Fórum Social Mundial: Imperialismo e a guerra em xeque

Caracas, 26/01/2006 – A horizontalidade e igual status atribuído às atividades, organizações e participantes no Fórum Social Mundial, na capital venezuelana, não impediu que se destacassem figuras como Cindy Sheehan, a mãe de um soldado norte-americano morto no Iraque e fervorosa ativista antibélica. "O governo do meu país não deveria se imiscuir em nenhum lugar", afirmou Sheehan desde um palco de madeira aos milhares de assistentes ao encontro mundial da sociedade civil que acontece até domingo em Caracas. "Devemos deter a guerra no Iraque e não se deve permitir que isso ocorra outra vez", ressaltou enfaticamente.

A oposição ao imperialismo e à guerra é, junto com "outro mundo é possível", o lema central e unificador para as muito variadas expressões ideológicas encontradas nesta sexta edição policêntrica do Fórum Social Mundial (FSM), com outra reunião semelhante realizada em Bamako entre os dias 19 e 23 passados, e uma terceira marcada para março em Karachi, no Paquistão. Uma mostra desse perfil foi a variada marcha inaugural com dezenas de organizações visitantes e venezuelanas que somaram cerca de 15 mil manifestantes, iniciada na tarde de terça-feira e que seguiu madrugada adentro do dia seguinte nos calçadões de Los Ilustres e Los Próceres, no sul da capital venezuelana.

Cerca de 70 mil participantes se inscreveram até a quarta-feira para participar de algumas das 1.800 atividades que pouco mais de duas mil organizações realizarão até domingo. A mobilização mostrou a pluralidade de interesses e de causas que convergem no FSM, com predomínio em política de cunho esquerdista e simpatia de dezenas de grupos e movimentos em relação ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Palavras de ordem como "parem Bush", "não à guerra", "paz para a Colômbia" e "outro mundo, outra América é possível", se misturam com "alerta, alerta que caminha, a espada de Bolívar pela América Latina", a mais gritada pelos anfitriões.

Desde o início se misturaram grupos venezuelanos com visitantes, entre os quais os mais numerosos são os procedentes do Brasil, da Colômbia e da América do Norte. Delegações do Partido dos Trabalhadores, do Brasil; Cristãos pela Paz e a Justiça, da Colômbia; da organização camponesa venezuelana Ezequiel Zamora, da União Nacional Revolucionária da Guatemala e da Grassroots Global Justice (Justiça Global da Gente).

Marchando entre o grupo cristão da Colômbia estava Adriano de Jesús, de Antióquia, que carregava um cartaz com fotos de vítimas de um massacre cometido no Vale do Cauca por paramilitares direitistas de seu país, há 10 anos. "Viemos exigir que haja paz na Colômbia e lutar por ela", disse Jesús à IPS. "Mas também viemos aprender e a ver, se é verdade tudo o que dizem", acrescentou. "Ver de perto o processo" que Chávez dirige depois da denominação revolução bolivariana é algo confessado por quase todos os visitantes consultados, e esteve presente no ano de preparação desde que se escolheu Caracas para a versão americana por ocasião do V Fórum, realizado em Porto Alegre, onde nasceu esse encontro mundial.

No caso da Venezuela, a presença de Chávez se projetou devido ao seu discurso e porque vários de seus programas em andamento têm por base teses já consagradas do Fórum, como a luta por um mundo sem excluídos, bem como a oposição a todo tipo de imperialismo, à guerra e ao neoliberalismo. Mas também porque o presidente venezuelano anima campanhas defendidas pelo FSM, como sua radical crítica à Área de Livre Comércio das Américas (Alca) incentivada por Washington, e porque é frontal ao condenar a invasão do Iraque desde março de 2003 e também demais políticas norte-americanas no plano internacional.

Outro flanco desta identificação é que o governo chavista apóia o FSM, que por definição deve ser autogestionado, com pelo menos US$ 8 milhões, a maior parte na forma de apoio logístico. A participação de Chavéz "não faz parte da programação regular do Fórum", lembrou à IPS Julio Fermín, do comitê organizador local, e sua presença "estará circunscrita a um encontro em um anfiteatro a convite do Movimento dos Sem-Terra do Brasil e da organização internacional Via Camponesa", acrescentou.

Pouco antes do encerramento do encontro, Chávez se reunirá em particular com representantes da Assembléia Mundial dos Povos, uma das guias deste processo de fóruns desde 2001, quando surgiu em Porto Alegre como alternativa ao Fórum Econômico Mundial que também acontece anualmente nesta oportunidade na localidade turística de Davos, na Suíça. Mas a simpatia do governo do país anfitrião com o FSM é evidente e várias organizações estudantis, sindicais e camponesas que apóiam o processo liderado pelo Movimento V República participaram da marcha, guiada por veículos de entidades oficiais.

Manifestantes antimilitaristas de toda a vida passaram junto aos piquetes da militarizada Guarda Nacional, que, em uniforme de faxina e portando fuzis de assalto, custodiavam o desempenho da manifestação. O primeiro dos eixos temáticos do VI FSM é "Poder, política e lutas pela emancipação social", para o qual se inscreveu a maioria das conferências, "porque este é um fórum político, as organizações que participam têm uma visão política do mundo", disse à IPS Eduardo Liendo, do comitê organizador. Outros são "Estratégias imperiais e resistências dos povos"; "Alternativas ao modelo civilizatório internacional"; "Trabalho, exploração e reprodução da vida"; e "Comunicação, culturas e alternativas democratizantes".

A marcha terminou com um espetáculo musical intitulado "Dando e dando", na esplanada de Los Próceres, que faz parte da principal cidadela militar de Caracas, e foi um intercâmbio entre artistas como os cubanos Amaury Pérez e Santiago Feliú, e venezuelanas, como Cecília Todd e Lilia Vera. Depois do discurso, Sheehan convidou a multidão a gritar em coro, em castelhano, o lema da marca e do FSM: "Não á guerra, não à guerra". (IPS/Envolverde)

Humberto Márquez

Humberto Márquez fue corresponsal de IPS en Venezuela entre 1994 y 1996, y retomó esa labor en 2002. Fue corresponsal de Agence France Presse para Venezuela y el Caribe entre 1977 y 1992, y redactor de la sección internacional del diario El Nacional de Caracas entre 1997 y 2002. Periodista venezolano, graduado en Comunicación Social (1982) por la Universidad Central de Venezuela, durante más de 30 años ha cubierto y descrito el acontecer político y económico de Venezuela, su sociedad y su condición de encrucijada en procesos de integración y cambio en América Latina y el Caribe.

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