mumbai (Índia). A novidade do FSM deste ano é que acontecerá em três cidades de três continentes: Bamako, capital de Malí; Caracas, capital da Venezuela, e Karachi, importante centro financeiro do Paquistão no litoral do Mar da Arábia. (IPS/Envolverde)

